Doença celíaca: o que o caso de Isis Valverde nos alerta?

Após atriz relatar três internações em 2026, médicos alertam para os perigos da contaminação cruzada e a dificuldade do diagnóstico

Na doença celíaca, o tratamento exige a exclusão total do glúten e atenção à contaminação cruzada no preparo dos alimentos
Na doença celíaca, o tratamento exige a exclusão total do glúten e atenção à contaminação cruzada no preparo dos alimentos Foto : Magnific / Divulgação / CP

Após revelar ter enfrentado três internações apenas em 2026 por causa da doença celíaca, a atriz Isis Valverde reacendeu o debate sobre os desafios enfrentados por pessoas que convivem com a condição. Diagnosticada aos 19 anos, ela descreveu a experiência como “traumatizante” e relatou que pequenas contaminações por glúten podem provocar crises severas.

O caso chama atenção para um ponto ainda pouco compreendido fora da rotina dos pacientes: para quem tem doença celíaca, não basta “reduzir” o glúten. O tratamento exige exclusão total e permanente da proteína da alimentação, além de cuidado constante com a contaminação cruzada, que pode ocorrer quando um alimento sem glúten entra em contato com utensílios, superfícies, óleos ou preparações que tiveram contato com trigo, centeio ou cevada.

Contaminação cruzada pode provocar crises

A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten. Nesses casos, o contato com a proteína provoca uma reação do sistema imunológico que agride o intestino delgado e pode comprometer a absorção de nutrientes.

Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), a exclusão parcial do glúten não é suficiente para evitar complicações. Mesmo pequenas quantidades podem causar inflamação, sintomas gastrointestinais e impactos em outras áreas da saúde. Por isso, a rotina de quem convive com a doença costuma envolver atenção permanente a rótulos, preparo dos alimentos e ambientes de consumo.

A Lei nº 10.674/2003 obriga a indicação “contém glúten” ou “não contém glúten” nos rótulos dos alimentos. Ainda assim, especialistas reforçam que o cuidado não se limita à embalagem. O modo de preparo também importa, especialmente em restaurantes, padarias, cozinhas compartilhadas e refeições fora de casa.

Sintomas vão além do intestino

Embora a doença celíaca seja frequentemente associada a diarreia, dor abdominal, gases e distensão abdominal, os sinais nem sempre aparecem apenas no intestino. Cansaço constante, anemia sem causa aparente, perda de peso, inchaço, aftas, alterações de pele, dor de cabeça, irritabilidade e dificuldade de concentração também podem estar relacionados à condição.

Para o médico Alexandre de Sousa Carlos, membro da FBG, sintomas persistentes não devem ser tratados como algo normal da rotina. “Não é normal conviver com sintomas recorrentes e considerá-los parte da rotina. Na doença celíaca, os sinais nem sempre aparecem apenas no intestino”, afirma.

Essa diversidade de manifestações contribui para atrasos no diagnóstico. Muitos pacientes passam anos investigando sintomas isolados, como fadiga, anemia ou desconfortos abdominais, antes de chegar à confirmação da doença.

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Cortar glúten sem diagnóstico pode atrapalhar exames

O aumento da busca por alimentação sem glúten também trouxe um problema: muitas pessoas retiram a proteína por conta própria antes de fazer investigação médica. Segundo a FBG, essa decisão pode mascarar sintomas e dificultar o diagnóstico correto.

Para confirmar a doença celíaca, o paciente precisa estar consumindo glúten regularmente no período de investigação. Os principais exames incluem sorologia específica, com pesquisa de anticorpos no sangue, e endoscopia com biópsia do intestino delgado. Sem consumo de glúten, os resultados podem ser falsamente negativos ou inconclusivos.

“O principal problema é o autodiagnóstico. Muitas pessoas retiram o glúten por conta própria ao perceberem sintomas, mas isso pode mascarar sinais clínicos e comprometer a investigação adequada”, afirma Áureo Delgado, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Diagnóstico ainda é desafio no Brasil

A doença celíaca afeta cerca de 1% da população mundial. No Brasil, a estimativa é de 2 milhões a 2,5 milhões de pessoas com a condição, mas até 80% podem ainda não saber que convivem com ela, segundo dados divulgados pela FBG.

A gastroenterologista Danielle Kiatkosk, especialista em Endoscopia Digestiva pela FBG, destaca que a doença pode surgir mesmo em pessoas sem histórico familiar. Embora exista predisposição genética, muitos diagnósticos ocorrem na vida adulta, com maior incidência em mulheres.

Entre os grupos de maior risco estão parentes de primeiro grau de pessoas com doença celíaca, pacientes com diabetes tipo 1, outras doenças autoimunes e síndrome de Down. Em mulheres, manifestações também podem surgir ou se intensificar na gestação e no puerpério.

Impacto emocional também entra na rotina

Além dos sintomas físicos, a doença celíaca pode afetar a saúde emocional. A necessidade de vigilância constante sobre a alimentação, o medo de contaminação cruzada e as restrições em encontros sociais podem gerar ansiedade alimentar, isolamento e insegurança em situações cotidianas.

A FBG também aponta que sintomas como ansiedade, depressão, dificuldade de concentração e alterações de humor podem estar associados à condição. Em alguns casos, há relação com transtornos neuropsiquiátricos, o que reforça a importância de uma abordagem ampla, que considere não apenas o intestino, mas a vida do paciente como um todo. Especialistas recomendam que pessoas com sintomas persistentes procurem avaliação médica antes de fazer mudanças alimentares.