Lembro dos dias curtos e congelantes de julho, as tardes de garoa com vento, as noites compridas e entrecortadas de murmúrios estranhos, as madrugadas silenciosas. Era um período em que usava todas as mantas e cobertores que encontrava pelos cantos dos galpões, o velho poncho de baeta colorada e fazia uma cama tão pesada que era difícil até para deitar. Ficava tentando escutar, lá fora, os sons que vinham da bicharada encolhida debaixo dos arvoredos, dos cuscos ganindo, de um galo cantando fora de hora, talvez anunciando a geada grande. Por vezes, acordava no silêncio triste da madrugada, antevendo uma manhã branca, de sofrimento para humanos e animais.
Era frio de sufocar a goela, enregelar os ossos e suspender os sonhos que ainda acalentávamos. Alguns eram pequenos, outros quebrados pela metade, e muitos estilhaçados que íamos juntando um caquinho aqui outro acolá. Com o frio, só pensávamos em que tudo aquilo passasse o mais ligeiro possível, mas era um tempo em que tudo ocorria devagar.
Sim, custavam as horas a transcorrer, talvez, friorentos, os ponteiros se cansassem com a neve e a geada, os ventarrões que sopravam da banda oriental pareciam aborrecidos em percorrer tanta distância desde a Patagônia, os Andes. E eu ali, debaixo de sacas vazias, lavadas e tingidas, de arroz, farinha de trigo, um manta verde furada do tempo do quartel de um tio, debaixo do poncho velho, sobre a cama de varões de ferro, colchão de casca de cereais. Bem quieto, imóvel, de olhos fechados e, nessas noites, de tão frio, dormia e nem sonhava. Acordava com a mãe, dona Mirica, abrindo a porta, com o lampião a querosene na mão, dizendo: “tá na hora”.
Pulava da cama, vestia uma calça larga e velha por cima dos cuecões, uma camisa puída de flanela, um blusão de lã feito à mão, três carpins, um por cima do outro, um saco de plástico de açúcar Cristal nos pés, enfiava as botas, e me largava campo afora, quebrando geada. Antes, lavava a cara numa bacia alouçada, escovava os dentes. Trazia as vacas e ia amarrando-as, ajeitando os terneiros para apojar, ajudando a mãe na ordenha na mangueirinha que tínhamos ao lado dos galpões e do bolicho.
Por fim, corria para pôr o uniforme do colégio, tomar café e esperar o Gemada, o ônibus passava às 7h15min em ponto. O colégio, ah, o colégio, meu paraíso de conhecimentos, lugar de lazer, de jogos de bola e dos olhos azuis e cabelos cor de trigo da Belinha.
Mas tudo passa no mundo. Quando a gente via, era setembro, já era primavera. E voltávamos a sonhar, a rir, os dias se encompridavam, as noites se encurtavam. O ciclo recomeçava e, na mangueira, o leite era tirado sob o clarão do dia. A vida acelerava para dormitar no gelo do próximo inverno.
