A baixa autoestima pode ser o primeiro sintoma de uma condição ainda pouco falada no Brasil. Muitas mulheres convivem por anos com dor, hematomas frequentes e acúmulo desproporcional de gordura em diversas regiões do corpo, mas recebem diagnósticos equivocados ou acreditam se tratar apenas de excesso de peso. Esse é o retrato do lipedema, doença crônica invisibilizada até mesmo dentro de parte da classe médica, impactando diretamente a qualidade de vida de quem a enfrenta, como explica o cirurgião plástico Fernando Amato.
Foi nesse contexto que a influenciadora gaúcha Lauren Pfeiff descobriu a causa de uma de suas grandes inseguranças. Há menos de um mês, ela passou por uma cirurgia plástica em São Paulo com o objetivo de tratar braços e pernas, mas sua trajetória até esse ponto expõe os obstáculos enfrentados por tantas pacientes: a desinformação, o preconceito e a dificuldade de acesso a especialistas preparados para lidar com a condição.
Lauren tem 26 anos e já mantinha um estilo de vida saudável, cuidando da alimentação e se exercitando regularmente. Ainda assim, percebia que algumas áreas do próprio corpo não acompanhavam sua evolução física. Além disso, ela conta que mesmo com a perda de peso, continuava convivendo com muita dor nas pernas, sensação de cansaço, inchaço em regiões como o culote e frequentes “roxos” e caroços espalhados pela pele.
Antes do diagnóstico médico, que pode ser feito por diferentes especialistas, a influenciadora já recebia mensagens de seus seguidores alertando para a possibilidade da condição. Lauren relata que sempre escondeu as pernas com calças ou saias longas, mesmo no verão.
“Eu não deixava de viver a vida ou de colocar um biquíni por ser algo que me incomodava. Mas tem muitas mulheres que se travam por isso, que deixam de viver, de querer fazer as coisas, que perdem o ânimo”, lembra.
Ao buscar ajuda especializada, a frustração se tornou maior. Em sua primeira consulta, um médico vascular descartou a possibilidade de lipedema, afirmando que ela estava apenas acima do peso. Ela saiu do consultório com a recomendação para emagrecer e um certo desânimo, pensando “poxa, mas eu já faço tudo que eu poderia fazer”.
“O lipedema é frequentemente mal compreendido, seja por pacientes, seja por alguns profissionais de saúde. Não se trata apenas de excesso de peso, mas de uma condição médica específica que causa distribuição anormal de gordura, acompanhada de sintomas como dor, sensibilidade ao toque e facilidade para desenvolver hematomas”, explica o cirurgião plástico Fernando Amato.
Do diagnóstico a mesa de cirurgia
A gaúcha relata que foi mais de um ano de tratamentos conservadores, incluindo ajustes alimentares, exercícios direcionados, acompanhamento multidisciplinar e medicamentos inibidores de apetite antes de optar pela cirurgia.
Mesmo com disciplina, continuava com os sintomas, como a sobrecarga nas pernas, que desencadearam uma bursite (uma inflamação ou irritação entre os ossos e outras estruturas móveis, como músculos, pele ou tendões) e outras complicações nos joelhos.
Nesse período, também contou com apoio psicológico. Lauren diz que queria ter certeza de que sua decisão não seria resultado de uma pressão estética, mas de uma necessidade real. A terapia, segundo ela, foi fundamental para se sentir segura e preparada emocionalmente antes de enfrentar um procedimento tão invasivo.
A cirurgia foi realizada no Instituto Nacional de Lipedema, na cidade de São Paulo. Ela menciona que o procedimento têm custo inicial em torno de R$ 45 mil. Menos de um mês após a operação, Lauren já percebe avanços importantes, a exemplo da redução no atrito entre as pernas, diminuição de dores e mudanças visíveis na região dos joelhos, que antes ficavam escondidos pelo inchaço.
Ainda assim, reconhece que a condição não tem cura definitiva. A cirurgia trouxe maior controle para as áreas operadas, mas a manutenção exige continuidade dos hábitos saudáveis e acompanhamento médico. “Não é que agora eu fiz a cirurgia e posso parar de me cuidar. Sempre vou ter o lipedema. Nas regiões que operei, ele está controlado, mas se não cuidar, ele pode sim se agravar novamente”, conta.
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A influenciadora decidiu compartilhar todo o processo em suas redes sociais, gravando vlogs sobre pré e pós-operatório e respondendo dúvidas de seguidoras. A troca trouxe identificação para o seu público, inspirando muitas mulheres a investigar sintomas semelhantes após acompanhar seus relatos.
Lauren também chama atenção para a questão da acessibilidade. Embora se sinta realizada com os resultados, lembra que a cirurgia ainda é restrita a quem pode pagar altos valores. Para ela, o ideal seria que o tratamento também fosse ofertado pelo SUS, já que não se trata apenas de estética, mas de saúde.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
