Existe questão mais complexa, no momento, que a legalização ou não do aborto no Brasil?
Sim e não.
Há muitos problemas complexos.
Todo dilema é complexo.
A pena de morte é do mesmo nível de complexidade. Há quem veja no aborto o pior exemplo de pena morte, a execução de inocentes.
A nova ministra brasileira, Eleonora Menicucci, é favorável à legalização do aborto.
Ela teve a grandeza de abrir o jogo, rompendo a hipocrisia que obriga qualquer pessoa no minado campo político a desviar-se desse assunto maldito. Em seguida, pressionada, ela já amenizou a sua fala.
A legalização do aborto enfrenta resistência de vários setores, entre os quais, religiosos, contrários à eliminação de vidas humanas.
Mas quando, de fato, começa a vida humana?
Países ditos avançados como a França legalizaram o aborto e aboliram a pena de morte. Outros, mesmo muito religiosos, como Itália, Portugal e Espanha, também aceitam legalmente a interrupção voluntária da gravidez dentro de limites estabelecidos pelas condições e conhecimentos atuais da ciência.
O Brasil tem praticado a política do avestruz e evitado debater abertamente a questão. Enquanto isso, milhares de mulheres pobres fazem abortos em condições deploráveis . As mais aquinhoadas, mesmo que seja ilegal, encontram clínicas clandestinas mais preparadas para recebê-las.
Quem tem razão nisso?
Há quem diga que só as mulheres devem opinar sobre essa espinhosa e sensível questão.
Pode ser. Mesmo assim, é um tema que não deixar ninguém de fora, homens e mulheres, pais e filhos, especialistas e leigos, todos serem humanos. Nesse sentido, nosso deputados e senadores precisam dar a cara para bater.
Até quando vamos tapar o sol com a peneira?
Que cada parte se manifeste. Que vença quem for capaz de apresentar o melhor argumento ou de reunir os votos necessários para bater o martelo.
Só o silêncio atual é mortal.
Ceifa vidas na flor da idade.
Devotos têm razões respeitáveis.
Votos, porém, não podem servir de motivo para empurrar tristemente com a barriga de políticos matreiros um problema de saúde pública.
A sociedade precisa decidir.
Os seus representantes devem ter a coragem de abandonar a clandestinidade do silêncio providencial e colocar o tema em pauta.
Será que o mundo dito desenvolvido está errado?
Será que só o Brasil está certo?
Questões para um país.