Um outro causo de amor improvável

Foi uma linda história de amor, talvez a mais bonita que esta terra tenha visto

Dois seres tão diferentes se encontraram por acaso, numa situação adversa
Dois seres tão diferentes se encontraram por acaso, numa situação adversa Foto : Paulo Mendes com ajuda de IA

Morreram juntos, abraçados, olhando o poente, cada um numa cadeira. Ela olhava para o céu azul da Vila Rica, onde nascera, numa manhã de agosto há mais de 80 anos. Ele, olhando para as bombachas de favos, esverdeada pela erva, quando a cuia escorregou da mão. Ele parou de respirar e a companheira, de susto, decidiu acompanhá-lo. “Ainda bem”, disseram dias depois na venda do Doralício. “Um não podia ficar sem o outro”, emendou um gurizote de voz rouca. Mas dom Lagarto, que ouvia a charla, fez sinal para que se calassem e disse:

“Deus sempre sabe o que faz. Sei bem dessa história, por isso vou contar.

Foi uma linda história de amor, talvez a mais bonita que esta terra tenha visto. Cada um abriu mão de seus talentos natos para ficarem juntos. Dolores era uma menina ainda quando foi violentada por um desconhecido no Potreirinho de Dentro, depois do Rincão das Gamelas. Engravidou e os irmãos a expulsaram de casa, barriguda, sem nada. Ela passou vários dias escondida no mato, envergonhada, mas foi encontrada por Athaíde, na época recém-formado em veterinária, boa cepa, filho do João Constante, um fazendeirote lá da Serrinha, passando a Caneleira. Ele recolheu a menina, que mais parecia um bicho, levou-a para uma tapera no fundo da propriedade da família e lá cuidou dela até a guria ter o bebê. Isso só se foi saber depois.

Diariamente, Athaíde saía para galopear potros, observar o desenvolvimento de novas cruzas bovinas, recolher espécies nativas de plantas, e pedia que ninguém se aproximasse da tapera velha, pois estava fazendo pesquisas e não queria perturbação para os animais. E assim, levava alimentos e pouco a pouco Dolores foi recuperando o viço. Quando nasceu o guri, Vitório, Athaíde tomou a decisão de contar à família o caso e anunciou seu casamento com Dolores. Foi um Deus nos acuda, não aceitaram e o pai decidiu dar-lhe sua parte na herança. Athaíde não se dobrou, fez de Dolores uma esposa participativa. Ela correspondeu, terminou os estudos e se tornou a melhor dançarina do CTG. Muitos torceram o nariz para aquela moça miúda, mas esbelta, alta e que dançava como uma apaixonada mulher da Andaluzia.

Passado uns anos, a família de Athaíde voltou atrás, os convidavam para visitas, tentavam uma aproximação, mas eles aceitavam de forma comedida. Athaíde tinha prosperado como produtor rural e pesquisador. Dolores virou célebre por suas coreografias inovadoras de danças folclóricas. Ambos receberam convites para trabalhar longe, mas foram convictos, nunca iam se separar. Uma empresa norte-americana mandou um telegrama para Athaíde quando suas pesquisas ganharam o mundo. Um coreógrafo paulista chegou a ir pessoalmente convidar Dolores para uma companhia famosa de danças. Tiveram mais dois filhos, um casal, que vive no estrangeiro. Só Vitório ficou e segue aqui.

Nos últimos anos, Vitório administra os negócios. Os velhos eram vistos mateando, fazendo passeios até o fundo da estância, onde Dolores construiu, ao lado da sanga, uma capelinha de pedra. Era o lugar onde viveu quando fora escorraçada. Vejam como é o amor, não tem modelo, é inesperado, improvável. Dois seres tão diferentes se encontraram por acaso, numa situação adversa. De minha parte, acho que mostraram a todos que a vida pode ser braba, mas é preciso coragem para enfrentá-la.”

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