Carros & Motos

Duster e puro “Heritage”

Modelo é a prova de que a robustez e a história ainda superam o excesso de telas

CM testou versão Iconic do Duster
CM testou versão Iconic do Duster Foto : Renato Rossi / Especial / CP

O Duster encarna uma palavra que, até certo ponto, significa resistência em relação à invasão chinesa: Heritage, ou herança. As montadoras ocidentais enfatizam esse conceito num momento em que os mercados mundiais têm milhões de carros eletrificados nas ruas e nas garagens do consumidor global. Quem faz sucesso hoje são marcas recentes, como a Leap, nascida na China em 2019. Devido ao sucesso, os modelos C10 e B10 já parecem velhos conhecidos dos consumidores, mas são êxitos recentes, como tudo que vem da China.

A cultura milenar chinesa é heritage em tudo — basta andar pela Grande Muralha. Menos no automóvel, que praticamente refunda a China sob a "varinha mágica" da alta tecnologia. Os carros chineses são o espelho ampliado de uma novíssima ambição que se expande a cada dia.

O mundo assiste surpreso e, tantas vezes, encantado a esta revolução transformadora. A indústria automobilística ocidental resiste como pode, apelando para trajetórias centenárias e modelos que eram ultra velozes quando milhões de chineses ainda andavam de bicicleta no auge do "maoismo", na década de setenta, quando a China ainda era uma "concha fechada".

Para fazer com que os ocidentais sintam orgulho de seus automóveis, as montadoras refazem os ícones que ficaram no passado. A Ford lançará em breve Focus, Fiesta e Ka em versões elétricas. Foram carros amados por milhões, e este amor deve renascer mesmo com revendas de dezenas de marcas chinesas ali na mesma quadra, o que já acontece em cidades do mundo periférico.

Em Porto Alegre, é famosa a Avenida Souza Reis, onde se encontram Geely, Omoda, Jaecoo, GAC, etc. A Renault também está ali e resiste porque possui hoje uma linha ocidental competitiva com Kardian e Boreal, mas está associada à Geely, e a revenda Geely ganhou nome francês.

Na França, o conceito de heritage define a geração elétrica da Renault com os sucessores do Renault Quatre e Cinc (4 e 5), lançados nos anos 80. Agora, em versões elétricas, eles vendem muito.

Sustentada por sua longa tradição, a Renault lançará 26 novos modelos até 2030. Uma revolução que já alcança o mercado brasileiro com os recém-lançados Kardian e Boreal. Em breve, chega a ousada picape Niagara, que deve ter versão híbrida plug-in.

A tradição e a coragem da Renault são capazes de enfrentar os chineses que conquistam gradativamente o orgulhoso mercado europeu. Este é o grande palco iluminado onde os conceitos de heritage e o pragmatismo e imediatismo chinês se digladiam — uma batalha épica que poderia acontecer no Coliseu romano, sintetizando a imensa herança cultural da Europa.

No entanto, os "bárbaros" chineses usam chips ultra sofisticados que as montadoras europeias não conseguem replicar. Se não conseguem melhorar, o jeito é esquecer o orgulho e se associar logo aos chineses.

É o que faz também a Stellantis em sua associação com a chinesa Leap, ainda uma "adolescente" no mundo automóvel, mas que já é uma das marcas mais vendidas na Europa junto ao grupo. A Stellantis busca novas associações, assim como a Renault. Em meio a esta batalha de conceitos e técnicas, retomamos o Renault Duster, que tem muito do heritage.

Rumo ao Duster

Graças ao profissionalismo da revenda Savar Multimarcas, em suas sedes em Porto Alegre e Novo Hamburgo, o CM (do CP, edição digital) teve à disposição um Duster 2025 na versão Iconic para avaliação. Trata-se de um SUV em perfeito estado de conservação, retirado de uma revenda que presenteia o consumidor com o "Laudo Cautelar", documento jurídico que é um atestado de "bons antecedentes" do veículo seminovo.

