Quando o afeto muda de lugar: o reencontro de mulheres consigo depois dos 50

Mulheres repensam vínculos, assumem novos ritmos e redescobrem a liberdade afetiva a partir da maturidade

A jornalista Adriana Hass embarcou em uma nova vida após uma demissão voluntária
A jornalista Adriana Hass embarcou em uma nova vida após uma demissão voluntária Foto : Arquivo Pessoal / CP

A ideia de que a vida pode recomeçar depois dos 50 ainda é subestimada — mas para algumas mulheres, é exatamente isso que acontece. Aos poucos, antigas certezas cedem espaço para escolhas mais conscientes, vínculos mais verdadeiros e um jeito mais próprio de habitar o tempo. Foi a partir dessa percepção que três mulheres com trajetórias distintas compartilharam suas experiências de transformação afetiva na maturidade, em uma conversa sem pressa, marcada por aprendizados e reencontros com si mesmas.

Andrea Fidelis, psicóloga e professora, relembra o momento em que tudo parecia estar “no lugar”: filhos adolescentes, carreira estável, casa, casamento. Mas, por dentro, sentia que a vida havia perdido o sentido. Foi só ao escutar o incômodo que ecoava em silêncio que decidiu retomar um desejo antigo — viver uma experiência acadêmica fora do país. Aos quase 50 anos, fez as malas, encarou o medo e viajou sozinha pela primeira vez. “Eu achava que não era capaz. Sempre tive alguém por perto. Quando resolvi tudo por mim, mesmo com medo, me senti adulta pela primeira vez”, conta.

Adriana Hass, jornalista, colunista do Bella Mais e pesquisadora da maturidade feminina, viveu trajetória semelhante. Após 17 anos em um emprego estável, optou por uma demissão voluntária e embarcou em uma nova vida. “Eu queria descobrir o que era desejo meu, não o que esperavam de mim”, diz. Ela defende que esse movimento é possível quando deixamos de acumular apenas produtividade, cobranças e expectativas. “Redefinir produtividade também é isso: usar o tempo para descobrir quem somos e o que realmente queremos.”

✨ Silenciar para escutar a si mesma

O ponto de virada, para muitas mulheres, não chega em forma de ruptura abrupta. Ele costuma ser sutil — uma inquietação crescente, a percepção de que aquela vida construída com esforço já não encaixa tão bem. Esse desconforto, por vezes silencioso, pode ser o início de uma nova etapa: uma travessia entre velhas certezas e possibilidades ainda não exploradas. Foi esse movimento que guiou o relato de Vivian, Adriana e Andrea no Fala 50+, podcast que integra o projeto Bella Talk e estreou neste mês de julho.

Vivian Laube, especialista em comunicação não violenta, descreve esse processo como um reencontro com a própria voz. Foi em uma imersão que, pela primeira vez, se enxergou nas relações. “Eu percebi o quanto eu mesma era violenta comigo e com os outros. A gente acha que violência é grito ou ofensa, mas é também o silêncio, a passividade, o abandono de si.” A partir daí, construiu uma nova vida e, com ela, novos vínculos — inclusive um relacionamento afetivo iniciado após os 60 anos.

A maturidade, apontam elas, não é um ponto de chegada, mas um terreno fértil de reconstruções. Em comum, há o desejo de que as relações — com os outros e consigo — sejam mais verdadeiras, livres de amarras, de julgamentos e de expectativas alheias. “As relações antigas muitas vezes foram criadas por versões antigas de nós mesmas. E nem sempre essas versões cabem mais”, diz Adriana.

Mas não se trata apenas de rompimentos. Muitas vezes, é na renegociação dos vínculos que há potência. Andrea conta que, ao decidir priorizar os próprios sonhos, precisou rediscutir o lugar do companheiro na sua vida. “Deixei de colocá-lo como o centro. Foi estranho para ele no início, mas também foi libertador. Nos reencontramos de outro jeito. Foi como se a gente tivesse casado de novo — agora como pessoas diferentes.”

A liberdade emocional que surge aos 50, no entanto, não vem sem custos. É preciso se confrontar, assumir riscos, lidar com medos e inseguranças. Mas, para elas, esse caminho tem recompensas importantes: autonomia, paz e pertencimento. “Eu aprendi que vale mais alimentar relações em que eu posso ser quem sou hoje. Sem precisar caber num molde antigo”, afirma Vivian.

✨ A maturidade como ponto de partida

Nessa fase da vida, muitas mulheres também passam a revisar prioridades. Enxergam o tempo como um aliado precioso e decidem onde, com quem e como desejam investir esse tempo. “Uma das coisas mais transformadoras foi aprender a despriorizar. Aquilo que me exigia demais e não fazia mais sentido, eu fui deixando ir”, completa Adriana.

A travessia para dentro de si, dizem elas, é um movimento constante. E pode ser feita com mais suavidade quando há silêncio, escuta e coragem. “Às vezes a gente tem medo de se ouvir, porque sabe que ali pode ter uma verdade difícil. Mas é nesse momento que as mudanças começam. É quando a gente para de viver no automático e começa, de fato, a viver”, resume Andrea.

📚 O que nos mantêm felizes e saudáveis ao longo da vida?

Segundo o psiquiatra Robert Waldinger, diretor do Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, a maior lição de 75 anos acompanhando centenas de vidas não está ligada à fama, ao dinheiro ou ao sucesso profissional. Conforme apresentado em uma palestra da série TED Talks, as pessoas mais saudáveis e felizes na velhice foram aquelas que cultivaram boas relações afetivas ao longo da vida. “Boas relações nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto”, afirma Waldinger.

O estudo começou em 1938, acompanhando dois grupos distintos: jovens estudantes de Harvard e adolescentes de bairros operários de Boston. Todos passaram por entrevistas regulares, exames médicos, visitas domiciliares e avaliações familiares. Atualmente, a pesquisa segue acompanhando mais de dois mil filhos desses participantes originais, tornando-se o estudo mais longevo do mundo sobre desenvolvimento adulto.

💖 Qualidade das relações

Uma das comparações mais simbólicas surgiu a partir de uma pesquisa com millennials, em que mais de 80% dos jovens apontaram o enriquecimento como principal objetivo de vida, e cerca de 50% citaram a fama como meta importante. Para Waldinger, esse dado revela uma armadilha contemporânea: acreditar que reconhecimento e status garantem uma vida boa. O estudo, porém, mostra o oposto.

A qualidade das relações aos 50 anos foi o maior preditor de saúde física e mental aos 80 — mais do que os níveis de colesterol. Pessoas bem conectadas com familiares, amigos ou parceiros relatam mais felicidade, menos dor emocional e melhor funcionamento cognitivo na velhice. Já os que vivenciaram solidão ou vínculos conflituosos tiveram pior saúde geral, mais dores físicas e declínio mais precoce da memória.

Além disso, a pesquisa demonstrou que não é a quantidade de relações, mas sim a qualidade delas que importa. Relações com afeto e respeito protegem o corpo e a mente — mesmo que haja conflitos ocasionais. Já laços marcados por ressentimento, cobrança ou abandono emocional tendem a agravar o sofrimento com o passar do tempo.

“A boa vida é construída com boas relações”, resume Waldinger. Embora pareça uma verdade antiga, ele destaca que, na prática, esse cuidado com os vínculos costuma ser negligenciado diante de uma cultura voltada ao desempenho. “Relacionamentos exigem trabalho constante. Não são glamourosos, mas são o que realmente sustenta o bem-estar ao longo da vida.”