Remédios sem receita: os riscos que muita gente ignora

Analgésicos, anti-inflamatórios e descongestionantes podem provocar reações adversas e interagir com outros medicamentos, alertam especialistas

Mesmo vendidos sem receita, medicamentos podem causar efeitos adversos e interagir com outros tratamentos quando utilizados sem orientação profissional
Mesmo vendidos sem receita, medicamentos podem causar efeitos adversos e interagir com outros tratamentos quando utilizados sem orientação profissional Foto : Magnific / Divulgação / CP

Tomar um analgésico para aliviar a dor de cabeça, recorrer a um anti-inflamatório depois de um dia cansativo ou usar descongestionante nasal para conseguir respirar melhor são hábitos comuns. Como muitos desses medicamentos podem ser comprados sem receita, existe a percepção de que oferecem poucos riscos à saúde. No entanto, o uso inadequado pode provocar intoxicações, interações medicamentosas e até mascarar sintomas de doenças que precisam de investigação.

Os chamados Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) fazem parte da rotina dos brasileiros. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2023 foram comercializadas 1,21 bilhão de apresentações desses produtos no País, o equivalente a 21,04% das vendas do setor farmacêutico. Com a expansão dos canais digitais e a discussão sobre a regulamentação da venda e entrega de medicamentos em marketplaces, especialistas reforçam a importância de orientar a população sobre os cuidados com a automedicação.

Embora sejam destinados ao tratamento de condições de menor gravidade, os medicamentos vendidos sem receita não estão livres de efeitos adversos. A segurança depende da dose, do tempo de utilização e das condições de saúde de cada pessoa. “Medicamentos, por definição, possuem riscos inerentes. A segurança depende de fatores como idade, condições de saúde pré-existentes, alergias e outros medicamentos em uso”, explica Débora de Carvalho, gerente da farmácia do Hospital Sírio-Libanês.

Entre os erros mais frequentes, a especialista destaca o autodiagnóstico incorreto, a escolha inadequada do tratamento e o uso prolongado sem orientação. Segundo ela, não são raros os casos de pacientes que procuram atendimento hospitalar devido a complicações relacionadas a medicamentos considerados comuns.

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Analgésicos e anti-inflamatórios exigem atenção

O fato de um medicamento ter funcionado anteriormente não significa que ele seja adequado para qualquer situação. Anti-inflamatórios como ibuprofeno, naproxeno e cetoprofeno, por exemplo, podem provocar lesões renais e sangramentos gastrointestinais, especialmente quando utilizados de maneira inadequada. Já o paracetamol, frequentemente usado para aliviar dores e febre, pode causar danos ao fígado quando consumido acima da dose recomendada.

“A experiência anterior com um medicamento não significa que ele seja adequado para uma nova situação. Se a dor persiste ou retorna, é importante entender a causa antes de simplesmente repetir o tratamento”, alerta Guilherme de Abreu Pereira, médico internista do Sírio-Libanês.

Outro cuidado envolve as possíveis interações com tratamentos de uso contínuo. Um medicamento tomado ocasionalmente pode interferir na ação de outros produtos e aumentar o risco de reações adversas. Por isso, é importante informar ao médico ou farmacêutico tudo o que está sendo utilizado, incluindo suplementos, fitoterápicos e chás.

“Muitos pacientes não consideram produtos vendidos sem receita como medicamentos, o que pode mascarar interações perigosas com medicamentos de uso contínuo”, observa Débora.

A recomendação também vale para produtos naturais, frequentemente associados à ideia de segurança. O ginkgo biloba, por exemplo, pode aumentar o risco de sangramento quando combinado com anticoagulantes, antiagregantes plaquetários ou anti-inflamatórios. Já a erva-de-São-João pode interagir com determinados antidepressivos e provocar reações graves.

Descongestionantes nasais podem causar efeito rebote

Entre os produtos utilizados para aliviar desconfortos cotidianos, os descongestionantes nasais merecem atenção especial. Medicamentos à base de nafazolina e oximetazolina oferecem alívio rápido para o nariz entupido, mas o uso frequente ou prolongado pode produzir o efeito contrário ao desejado.

Conhecido como efeito rebote, o problema ocorre quando a congestão retorna após o término da ação do medicamento, levando a pessoa a utilizá-lo novamente. Esse ciclo pode favorecer o desenvolvimento da chamada rinite medicamentosa, caracterizada principalmente pela obstrução nasal persistente.

“O uso inadequado pode levar à chamada rinite medicamentosa. A pessoa deixa de usar o remédio e o nariz volta a escorrer, com muita coriza. Ela acaba criando uma dependência do produto para conseguir respirar melhor”, explica Guilherme. O cuidado deve ser redobrado entre pessoas com hipertensão ou doenças cardiovasculares, que podem apresentar maior sensibilidade aos efeitos de determinados descongestionantes.

Quando a automedicação pode esconder um problema maior

Aliviar uma dor ou controlar a febre pode ser necessário, mas recorrer repetidamente a medicamentos sem investigar a origem dos sintomas pode atrasar o diagnóstico de doenças. Quando o desconforto persiste ou retorna com frequência, aumentar a dose ou prolongar o tratamento por conta própria não é a solução. “O uso contínuo de medicamentos para dor precisa ser avaliado por um médico, principalmente quando o sintoma persiste”, orienta Guilherme.

Alguns grupos precisam de cuidados adicionais, como crianças, gestantes, idosos, pessoas com doenças crônicas e pacientes que utilizam vários medicamentos simultaneamente. No caso dos idosos, as mudanças naturais no funcionamento dos rins e do fígado podem modificar a maneira como o organismo processa e elimina determinadas substâncias. “Os idosos estão mais expostos às interações medicamentosas porque, muitas vezes, fazem uso de vários remédios ao mesmo tempo”, destaca o médico.

A orientação é manter os profissionais de saúde informados sobre todos os produtos utilizados, mesmo aqueles comprados sem receita ou consumidos esporadicamente. Esse cuidado permite identificar possíveis incompatibilidades e avaliar se determinado medicamento é realmente adequado.

Quais sinais indicam que é hora de procurar ajuda?

A persistência de dor ou febre é um dos principais sinais de que o quadro precisa ser investigado. Sonolência intensa, queda da pressão arterial e aceleração dos batimentos cardíacos também podem indicar reações adversas ou intoxicação, especialmente quando surgem após o uso de medicamentos.

Em situações de suspeita de intoxicação, é importante procurar atendimento e informar qual produto foi utilizado, a quantidade ingerida, a frequência de uso, o horário da última dose e os sintomas apresentados. Essas informações ajudam a equipe de saúde a avaliar o caso e definir a conduta necessária.

Os cuidados também devem incluir o armazenamento. Medicamentos precisam ser mantidos em locais secos, frescos e protegidos da luz, conforme as orientações da bula. Banheiros, cozinhas e carros não são ambientes recomendados, pois o calor e a umidade podem comprometer a qualidade dos produtos. Sempre que possível, eles devem permanecer na embalagem original, acompanhados da bula e fora do alcance de crianças e animais.

Para Débora, a principal mudança é compreender que a facilidade de acesso não elimina os riscos. “Nenhum medicamento é isento de riscos. A automedicação pode fazer parte do autocuidado, mas deve ser feita com responsabilidade. É importante sempre buscar orientação de um médico ou farmacêutico para prevenir complicações”, conclui.