O Minas Trend, que se iniciou dia 14 e segue até 16 de abril, tem sinalizado, até aqui, uma moda menos apoiada no efeito passageiro e mais conectada a origem, processo e identidade. Entre passarela e salão de negócios, o que aparece com força é a valorização do feito à mão, das referências regionais e de coleções que partem de repertórios afetivos, materiais naturais e técnicas artesanais para construir desejo e diferenciação.
Um dos movimentos mais visíveis nessa direção veio de Natal. Na passarela, o projeto Natal Pensando Moda levou oito marcas mentoradas por Isabela Capeto para apresentar coleções inspiradas na obra da artista potiguar Maria do Santíssimo. O conceito “Do invisível ao visível” atravessou as criações e ajudou a traduzir um tipo de moda que olha para o cotidiano, para o quintal, para a memória e para os detalhes que normalmente passam despercebidos. Mais do que um desfile pontual, a presença potiguar reforçou a tentativa de transformar repertório cultural em produto autoral com leitura contemporânea.
As coleções mostradas ali ajudam a desenhar esse mapa. Houve espaço para crochê, tingimento natural, pintura à mão, sisal, ráfia sustentável, fio biodegradável, estampas com carga afetiva e modelagens atravessadas por ancestralidade e paisagem. Em marcas como Mora Woman, Arrocho, Almaju, Funlab, Vankoke e Zaja, a matéria-prima não apareceu apenas como recurso estético, mas como narrativa. A sensação é de que o Minas Trend, nesta edição, abre vitrine para uma moda que quer contar de onde vem.
Alagoas surge no mesmo eixo, mas por outra entrada. No salão de negócios, o bordado filé, as rendas, os crochês e os bordados aparecem como sinais de uma tradição que deixou de ocupar apenas o campo do artesanato decorativo e passou a circular com mais força em vestidos, saias, batas, bolsas e acessórios. Com 11 marcas no evento, o estado reforça como técnicas historicamente associadas à cultura regional ganham novo fôlego quando encontram desenho de produto, posicionamento e mercado.
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Alguns exemplos ajudam a entender esse momento. A Beliê leva ao evento peças que cruzam ponto de cruz e cerâmica, em um trabalho ligado à memória familiar e à geração de renda para mulheres bordadeiras. Já a Shiá transforma cascas de ostras descartadas em matéria-prima para colares, brincos e anéis, associando macramê, pertencimento local e reaproveitamento. É uma moda que não tenta esconder sua procedência. Ao contrário, faz dela argumento estético e comercial.
Se há uma leitura possível do que o Minas Trend vem mostrando até agora, ela passa por três frentes bem claras: a força da moda autoral, o avanço de materiais e técnicas com lastro territorial e a consolidação de um discurso em que sustentabilidade e identidade aparecem menos como ornamento e mais como estrutura de coleção. Em vez de apagar a origem para parecer universal, muitas marcas parecem fazer o movimento oposto: quanto mais local, manual e enraizada a peça, maior o seu poder de distinção.
