Nos últimos anos, o mundo se rendeu ao fascínio da pele coreana: lisinha, uniforme, com viço natural e aparência quase translúcida. A famosa “glass skin” — pele de vidro, na tradução literal — virou obsessão global, levando milhões de pessoas a mergulharem no universo do skincare coreano.
A rotina de cuidados asiática pode envolver de 5 a até 12 passos por dia, e conta com produtos ultrassofisticados, fórmulas inovadoras e ativos inusitados. Mas em meio ao encanto, uma pergunta tem ganhado espaço entre especialistas:
Será que o skincare coreano funciona para todos os tipos de pele? Ou ele pode ser um exagero e até perigoso para certas pessoas?
A dermatologista Renata Castilho explica o que há por trás dessa tendência mundial e esclarece quem pode (e quem não deve) aderir a essa rotina de beleza que virou febre nas redes sociais. Confira:
Muito além da estética: o skincare como parte da cultura
Na Coreia do Sul, cuidar da pele não é apenas vaidade, é um pilar da educação e do autocuidado desde a adolescência. Meninas e meninos aprendem cedo a importância de proteger a pele do sol, manter a hidratação e tratar imperfeições com constância. O resultado dessa disciplina são produtos extremamente elaborados, com ingredientes como:
✨ Centella asiática;
✨ Niacinamida;
✨ Extratos fermentados;
✨ Ácido hialurônico de baixa molécula;
✨ Probióticos e ativos botânicos raros.
O marketing visual impecável, o sensorial agradável e o design minimalista também conquistaram o Ocidente. No entanto, o que funciona bem para as coreanas pode não trazer os mesmos benefícios, ou mesmo ser contraproducente, para outros tipos de pele, alerta a dermatologista.
O que o skincare coreano tem de diferente
👉 Foco na hidratação profunda e em camadas leves de produtos;
👉 Valorização do “glow” natural, não da pele matificada;
👉 Preferência por texturas aquosas, géis e loções ultraleves;
👉 Etapas múltiplas: óleo de limpeza, gel de limpeza, esfoliação, tônico, essência, sérum, máscara, hidratante e protetor solar;
👉 Ingredientes botânicos, fermentados e calmantes;
Esse ritual foi pensado para peles asiáticas, que tendem a ser mais sensíveis à inflamação, com maior risco de manchas e hiperpigmentação pós-lesão, exigindo cuidados delicados e preventivos. Mas isso não significa que seja o ideal para todos.
Quem pode se beneficiar e quem deve ter cuidado com a rotina
Segundo Renata, peles normais a secas, com tendência à sensibilidade ou que estejam desidratadas, podem sim se beneficiar do skincare coreano, especialmente se adaptado à realidade climática e ao estilo de vida ocidental.
“Se a pele é fina, opaca, sensível ou reativa, produtos coreanos com fórmulas suaves, livres de fragrâncias agressivas e com ativos calmantes podem ajudar a recuperar o equilíbrio e o viço. O problema é quando as pessoas tentam copiar um ritual inteiro, de forma rígida, sem entender o que a própria pele precisa”, ressalta.
⚠️ Peles muito oleosas ou acneicas: muitas fórmulas coreanas focam em hidratação, e o excesso de camadas pode aumentar a oleosidade e obstruir poros, piorando quadros de acne;
⚠️ Peles com rosácea ou dermatite: alguns ingredientes fermentados, mesmo naturais, podem desencadear reações inflamatórias ou alérgicas em peles sensibilizadas;
⚠️ Peles bronzeadas ou expostas ao sol: certos ativos despigmentantes ou clareadores utilizados no K-beauty não combinam com exposição solar intensa, podendo causar manchas se mal utilizados;
⚠️ Peles que já usam ácidos, retinóides ou fazem procedimentos dermatológicos: Misturar esses tratamentos com produtos de origem asiática, sem acompanhamento médico, pode irritar a pele ou causar descamação;
“Skincare não é receita de bolo. O que deixa uma pele radiante em Seul pode não funcionar, ou até prejudicar, uma pele que vive sob o sol forte do Brasil, com clima úmido, poluição e uma rotina acelerada”, afirma a dermatologista Renata Castilho.
O que considerar antes de adotar o K-beauty em sua rotina
Quando se trata de cuidados com a pele, menos pode ser mais. Não é obrigatório seguir uma rotina com dez passos. O mais importante é entender o que cada produto oferece e adaptar os cuidados às necessidades reais da sua pele. Para isso, conhecer os ingredientes é essencial: leia os rótulos com atenção. Alguns cosméticos, especialmente os importados, podem conter substâncias pouco conhecidas no Brasil, o que aumenta o risco de reações inesperadas.
Observar a resposta da pele também é fundamental. Brilho excessivo, surgimento de acne, vermelhidão ou ardência são sinais de alerta que não devem ser ignorados. Além disso, o clima faz toda a diferença. Produtos densos ou muito oclusivos, por exemplo, funcionam bem no inverno coreano, mas podem se tornar pesados e desconfortáveis no verão brasileiro.
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É possível adaptar tendências com consciência. Tônicos, essências e séruns leves são boas opções para começar uma rotina de cuidados mais personalizada e equilibrada. No entanto, é importante lembrar que skincare é tratamento, e todo tratamento exige um diagnóstico. Nada substitui a orientação de um profissional. Não substitua orientação médica por tendências da internet
Essa é uma revolução em sensorialidade, leveza e inovação, mas não é uma fórmula mágica, muito menos um caminho universal. O verdadeiro segredo da pele perfeita não está em seguir modismos cegamente, mas em entender profundamente o que a sua pele precisa e respeitar seus limites.
“Trazer produtos coreanos para a rotina pode ser enriquecedor, sim, mas com consciência. Quando há excesso, sobreposição ou uso indevido, o que era autocuidado vira frustração. O ideal é sempre adaptar, e se possível, com a orientação de um dermatologista”, finaliza.
