Ah, esses agostos chuvosos, de umas garoas finas nas tardes que chegam e passam ligeiras, a noite chega tão cedo. Nós e os bichos parece que estamos já cansados das friagens infindas, viradeiras, que acampam pelas voltas dos matos, pelos arvoredos, pelos oitões dos ranchos. Mês em que a animalada, fraca, sem forças, costuma se atolar nos banhados. Meus olhos se alagam quando miram lá fora, através dos vidros molhados das janelas, a várzea ensopada, o balançar dos galhos desnudos, a paisagem gris e deserta, onde vaga o tempo e a realidade se dissolve. Entre o aqui e lá longe está o além, as achas queimando e os estalidos das labaredas dos fogões. As cabriúvas e os angicos se consomem, o ferro da trempe estampa o translúcido e o fosco dos dias e das panelas e da picumã nos caibros.
Nessas tardes enigmáticas das invernias que se sucedem, estamos nós aqui, sonhando com antigas escaramuças de primaveras. Retiro da estante um livro amado e lá está escrito “Inverno”. Leio.
“Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul. Redes de gelo articulando-se com o vento das esquinas esfiapadas pela luz pequena dos postes emoldurados de sereno. De longe vem a geada sobre os cabelos do campo, que trazem o frio até a beirada dos braseiros. O andar acende e a ponta dos dedos roça a pelica e o couro seco dos abotinados. A hipnose aldeã e coletiva faz recolher a lenha seca e fria para o mistério da labareda, sua língua infernal e lúdica dispõe as pessoas em círculos de instinto e prevenção para que contem os causos. As pessoas sós fazem o fogo para imaginar sua gente que, em algum canto do sul, está repetindo em contraponto o estalo da lenha e nos nós dos dedos, com a fisionomias que se guardam nesses alguns da memória dos invernos.”
- Campereadas são passado e presente
- Os sonhos congelados de julho
- A música missioneira sempre disse verdades
Do livro jorram frases poéticas, Baudelaire e Rimbaud mateando numa madrugada fria num descampado sulino. Por vezes, soltam versos num resmungo agourento como corvos voando baixo num ladeirão empedrado, pressentindo vacas mortas na enchente, novilhos que nadaram por dias e, cansados, agonizaram como focinho na terra vermelha embarrada. “Vozes do frio e frias, atraídas pelos acordeões rogados pelo minuano. Para o fim da pequena rua, para o limite, para a zona neutra dos paisanos acordados nos bordoneios. Uma pequena labareda ferventa um caldo num panelão bojudo e o cheiro ds tasca é de milonga e carne.”
O inverno se esvai nesse pacholeio de versos, água, fogo e saudade. Uma biblioteca de livros lidos e relidos, a memória terrunha dos amigos que se foram para outros pagos, outras imensidões de almas em um eterno comício de espíritos. Os invernos se sucedem, as vidas seguem neste meridiano ensopado de águas frias por fora e águas quentes por dentro. O cuera, então, sorve o mate e murmura: “Caramba, como faz frio este tal de mês de agosto...”
