A popularização do chamado “chip da beleza” reacendeu um debate importante: até que ponto o implante hormonal se aproxima — ou se confunde — com o uso de anabolizantes? A dúvida ganhou força depois que a influenciadora Virginia Fonseca, que se prepara para estrear como rainha de bateria no Carnaval de 2026, voltou a falar sobre sua experiência com o método.
Em entrevista ao portal Leo Dias, divulgada na segunda-feira passada, 22, a influenciadora afirmou que não está “tomando bomba”, mas não descarta a possibilidade perto devido ao Carnaval. “Mas eu tenho muito medo”, complementa. Ela também revelou que já utilizou implantes contendo testosterona e gestrinona, o que pode ter provocado alterações em sua voz, mas garantiu que esse dispositivo “já venceu”.
A fala de Virginia levanta uma questão que vai muito além da curiosidade em torno da rotina da celebridade, mas expõe a atual desinformação pública a respeito do método. Afinal, implante hormonal é o mesmo que anabolizante? A resposta passa por entender como funciona cada um, quais os riscos e quais os possíveis benefícios. Saiba mais a seguir.
O que é o implante hormonal (e o que ele não é)
Apesar do apelido, o “chip da beleza” não tem nada de tecnológico. Na prática, o método consiste na inserção de um pequeno bastão sob a pele que libera gradualmente hormônios como testosterona, gestrinona ou progesterona. A escolha da substância depende de avaliação médica, que deve considerar histórico, exames laboratoriais e objetivos terapêuticos.
Segundo o nutrólogo Ronan Araujo, o problema está na banalização do método.
“Muitas notícias fazem parecer que o implante é apenas vaidade ou um anabolizante. O implante hormonal é uma terapia séria, mas quando usado sem exames, sem acompanhamento e sem critério médico, ele se torna perigoso”, explica.
Até mesmo o termo “chip” por si só, segundo o profissional, induz ao erro, já que não se trata de um dispositivo eletrônico e sim de um tratamento médico que exige indicação criteriosa e acompanhamento especializado.
Entre os possíveis benefícios, quando bem indicado, estão a melhora da energia e disposição, qualidade do sono, equilíbrio da libido e preservação da massa magra. Também pode ser aliado em condições como endometriose e sintomas da menopausa e outras doenças relacionadas à queda hormonal.
Implante hormonal x anabolizante: quais as diferenças?
Embora ambos envolvam a aplicação de hormônios, os implantes e os anabolizantes atuam de forma distinta. Entenda:
👉 Anabolizantes: são derivados sintéticos da testosterona, aplicados em doses suprafisiológicas — ou seja, muito acima do que o corpo precisaria. Normalmente usados para ganho rápido de massa muscular, estão associados a riscos como problemas hepáticos, cardiovasculares, infertilidade e até distúrbios psiquiátricos, aponta o especialista.
👉 Implantes hormonais: utilizam doses individualizadas, ajustadas de acordo com a necessidade do paciente. A finalidade é repor, restaurar ou modular níveis naturais de hormônio, não ultrapassá-los artificialmente.
“Comparar o implante a um anabolizante é um equívoco comum. O problema não está no hormônio em si, mas no uso fora do contexto médico. Quando indicado, é tratamento de saúde. Já os anabolizantes, quando usados sem controle, são abuso químico”, esclarece.
Efeitos colaterais: a voz engrossa mesmo?
Na entrevista mencionada anteriormente, Virginia é questionada sobre a mudança em sua voz. A influenciadora diz que sempre teve a voz mais grossa mas que percebeu alterações, atribuindo a possbilidade da causa ao implante hormonal que já utilizou: “a minha voz foi engrossando mesmo, mas acho que é por causa desse chip que eu tenho de ‘testo’ e gestrinona que venceu e eu não sei se vou colocar de novo.”
De acordo com o médico Francisco Saracuza, especialista em terapias hormonais, a queixa é frequente e tem base científica.
“Substâncias com efeito androgênico, como a testosterona e a gestrinona, atuam diretamente nas cordas vocais, promovendo espessamento e alterações na musculatura local”, explica. Isso pode resultar em um tom mais grave, e em muitos casos a alteração é irreversível.
Além de alterar a voz, os implantes hormonais podem provocar diversos efeitos colaterais, sobretudo quando usados sem critério médico ou em doses elevadas. A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio Grande do Sul (SBEM-RS), Letícia Schwerz Weinert, cita entre os principais riscos:
• acne e oleosidade excessiva da pele;
• crescimento de pelos em áreas incomuns;
• irregularidades menstruais;
• queda de cabelo.
A intensidade dessas reações varia conforme a dose, o tipo de hormônio e o tempo de uso. Por isso, reforçam os especialistas, o acompanhamento médico é indispensável para reduzir riscos.
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Apesar de ter ganhado fama por supostamente melhorar corpo e pele, especialistas reforçam que essa não é sua função principal. Procurar o implante apenas por razões estéticas pode resultar em frustrações ou complicações, já que cada organismo responde de maneira diferente.
Ainda assim, diante do uso indiscriminado de hormônios, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu a prescrição de esteroides anabolizantes para fins estéticos. Confira a Resolução nº 2.333/23 do CFM neste link.
A própria Virginia faz questão de destacar que os resultados que apresenta não vêm de atalhos. “Eu não pulo treino, eu pego peso mesmo, com acompanhamento”, afirma sobre sua rotina de cuidados cada vez mais intensa.
O alerta, portanto, vale para todos: resultados como os dela não podem ser reduzidos à ideia de um implante milagroso. Treino regular, constância e acompanhamento profissional são peças fundamentais nesse processo. Transformar o implante em promessa de “corpo pronto” é criar propaganda enganosa e perigosa para quem busca mudanças rápidas sem considerar os riscos.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
