Há um Século no CP

A crise paulista causada pela seca

A edição do dia 18 de fevereiro de 1925, quarta-feira, edição n. 42, noticiava

A cidade de São Paulo aumentou em dez vezes sua população apenas no último quartel do século XIX, tornando o suprimento de água um problema tão sensível quanto urgente. Em 1924/25, além da metrópole, grande parte do Estado paulista sofria com os baixíssimos índices de chuva. Os reflexos se fizeram sentir na agricultura e na pujante produção industrial, com cortes de energia e redução das escalas de trabalho
A cidade de São Paulo aumentou em dez vezes sua população apenas no último quartel do século XIX, tornando o suprimento de água um problema tão sensível quanto urgente. Em 1924/25, além da metrópole, grande parte do Estado paulista sofria com os baixíssimos índices de chuva. Os reflexos se fizeram sentir na agricultura e na pujante produção industrial, com cortes de energia e redução das escalas de trabalho Foto : CP Memória

“Dizem de S. Paulo continuar a seca naquele Estado. A repartição de águas ameaça reduzir o fornecimento de água potável à população. A iluminação pública já foi reduzida a 50% devido aos efeitos da seca. Também a iluminação nas vitrinas, assim como os anúncios luminosos foram suprimidos. Devido à falta d’água o trabalho nas fábricas foi reduzido. N. da R. — Em suas poucas linhas, o telegrama acima traduz a triste situação de São Paulo, com os mananciais de água por demais reduzidos. A população está privada de um elemento tão precioso como imprescindível. E como a água seja também utilizada como força geradora de eletricidade, a iluminação pública se torna deficientíssima, havendo necessidade de diminuir-lhe o consumo na razão da metade do que era indispensável. Ainda como consequência dos efeitos da seca, as indústrias vem a sofrer grandemente, faltando-lhes a luz e a força, resultando isso na redução do trabalho. Consumo de água apoucado, com os inconvenientes de não atender todos os misteres e até aos preceitos de higiene; ruas quase às escuras, rendimento fabril baixando a um desastroso nível econômico, afetando não só a produção como o trabalho, não só o capital como o operariado — é esta a série de males que importam numa calamidade. A Associação Commercial de S. Paulo, encarando bem de face a crise que ameaça prolongar-se, se não aumentar, promoveu um questionário sobre os meios de minorar os prejuízos e apelou para os particulares, pedindo-lhes poupança no consumo de luz de modo a, com este menor sacrifício, não ser a coletividade sacrificada em maior. Tudo o que for dispensável será em benefício geral. A princípio — segundo informa o ‘Estado de S. Paulo’ — o trabalho nas fábricas seria reduzido a cinco horas diárias. Alguns estabelecimentos industriais, sobrecarregados de despesas, não suportariam essa diminuição de capacidade produtora. Por isso, o apelo da Associação Comercial compreende também um questionário dirigido a todos os industriais, para que informem do mínimo de energia elétrica que lhes é necessária. Os jornais da capital paulista tratam em suas colunas de acentuar esse apelo, rogando a colaboração dos habitantes para que a crise seja minorada, único meio de vencê-la provisoriamente; de suportá-la, de não lhe aumentar os desastres; de modo, enfim, a não se chegar a uma situação de penúria.”

O café brasileiro a perigo

“O ‘Journal of Commerce’, desta cidade [Nova Iorque], publica o texto completo do relatório apresentado à Sociedade de Agricultura de São Paulo pelo vice-presidente, sr. Francisco Raos. Aquela folha salienta o fato da produção do café deixar ao lavrador brasileiro apenas o lucro de quatro por cento e o de que pessoas autorizadas, pertencentes à Associação Nacional de Torradores de Café, confessam que a cultura dessa rubiácea nas regiões fora do Brasil talvez custe mais caro no começo, porém, com o desenvolvimento da mesma chegará ao nível ou abaixo das despesas ordinariamente feitas pelos agricultores paulistas.”

