Dor, sensação de peso, inchaço e aumento desproporcional de volume principalmente nas pernas são alguns dos sinais associados ao lipedema, uma doença crônica que afeta predominantemente mulheres e ainda pode ser confundida com obesidade ou linfedema.
No Brasil, um estudo publicado em 2022 estimou prevalência de 12,3% entre as mulheres. A pesquisa, realizada com 253 participantes, utilizou um questionário de rastreamento e identificou sintomas compatíveis com alta probabilidade de diagnóstico, projetando que cerca de 8,8 milhões de brasileiras entre 18 e 69 anos poderiam apresentar sinais da condição.
Uma das características do lipedema é justamente a dificuldade de reduzir a gordura das regiões afetadas apenas com dieta e exercícios. Isso, porém, não significa que a alimentação não tenha papel no cuidado. Ela pode integrar uma estratégia mais ampla para controle de peso, saúde metabólica e manejo dos sintomas.
Para a nutricionista Alice Paiva, este é o primeiro ponto que precisa ficar claro: nenhum alimento é capaz de reverter sozinho o acúmulo de gordura característico da doença. “O prato não cura o lipedema. Mas é o que você controla todo dia”, resume.
Segundo a especialista, a estratégia deve priorizar uma alimentação equilibrada, rica em alimentos in natura e minimamente processados, em vez de apostar em restrições extremas ou ingredientes apresentados como soluções milagrosas.
O padrão alimentar importa mais do que um único alimento
Entre as estratégias possíveis, Alice destaca o padrão mediterrâneo, baseado no consumo frequente de verduras, legumes, frutas, azeite, peixes, cereais integrais, sementes e oleaginosas, com menor presença de alimentos ultraprocessados.
Pesquisas recentes vêm investigando a relação entre alimentação e lipedema. Um estudo publicado em 2026 encontrou associação entre dietas de maior potencial inflamatório e níveis mais elevados de inflamação sistêmica em mulheres com a doença, indicando que padrões alimentares de melhor qualidade podem ter espaço no manejo da condição.
Ainda são necessários, porém, mais estudos para estabelecer recomendações específicas. A partir desse princípio, alguns grupos de alimentos podem ganhar mais espaço no cardápio.
Peixes e fontes de ômega-3
Salmão, sardinha e outros peixes gordurosos são fontes de ômega-3 e podem fazer parte de um padrão alimentar equilibrado. Chia e linhaça também oferecem gorduras insaturadas e ajudam a variar as fontes desse nutriente na alimentação.
Frutas, verduras e legumes variados
Morango, mirtilo, amora, uva roxa, beterraba, cenoura e outros vegetais coloridos fornecem diferentes compostos antioxidantes. A ideia, segundo Alice, é variar as cores ao longo da semana em vez de concentrar a alimentação em poucos alimentos.
Folhas verde-escuras
Couve, rúcula, brócolis e espinafre oferecem fibras, vitaminas e minerais e ajudam a aumentar a presença de vegetais nas refeições. Para a nutricionista, eles podem aparecer diariamente no almoço e no jantar, dentro de uma alimentação diversificada.
Alimentos frescos e menos ultraprocessados
Pepino, frutas, verduras e outros alimentos com alto teor de água contribuem para a hidratação e podem ocupar o espaço de produtos ultraprocessados, que frequentemente concentram maiores quantidades de sódio, açúcar e gorduras de pior qualidade nutricional.
Mais do que procurar um alimento com efeito “desinchante”, a recomendação é observar a qualidade da alimentação como um todo.
Temperos também podem entrar no cardápio
Cúrcuma, gengibre, ervas e especiarias são alternativas para diversificar o sabor das refeições e podem ajudar a diminuir a dependência de temperos industrializados e molhos prontos.
Eles, no entanto, não devem ser encarados como tratamento isolado para o lipedema.
Cuidado diário, não solução milagrosa
A alimentação faz parte de um conjunto de cuidados que pode incluir atividade física, terapia de compressão e outras abordagens definidas de acordo com cada paciente. Consensos recentes reforçam que o manejo conservador do lipedema deve envolver hábitos de vida, nutrição e exercícios, entre outras estratégias.
Por isso, mudanças na dieta devem considerar as necessidades individuais e, especialmente diante de sintomas persistentes, ser acompanhadas por profissionais de saúde. “Não é sobre uma solução mágica. É sobre organizar os estímulos que você tem nas mãos, todos os dias, para dar ao corpo o suporte que ele precisa”, completa Alice.
