A música missioneira sempre disse verdades

Eram poemas e canções que retratavam o que verdadeiramente via, nada de heroísmos, fanfarronices, patacoadas e valentias

Assim, me bandeei para o lado dos missioneiros, pois gostava das letras de protesto
Assim, me bandeei para o lado dos missioneiros, pois gostava das letras de protesto Foto : Leonid Streliaev / Divulgação / CP

Eram curtas e tristes as tardes de sábado atrás do bolicho. Depois do almoço, ficava comendo bergamota e pensando no que poderia acontecer anos a frente, será que ficaria ali para sempre ou ganharia o mundo num dos trens que passavam rumo a Santa Maria e depois para a Capital? Como seria a vida noutras plagas, será que o guri bolicheiro se daria bem entre o pessoal das grandes cidades? Assim, enquanto passava um pano molhado com álcool sobre o balcão de tábuas grossas e reluzentes ligava o velho rádio Philips, a pilha, e ficava a escutar os programas regionais.

Entre xotes, valsas e vaneiras de duplas serranas, muito em voga na época, a rádio soltava umas milongas ponteadas de uma turma da região missioneira. Era quando eu colava o ouvido e me deixava embalar naqueles invernos frios da Vila Rica. Foram meus primeiros contatos com os nomes de Noel Guarany, Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá e Pedro Ortaça. De pronto entendi que ali estava uma manifestação genuína, verdadeira, gente que cantava opinando, cantadores populares com muitas razões e autenticidade.

Por vezes, ria das letras, como a engraçada “Deixa de arte Nicolau”, do Ortaça, em que narra as aventuras de um piá muito ladino, criado pela avó. “Na escola não estuda, tira nota zero grau/ E os colegas mais pequenos/ Ele pega e enche de pau...” O Nicolau fazia de tudo, enganava, mentia, e ainda queria chazinho de cacau. Eu, que não podia fazer nada daquilo, achava tudo muito divertido.

Ficava triste, por outro lado, quando ouvia “Homem Rural”, do Cenair, em que a música falava da vida de um trabalhador do campo, sem estudo e que nunca é reconhecido. A canção narra a ida para a cidade, onde não encontra nada do que pretendia. Mas a parte que mais me condoía era “Trabalhando, trabalhando, não viu a vida passar/ O suor que regou a terra, nem sementes viu brotar/ Trabalhando, esperando, enfrentando chuva e sol/ Enxada na terra alheia, nunca traz dia melhor.”

Era assim mesmo. Não via os tais centauros dos pampas, e sim trabalhadores muito mal remunerados, a maior parte andando a pé, de bicicletas, no melhor quadro montados em matungos velhos e magros. Assim, me bandeei para o lado dos missioneiros, pois gostava das letras de protesto de Noel Guarany, das poesias de Jayme falando de negrinhos mandaletes de estâncias, do “Tio Anastácio”, que morreu sem ninguém para lhe oferecer nem mesmo um baixeiro para o derradeiro sono. Eram poemas e canções que retratavam o que verdadeiramente via, nada de heroísmos, fanfarronices, patacoadas e valentias. Compreendi, na época, que a arte pode ser um deleite, um lazer, mas também uma forma de dizer verdades.

E, no dia 29 de maio, acordei com a notícia da morte de Pedro Ortaça, aos 83 anos. Morreu como um guarani, peleando pela vida até o último suspiro. Partiu para se encontrar com a sua gente, amigos, ancestrais. Nós seguiremos ouvindo seu timbre de galo, seu legado artístico, com os demais troncos missioneiros, o título daquele disco de 1988. Eles seguem vivos, a mensagem, a forma de se comportar como homem e artista, sem se dobrar, sem “pedir bexiga pra patrão ou pra milico”. É assim que quero viver, sem precisar ser pelego ou penico de ninguém.

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