Depois do caos ficará o espírito do Angoera

Após toda a evolução, ele presenciava agora o retorno aos velhos tempos

Mas o filho de Sepé, um mito que atravessou o tempo, sobrou para tudo recomeçar
Mas o filho de Sepé, um mito que atravessou o tempo, sobrou para tudo recomeçar Foto : REPRODUÇÃO DE OBRA DE LUCAS ABREU / APBP / CP

Depois, bem além das décadas, dias e séculos, quando nada mais sobreviver, nem o verde dos campos, nem o gris terroso da soja recém-colhida, quando ninguém mais se lembrar do que fomos e fizemos, um guarani se levantará do solo depredado e ressecado, empestado do cheiro de gases, árido de vida e afetos, sem árvores e rios. O índio olhará para o céu embaçado por neblinas e chuva cósmica, pela destruição implacável, naquele mundo caótico sem dias e sem noites, vai segurar sua lança de taquara e gritar: “Esta terra tem dono”.

A voz ecoará pela imensidão do nada, do abismo. Mas o índio estará lá, impávido, e se importará. Ele e mais alguns estão por ali, foram os que restaram, os que não morreram, os poucos que resistiram. Não há mais combustíveis, new energy, água e alimentos. As guerras interestelares acabaram com as civilizações e o restante dos homens se matou a pau e pedrada. Mas o filho de Sepé, um mito que atravessou o tempo, sobrou para tudo recomeçar. Ele ouviu dizer que alguns outros, escassos também, estão vivos para além das cordilheiras, do mar, nos desertos antigos, lá onde tudo teria começado. Agora vai principiar outra vez. Eu e minha raça podemos, pensa, enquanto cata fragmentos de carvão mineral para fazer o fogo. Durante a noite anterior capturara alguns insetos, achara uma folha de um vegetal gosmento, mas não venenoso. Ia sapecar tudo e comer.

Ao amanhecer, ou o que deu ares de aurora, enxergou, na grimpa de uma coxilha empedrada, uns homens estranhos, cabelos cortados rente ao couro, umas camisas apertadas, coloridas, aos farrapos, calçavam o que haviam sido sandálias de borracha, alguns ainda ostentavam orgulhosos crachás onde se lia “Freedom”. Eram pessoas que haviam vivido em priscas eras, participado de institutos, agremiações, falavam coisas estranhas, mas o índio sabia que tinham se arrependido e desdito as ideias de comércio, evolução, lucros, tinham aperfeiçoado outros paradigmas. Dias atrás recebera um emissário deles pedindo ajuda. Mesmo em desvantagem, ameaçavam: “Tu és ignóbil, precisa de nós que temos mais conhecimentos.” Ele mandou dizer que se virassem. “Agora é cada um por si.”

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À tarde soube que aquela gente havia sucumbido ao beber um líquido que parecia cerveja, mas era mijo de “Ostentaurus”, um animal que surgira miscigenado de criaturas criadas por controladores do mercado financeiro, cobras de saqueadores de guerras anglo-saxônicas e dragões da civilização Ming. Era o único a sobreviver da espécie e, antes de se despedir, subira nas montanhas e de lá infestara o mundo com sua urina mortal, contaminada de pesticidas.

Agora, o índio vestido de penas de Nhandu alegretensis, que impediam a radiação, com um cocar de crinas de Eqqus cerritensis, um tipo de cavalo que sobreviveu depois das guerras atômicas, pois quando nasciam foram alimentados por de leite de preás, misturado com pitadas de alecrim, guaco e mel de abelha jataí, sobe até o alto de uma pedra moura. Um desses cavalos, meio gente meio bicho, uma espécie de centauro, o índio montava. Era um tordilho cabano, manoteador e bufão, delgado, anca de vaca. Tinha olhos rasgados pela testa frente aberta, com várias pupilas, por isso via além das camadas radioativas.

Mesmo com a atmosfera fechada, o índio consegue receber mensagens de fumaça enviadas por uma tribo vizinha. Após toda a evolução, ele presenciava agora o retorno aos velhos tempos. E, sem pestanejar, responde com uma imagem de duas nuvens densas e uma miúda. E dois reflexos de um mini espelho que sobrara de um museu dos Sete Povos. E compõe, em seguida, na língua ancestral, a mensagem: “Eu me chamo Generoso, morador em Pirapó: gosto muito de dançar co’as moças, nos bailes, de paletó...” *

É preciso, sempre, reexistir.

* Lenda resgatada por Simões Lopes Neto e popularizada por Apparício Silva Rillo.