Charla do primeiro e do segundo pai

O segundo pai já me encontrou pronto, e dizia ter uma dívida impagável com o primeiro

Creio ter ficado com um pouco das coisas de cada um
Creio ter ficado com um pouco das coisas de cada um Foto : Paulo Mendes com auxílio de IA

O primeiro pai tinha um rosto duro, quase não sorria. Era uma cara onde ficara marcada a trajetória humilde, desde quando seu pai morreu e ele precisou cuidar de todos os outros irmãos. Quando isso aconteceu, o primeiro pai tinha 14 anos. Muitos anos depois, diante de um juiz, já nem lembrava como os anos se sucederam. As lembranças vinham todas embrulhadas, difusas, numa névoa, tipo para onde foram os irmãos, como tinham crescido, o que o que faziam, se tinham estudado. O primeiro pai não tivera tempo de pensar em si, aprendera apenas a escrever seu nome, numa garatuja: José. Nunca lembrara de sua infância, porque não a teve. Por só trabalhar, não aprendera a se divertir. As mãos mostravam calos e cicatrizes. Gostava de tropear e não sabia fazer galanteios. Casou duas vezes, teve três filhos no primeiro matrimônio. No segundo, adotou um filho e teve outro biológico.

O segundo pai era o oposto. Tinha um rosto emoldurado por óculos, sabia línguas, havia traduzido “O velho e o mar” aos 18 anos, apreciava vinhos, fotografias, havia sido o responsável pela Enciclopédia Barsa. Era um intelectual. Jovem, deixou o Espírito Santo e foi morar no Rio de Janeiro, gostava de filmes, música clássica e tocava piano. Lembrava de sua infância, tinha fotografias, álbuns, tinha um nome britânico. Fizera uma vida ao lado da arte, da cultura e do conhecimento. Sabia recitar poemas e tinha sorte no amor. Fisicamente, era baixo, mas era um sedutor, nutria paixão pelo humor, a ironia e agia sempre como um gentleman. Casou-se três vezes, teve um filho no primeiro matrimônio, três no segundo, e encontrou o realmente primeiro aos 67 anos.

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O primeiro pai me ensinou as virtudes, apontou os caminhos mais primitivos, os que mais precisamos. Ser honesto, falar sempre a verdade e não se importar com aparências. Ensinou-me a respeitar a natureza e a conversar com os bichos. Era um encantador de cavalos, pois os pegava em qualquer lugar de uma invernada. Pouco conversávamos, trocávamos mensagens por gestos como índios numa linguagem nossa. Quando me olhava eu emudecia.

O segundo pai mostrou-se extremamente feliz em me ver, não me ensinou nada, e eu me encantei com seus livros e seus dedos lívidos como uma vela, seu discurso permeado de conhecimentos, suas viagens, sua visão filosófica do mundo. O segundo pai já me encontrou pronto, e dizia ter uma dívida impagável com o primeiro. Quando me olhava, eu sorria.

O primeiro pai morreu quando eu tinha dezoito anos. Eu que comprei seu caixão. O segundo pai morreu quando eu tinha 57, foram apenas doze anos juntos, mas valeram a vida toda. Creio ter ficado com um pouco das coisas de cada um, orgulho de ambos, do exemplo e a honradez do tropeiro, da sapiência e filosofia do enciclopedista. Depois, me lembrei que o primeiro pai, na verdade, era o segundo, e o segundo, em realidade, havia sido o primeiro. Que importa?