Vale a pena comprar um seminovo que já sofreu a depreciação do preço. No Duster testado, o valor é de R$ 122 mil para o modelo Iconic 2025, que em maio de 2026 custa novo em torno de R$ 170 mil. Lançado em 2010 na França e em 2011 no Brasil, o Duster já pode ser enquadrado no conceito heritage porque insere valores prezados pelo consumidor até hoje. Foi concebido como um veículo de mecânica simples e resistente; desde o lançamento, surpreendeu por sua capacidade de rodar em pavimentos degradados sem que a estrutura e a dirigibilidade fossem afetadas.

O CM é igualmente heritage por ter rodado em testes com múltiplas versões do Duster desde 2011. Inclusive, o CM esteve presente quando o Duster, em 4 de fevereiro de 2022, foi apresentado à imprensa com renovações estéticas e dotado do potente motor 1.3 turbo com 170 cv — resultado superior da parceria entre Mercedes-Benz e Renault. O motor 1.3 turbo é ainda um dos mais potentes e resistentes em sua categoria no mundo.

No teste com o modelo Iconic — mais sofisticado na oferta de equipamentos, como os seis airbags, tela de oito polegadas no painel e modos de condução geridos pelo motorista —, o acabamento interno mais refinado elevou o padrão do veículo. O teste foi realizado em parte nas ruas da bela e diversificada Novo Hamburgo e o restante em trechos da BR 116 e Porto Alegre.

Como o CM também é "puro heritage", tudo combinou e o uso do Duster foi mais uma vez prazeroso. O SUV de origem francesa será sempre mais consistente e até um pouco "rígido" na dirigibilidade em relação aos SUVs chineses, que têm suspensões excessivamente macias. O chinês ficou rico e já não marcha mais 10 mil quilômetros nas marchas cívicas promovidas pelo grande líder Mao; o chinês hoje gosta de "moleza".

Veja Também

Quem dirige o Duster gosta de seu grau de esportividade, que não combina com suspensões moles, apesar da altura em relação ao solo de 23,7 cm — medida que se situa entre as maiores na categoria de SUVs compactos.

Testes anteriores realizados pelo piloto de testes do CM demonstraram o nível elevado de estabilidade lateral do Duster, o que significa um alto grau de segurança ativa. O SUV francês ganhou 5 estrelas nos testes de impacto do comprovado Euro NCAP. Enfim, os 16 anos de mercado do Duster são um marco histórico global para um SUV que mudou muito pouco no design, mas teve evolução consistente.

Com certeza, ao estacionar o Duster ao lado de um SUV "posudo" e cheio de telas, ele parecerá meio antigo. E é mesmo. A ousadia tecnológica e formal dos chineses parece não ter fim, mas essa mudança contínua traz um lado problemático: o modelo 2026 pode estar defasado em 2027.

Culpa do consumismo chinês e sua voracidade pelo novo. Os chineses não têm longas trajetórias com seus modelos e não estão interessados no heritage, simplesmente porque seus carros não têm "história". Mas, pelo sucesso dos chineses, parece que o conceito heritage não tem importância para muitos.

SUV confiável e amigo do motorista

Em síntese, o Duster, que já tem nova geração na Europa com linhas suavizadas, continua como um SUV confiável e amigo do motorista. Passados 16 anos de seu lançamento, continua valorizado e confiável aos olhos do consumidor global, sendo produzido no Brasil, Colômbia e Romênia.

Nestes 240 quilômetros rodados, as impressões positivas não mudaram: o Duster é a praticidade no uso que seduz. E tenha certeza de que ele não irá mandar você para as telas para qualquer função; o Duster é heritage e mantém botões rotatórios. Ainda bem, porque tecnologia em excesso ruma para a desumanização do automóvel. Máquinas devem estabelecer uma ponte com a sensibilidade humana. Por isso, não acreditamos nas vozes sintetizadas. O Duster tem uma mudez proveitosa que sintetiza uma atenção redobrada.