Leveza, biomateriais e ruptura: Tendências emergem do Inspiramais

Salão aponta novos caminhos para a moda ao unir tecnologia, identidade territorial, sustentabilidade e uma revisão do conceito de luxo

Texturas leves, cores suaves e biomateriais traduzem as novas direções da moda
Texturas leves, cores suaves e biomateriais traduzem as novas direções da moda Foto : Marília Pozzobom / Montagem CP

Transparências que parecem flutuar sobre o corpo, materiais que nascem de processos biológicos e silhuetas que rompem com qualquer ideia de padrão. A moda vive um momento de virada, em que leveza, tecnologia e identidade caminham juntas, apontando para criações mais sensoriais, autorais e conectadas ao tempo presente. Esse movimento se traduz em três tendências que começam a ganhar força no setor e ajudam a entender os rumos das próximas coleções.

A primeira delas aposta na leveza como linguagem. Com uma estética mais etérea, o design valoriza transparências, volumes suaves e materiais como tules e nylons, criando peças que exploram o toque, o ar e a sensação de movimento. A tecnologia, especialmente a inteligência artificial, aparece como aliada criativa, auxiliando no desenvolvimento de superfícies e construções que reforçam uma moda mais sensorial e afetiva.

Na sequência, a natureza deixa de ser apenas referência estética para se tornar tecnologia viva. Texturas orgânicas, camadas que lembram estruturas celulares e materiais desenvolvidos a partir de biopolímeros, nanoceluloses e culturas bacterianas indicam o avanço dos biomateriais como uma das frentes mais relevantes da inovação no setor. É um diálogo entre ancestralidade e futuro, em que ciência e moda se encontram no próprio processo de criação.

O terceiro movimento é marcado pela ruptura. Em resposta a um mercado cada vez mais homogêneo, as criações passam a explorar construções tridimensionais, dobras abruptas, sobreposições e fragmentações que reposicionam o corpo como base do design. A individualidade volta ao centro, com silhuetas não convencionais e uma estética que valoriza a diferença e a autoria.

Essas três tendências fazem parte da pesquisa The Turning Point, apresentada durante a 33ª edição do Inspiramais, realizada em janeiro no Centro de Eventos da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). O estudo é desenvolvido pelo Núcleo de Design e Pesquisa da Assintecal e orienta os lançamentos de materiais do salão a partir de uma metodologia própria, que cruza inovação radical, desenvolvimento e produtos já validados pelo mercado.

A pesquisa The Turning Point é assinada por Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Design e Pesquisa da Assintecal, e funciona como base conceitual para os lançamentos apresentados no salão. O estudo integra a metodologia da chamada Pirâmide de Inovação, adotada pelo Inspiramais para organizar e antecipar tendências no setor de materiais. “Vivemos tempos muito semelhantes aos da década de 1980, com um mundo mais fechado, protecionismo crescente, tarifas extras e polarização”, afirmou Rodrigues.

A pirâmide é estruturada em três níveis. No topo estão os 10% dedicados à inovação radical, onde se concentram pesquisas experimentais e conceituais, como a própria The Turning Point. No nível intermediário, os 30% reúnem materiais em fase de desenvolvimento, que ainda passam por testes e ajustes. Já a base, com 60%, contempla produtos já aprovados pelo mercado, com maior potencial de escala e aplicação industrial. “Se antes tudo fluía, agora as coisas evaporam no ar”, explicou, ao descrever um cenário marcado por volatilidade, velocidade extrema e perda de referências estáveis.

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Valorização da identidade territorial da região amazônica

O salão ampliou o debate sobre os caminhos da cadeia produtiva da moda em um contexto de transformação acelerada. Ao longo dos dois dias de programação, o Inspiramais promoveu 12 palestras dedicadas a temas como design, sustentabilidade e os impactos da inteligência artificial no setor, reforçando o papel do evento como espaço de reflexão e não apenas de negócios. As atividades ocorreram na Arena de Inovação, voltada à troca de conhecimento e ao pensamento estratégico.

O projeto Iconografia Local Bioma Amazônico traduz pesquisa territorial em inovação. Voltada à valorização da identidade amazônica, a iniciativa resultou no desenvolvimento de mais de 80 novos materiais e soluções criativas, assinados por cooperativas, associações de artesãs, comunidades indígenas e quilombolas, além de pequenos produtores e designers da região. A proposta foi transformar referências culturais, produtivas e simbólicas do território em matéria-prima para a indústria da moda, conectando identidade local e bioeconomia.

Inspiramais, que reúne lançamentos de materiais e debates sobre os rumos da moda e do design | Foto: Diego Rosinha / Divulgação / CP

A pesquisa Essência, que antecipa os materiais a serem lançados em julho, em São Paulo, provoca o mercado ao questionar o esvaziamento do conceito de luxo. O questionamento leva em conta um cenário marcado pela competição baseada em preço e pelo distanciamento entre custo e valor percebido pelos consumidores.

A pesquisa propõe resgatar o luxo como expressão de raridade, herança histórica e autoridade cultural. A partir dessa leitura, Essência se organiza em dois eixos complementares. O primeiro, Purismo, valoriza o silêncio, a pausa e a ancestralidade, traduzidos em materiais de estética limpa e delicada, como couros lisos, acetinados, camurças, metalizados sutis e impressões sobre couro vacum, com referências à alta-costura e ao classicismo.

Em contraponto, o eixo Popismo celebra o excesso com intenção. Inspirado no barroco e na cultura pop, aposta na intensidade das cores, na força visual e no estímulo sensorial. Estampas florais, referências à natureza e uma paleta marcada por tons de cobre, vermelho e verde reforçam a ideia de um luxo afirmativo, construído a partir da abundância, da teatralidade e da mistura de referências culturais.