Dias de frio e calor: como a oscilação térmica afeta a saúde

Mudanças rápidas de temperatura podem reduzir a imunidade e impactar o organismo; dicas ajudam a lidar com efeitos no corpo

Vestir-se em camadas é recomendado para enfrentar variações do tempo
Vestir-se em camadas é recomendado para enfrentar variações do tempo Foto : Magnific / Divulgação / CP

A oscilação de temperaturas dentro de um mesmo dia marcou o Rio Grande do Sul em julho. O começo do mês, marcado por temperaturas baixas que chegaram a ficar abaixo de zero em algumas regiões, foi seguido por uma bolha de calor. Na metade de julho, no dia 17, Porto Alegre registrou 33,8 ºC. Uma semana antes, a máxima na capital foi de 18 ºC e mínima de 10 ºC.

Esses períodos de amplitude térmica, isto é, de quando a diferença entre a temperatura mínima e máxima ao longo de um ou mais dias é grande, causam alterações no organismo e podem influenciar na imunidade. Os efeitos das mudanças do clima no organismo não podem ser totalmente evitados, como aponta a professora de Enfermagem na FADERGS e integrante da Ânima Educação Danuza Gatto.

“Quando a temperatura ambiente muda rapidamente, o organismo precisa fazer adaptações contínuas, como contração dos vasos no frio e dilatação no calor, alterações da frequência cardíaca e ajustes metabólicos. Essas adaptações aumentam o estresse fisiológico, principalmente em grupos vulneráveis”, explica Danuza.

Crianças, idosos, gestantes, indivíduos imunossuprimidos, portadores de doenças crônicas e pessoas em situação de vulnerabilidade social fazem parte desses grupos. “Eles tendem a sofrer impactos mais intensos, pois apresentam menor capacidade de adaptação fisiológica ou maior exposição a condições ambientais adversas”, afirma a professora.

Apesar disso, a necessidade de adaptação do organismo às temperaturas que mudam rapidamente podem causar sintomas em qualquer pessoa. Dores de cabeça, sensação de fadiga, dores musculares e desconforto articular são alguns deles.

Em períodos de oscilação térmica, é comum que apareçam sintomas como tosse, espirros, congestão nasal, coriza e crises alérgicas. Muitas vezes, esses sintomas são associados pelas pessoas a resfriados e gripes causados pela “mudança de tempo”, mas a professora de Enfermagem afirma que “ninguém adoece apenas porque houve uma queda ou aumento de temperatura”.

“O que ocorre é que as oscilações térmicas podem aumentar a suscetibilidade às infecções respiratórias e agravar sintomas já existentes”, diz a profissional.

A especialista salienta que o frio afeta diretamente a resposta imunológica, pois pode reduzir a temperatura interna das vias aéreas, prejudicando as células de defesa. Já a mudança para o calor pode retardar a resposta imune por causa da necessidade do organismo se adaptar.

Além disso, o ar seco resseca a mucosa nasal, o que diminui a capacidade do corpo de filtrar organismos durante a respiração. Nestes casos, a recomendação da enfermeira é a higienização nasal com soro fisiológico.

Quais cuidados podem ser adotados?

Manter o sistema imunológico funcional depende de uma série de fatores fisiológicos e comportamentais, segundo Danuza. Entre os comportamentos que podem colaborar para esse equilíbrio está o sono adequado, pois, quando há privação do sono, a atividade das células de defesa do corpo diminui.

Além disso, ter uma alimentação balanceada permite que o corpo tenha acesso a todos os nutrientes necessários. Já realizar atividade física melhora a circulação das células de defesa e diminui o risco de inflamação crônica.

Utilizar roupas adequadas pode auxiliar a diminuir o impacto das mudanças de temperatura. A recomendação é se vestir “em camadas”, pois dessa forma é possível retirar e adicionar peças de roupa conforme a temperatura varia, auxiliando o corpo a manter a regulação térmica.

A saúde mental também merece atenção, principalmente, durante eventos climáticos extremos. “O aumento de estresse, ansiedade, alterações do sono e sensação de insegurança podem estar associados a ondas de calor e períodos prolongados de instabilidade meteorológica, especialmente em populações que vivenciam repetidamente esses eventos ou que já vivenciaram de forma intensa”.

Controlar o estresse é importante. “O estresse crônico eleva o cortisol, que inibe a resposta imunológica. Buscar técnicas como relaxamento, pausas e equilíbrio emocional são importantes”, acrescenta a profissional.

Outra dica é beber água regularmente. Segundo Danuza, em dias frios, os vasos sanguíneos das extremidades do corpo, como pele, pés e mãos, se contraem para manter o calor e equilibrar a pressão interna. Isso faz com que os líquidos do corpo se concentrem nas regiões centrais, causando no organismo a sensação de que o volume de água no corpo já é suficiente.

O movimento ajuda a explicar por que algumas pessoas consomem menos água nesses períodos. “Já o calor excessivo favorece a vasodilatação, perda de líquidos pelo suor e risco de desidratação”, complementa a professora de Enfermagem.

O baixo consumo de água pode causar prejuízos em todo o corpo: alterações cognitivas, como dificuldade na concentração e na memorização, fadiga, dores de cabeça, cansaço e tontura. Urina com cor e odor fortes, sede intensa e boca seca são outros indicadores de desidratação. A baixa ingestão de água também pode sobrecarregar o sistema renal e favorecer a formação de cálculos, além de gerar impactos cardiovasculares como redução do volume e aumento da viscosidade do sangue, hipotensão, tontura e taquicardia.

Atenção em ambientes coletivos

A prática comum de deixar os ambientes fechados e sem ventilação, seja para evitar o frio ou manter o ambiente climatizado em dias quentes, não é indicado, pois favorece a presença de microrganismos no ar e a transmissão de doenças. Nestes casos, é possível diminuir o risco de contaminação deixando que o ar circule pelos locais.

A higienização das mãos com água e sabão ou álcool permanece sendo uma das principais formas de prevenção, como reforça Danuza. “Isso reduz significativamente a transmissão de microrganismos, além de ser considerada uma das medidas mais fáceis e efetivas de prevenção, pois atua diretamente na quebra da cadeia de transmissão.”

Estar com a vacinação em dia é mais uma prática que pode auxiliar a evitar complicações. A professora enfatiza que a vacina da gripe é um imunizante produzido com vírus inativo e estimula o corpo a produzir anticorpos contra a enfermidade. Ela frisa que a vacina “não causa a doença e é fundamental para prevenir casos graves, internações e mortes”.

Em caso de sintomas, procurar um profissional de saúde é o mais recomendado. Já grupos de risco devem manter o acompanhamento com maior frequência.

Veja abaixo o resumo de dicas para enfrentar a oscilação térmica:

  • Ingerir água em quantidade adequada (aproximadamente 2 litros);
  • Adotar uma alimentação equilibrada, rica em nutrientes;
  • Ter uma rotina de sono adequada (com aproximadamente 7 a 8 horas de descanso);
  • Realizar atividades físicas regularmente;
  • Controlar os níveis de estresse;
  • Vestir-se “em camadas”, para auxiliar o corpo a manter a regulação térmica
  • Higienizar as mãos regularmente;
  • Manter os ambientes arejados;
  • Manter a vacinação em dia;
  • Higienizar as narinas com soro quando estiverem ressecadas;
  • Realizar o acompanhamento com profissional da saúde em casos de sintomas ou doenças crônicas.