Tensão na fronteira

“Aviadores gregos dão notícia de consideráveis concentrações de tropas turcas na fronteira com a Grécia. Desde sexta-feira última chegam constantemente trens conduzindo artilharia e munições de guerra. Os habitantes das aldeias próximas fogem levando seus haveres. Acrescenta-se que o serviço secreto grego está informado de que a intendência da guerra teve ordem de preparar suprimentos para qualquer emergência. Correm comentários sobre as intenções da Turquia, acreditando-se que essa concentração é destinada a exercer pressão sobre a Grécia.”

Carestia, o mal nacional

“Ainda ontem, comentávamos em nota a alta do feijão, que, em poucos dias, subiu de oitenta a noventa e cinco mil réis o saco, tornando-se, pela sua valorização crescente, um verdadeiro artigo de luxo. Mas, como os leitores sabem por experiência própria, não é só o feijão que se aristocratizou. Todos os gêneros de primeira necessidade sobem dia a dia e estão chegando a preços inverossímeis. A situação é apremiante. A carestia da vida é atualmente um problema que é preciso ser encarado seriamente. Concordamos em que há uma série de motivos para a elevação do preço da vida. Mas não há dúvida [de] que, ao lado de razões ponderáveis, há um enorme espírito de ganância, já demonstrado em relação a certos artigos, como o leite, cuja tabela de preços era a mais variada, e que de modo algum se justifica. É, pois, de toda a oportunidade, a intervenção indireta da autoridade municipal no assunto. A criação das feiras livres, a exemplo do que se tem feito em toda a parte, vem atender às necessidades públicas. É certo que com os atuais preços a vida se torna impossível a uma grande parte da população. A instituição das feiras, como medida de ocasião, vem atender a uma necessidade urgente e inadiável, e facilitará a existência a muita gente já ameaçada pela fome.”

O dia 18 de fevereiro na história

  • 1294 Morre na China o conquistador e imperador mongol Kublai Khan.
  • 1455 Morre em Roma o frade e pintor renascentista Fra Angelico.
  • 1546 Morre em Eisleben o teólogo e professor Martinho Lutero, reformador protestante.
  • 1564 Morre em Roma o escultor, pintor, arquiteto e poeta renascentista Michelangelo.
  • 1745 Nasce em Como, Itália, o químico e físico Alessandro Volta, inventor da bateria elétrica e descobridor do composto metano.
  • 1861 Vitório Emanuel II assume o título de Rei da Itália com a unificação praticamente concluída.
  • 1885 “As Aventuras de Huckleberry Finn”, do escritor americano Mark Twain, é publicado.
  • 1906 Nasce em Viena o médico Hans Asperger, formulador do diagnóstico da Síndrome de Asperger.
  • 1911 A primeira mala postal aérea é entregue na Índia Britânica entre Allahabad e Naini, distantes 10 quilômetros.
  • 1930 O planeta-anão Plutão é descoberto pelo astrônomo americano Clyde Tombaugh.
  • 1932 O Império do Japão cria o Estado-fantoche de Manzhouguo na Manchúria, separado da República da China.
  • 1933 Nasce em Tóquio a artista e ativista Yoko Ono, companheira do ex-Beatle John Lennon.
  • 1940 Nasce em Gênova o cantor e compositor italiano Fabrizio de André.
  • 1942 O Exército Imperial japonês inicia o extermínio sistemático de cidadãos chineses em Cingapura.
  • 1943 O cargueiro Brasilóide é torpedeado por submarino alemão na costa da Bahia.
  • 1954 Nasce em Englewood, New Jersey, o ator americano John Travolta.
  • 1957 Walter James Bolton se torna a última pessoa a ser executada legalmente na Nova Zelândia.
  • 1965 Gâmbia adquire a independência do Reino Unido.
  • 1967 Nasce em Caldogno o ex-jogador italiano Roberto Baggio.
  • 1977 Soldados armados invadem a comuna (“República de Kalakuta”) mantida pelo artista nigeriano Fela Kuti, em Lagos, Nigéria.
  • 2006 A banda britânica Rolling Stones toca para 1,5 milhão de pessoas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
  • 2010 A organização Wikileaks publica os primeiros de centenas de documentos secretos revelados pela ex-soldado americana Chelsea Manning.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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