Com o passar dos anos, a mobilidade do corpo tende a diminuir devido a uma série de condições que afetam o organismo. A osteoporose é uma dessas causas: a doença, que atinge a estrutura óssea, afeta cerca de 10 milhões de brasileiros, segundo a Fundação Internacional de Osteoporose (IOF) – e é mais frequente entre mulheres.
Embora seja uma doença conhecida, a evolução da osteoporose costuma ser silenciosa, e a descoberta da condição vem após uma fratura. No Brasil, aproximadamente 400 mil fraturas por fragilidade óssea ocorrem anualmente no país, de acordo com a IOF. Apesar disso, apenas 20% dos pacientes recebem o diagnóstico antes de sofrerem a primeira lesão.
Segundo a reumatologista Marcia Veloso, da AMA Especialidades Jardim São Luiz gerenciada pelo Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam), como a fragilidade do tecido ósseo acontece de maneira progressiva e sem dor ou sinais perceptíveis, a maioria das pessoas só descobre a doença após episódios traumáticos leves, como uma queda da própria altura ou movimento mínimo, que resultam em fraturas graves na coluna, punho ou quadril.
O coordenador da Ortopedia do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), José Luis Amim Zabeu, aponta que a “investigação deve fazer parte do cuidado com a fratura, sem esperar a recuperação do osso”. Segundo ele, a identificação de osteoporose após a fratura ajuda a definir um tratamento adequado para a redução do risco de novas fraturas.
A atenção à causa da lesão se torna ainda mais relevante à medida que o histórico de fratura está associado a um risco 86% maior de sofrer outra fratura em comparação com pessoas sem esse antecedente. A IOF aponta que o risco de recorrência é especialmente elevado nos dois primeiros anos após o episódio inicial.
Mas não é preciso sofrer uma fratura para investigar o problema. “O osso é um tecido vivo que passa por contínua remodelação ao longo de toda a vida”, observa Marcia. “Com o avançar da idade e as alterações hormonais, a reabsorção do mineral passa a ser mais rápida do que a formação de novas células. Por ser um processo assintomático, o indivíduo não sente que seu osso está enfraquecendo. Por isso, a investigação ativa dos fatores de risco é essencial antes que a fratura aconteça”, alerta a especialista, pontuando que a ausência de dor antes da fratura cria uma falsa percepção de segurança na população.
Fatores de risco e a vulnerabilidade na pós-menopausa
A perda de densidade mineral acompanha o envelhecimento natural do organismo, mas é acelerada por uma combinação de fatores genéticos, metabólicos e de estilo de vida. Além da idade, o histórico familiar de osteoporose e de fraturas, o sedentarismo, o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e a baixa ingestão diária de cálcio e vitamina D figuram entre os principais condicionantes de risco.
O uso prolongado de corticoides e as alterações na absorção de nutrientes, como as que podem ocorrer após a cirurgia bariátrica, e tratamentos, como a quimioterapia, também podem comprometer a saúde óssea, dependendo do contexto clínico.
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O principal grupo que requer atenção especial, de acordo com a reumatologista Marcia, é o de mulheres na menopausa: a condição afeta entre 14% e 29% em mulheres acima dos 50 anos, podendo alcançar até 73% naquelas com mais de 80 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).
A especialista explica que o período após a menopausa provoca vulnerabilidade acentuada devido à brusca redução na produção de estrogênio no corpo, hormônio importante para o fortalecimento ósseo. Desta forma, a atenção à saúde óssea merece destaque entre mulheres a partir dos 40 anos, especialmente durante a transição para a menopausa e após esse período, quando as mudanças hormonais podem acelerar a perda de massa óssea.
Como a doença costuma evoluir sem sinais claros, mudanças como a redução da estatura e o aumento progressivo da curvatura da coluna merecem avaliação médica, pois podem estar relacionadas a alterações ou fraturas nas vértebras. “Pessoas com fatores de risco podem conversar com um profissional de saúde sobre a necessidade de avaliar a saúde óssea, mesmo que nunca tenham sofrido uma fratura. Para quem já passou por um episódio, não se deve esperar que outro aconteça para investigar”, pontua o ortopedista José Luis.
Identificação, prevenção e tratamento
A identificação precoce da osteoporose pode ser realizada por meio da avaliação clínica dos fatores de risco e pela densitometria óssea, exame radiológico de baixa dosagem que mede a quantidade de mineral presente nas regiões mais suscetíveis a fraturas. Apesar do exame ser recomendado para mulheres a partir dos 65 anos e homens a partir dos 70, pode ser indicado para pessoas mais jovens, conforme os fatores de risco e a avaliação médica.
A prevenção e o manejo da fragilidade óssea envolvem a consolidação de hábitos saudáveis adaptados às condições individuais, a começar pelo exercício físico.
Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, quando planejado de acordo com as condições e necessidades de cada pessoa, a prática regular de musculação pode contribuir para a manutenção da estrutura óssea, além de fortalecer os músculos e melhorar a capacidade funcional, fatores relevantes para reduzir o risco de quedas.
“A musculação precisa ser entendida também como um investimento na saúde óssea. Os ossos respondem aos estímulos mecânicos que recebem, e exercícios bem prescritos podem contribuir para preservar sua estrutura ao longo do tempo. O importante é respeitar a individualidade de cada aluno, considerar seu histórico e progredir de maneira segura e consistente”, explica Jauan.
Na nutrição, a reumatologista Marcia aponta que o consumo adequado de proteínas, cálcio e a exposição solar moderada para síntese de vitamina D são pilares indispensáveis. No entanto, medidas como suplementação vitamínica e esquemas intensos de atividades físicas não devem ser adotadas de forma generalizada ou sem acompanhamento profissional prévio.
“Não existe uma conduta padronizada ou milagrosa para a saúde dos ossos. A indicação de suplementos de cálcio e vitamina D, bem como a liberação para determinadas modalidades de exercícios físicos, exige avaliação detalhada da função renal, cardíaca e metabólica de cada paciente. O objetivo é fortalecer a estrutura esquelética com total segurança para o organismo.”
Para quem já tem osteoporose ou sofreu uma fratura por baixo impacto, o plano de cuidado deve ser individualizado. Além dos hábitos saudáveis, o médico pode indicar medicamentos específicos para fortalecer os ossos e reduzir o risco de novas fraturas. A terapia hormonal pode ser considerada em situações selecionadas, após avaliação dos benefícios e riscos para cada paciente.
“Exercícios, alimentação adequada e prevenção de quedas fazem parte do cuidado, mas não substituem os tratamentos específicos quando eles são necessários. O acompanhamento permite avaliar a resposta ao tratamento e ajustar as orientações às condições de cada pessoa”, diz o ortopedista José Luis.
Além do tratamento clínico, a implementação de estratégias ambientais de prevenção de quedas nas residências, como a eliminação de tapetes soltos, a melhoria da iluminação e a instalação de barras de apoio nos banheiros, é decisiva para resguardar a integridade física dos idosos.
