Juremir Machado da Silva

As virtudes do bicameralismo

Eu sou fã do bicameralismo.

Ter Câmara dos Deputados e Senado faz bem.

Um faz o papel de câmara revisora do outro (salvo em competências exclusivas).

O senador é câmara revisora por definição.

Uso revisar num sentido amplo: corrigir, rejeitar, alterar, tomar decisão oposta.

Câmara e Senado são independentes e interdependentes.

Um impeachment não acontece se as duas casas não estiveram de acordo.

A Câmara dos Deputados deflagra o processo e, num sentido amplo, julga também.

Funciona como uma espécie de primeira instância.

Se 342 deputados aprovam o envio do processo para o Senado, condenam.

Querem o impeachment.

O impeachment é um processo paradoxal. Para não ser golpe, precisa partir de uma prova consistente anterior ao exame minucioso das provas. O presidente da Câmara aciona o gatilho com base nesse indício. A comissão formada amplia a análise desse indício e, se recomenda tocar em frente, admite-o como prova. Os deputados que votam, embora o façam politicamente, buscam absolver ou condenar. Para isso, buscam legitimidade argumentativa jurídica.

Baseiam-se na "prova".

O "réu" pode defender-se.

O STF, como em 1992, decidiu o óbvio: o Senado tem autonomia para acolher ou rejeitar a recomendação/proposição/autorização/sentença da Câmara dos Deputados. Pode revisar. Ou seria apenas o tribunal da Câmara, uma mera casa de aplicação de ordens da outra.

Sem a Câmara, o Senado nada pode fazer.

Sem o Senado, o "julgamento" da Câmara fica sem efeito.

A Câmara gostaria de obrigar o Senado a julgar. Seria tirar-lhe parte da autonomia.

Na verdade, as duas casas seguem quase as mesmas etapas.

São dois julgamentos interdependentes.

O afastamento de um presidente só pode dar-se no Senado pelo simples fato de que isso só pode acontecer se a recomendação/proposição/autorização/julgamento da Câmara for acolhido para exame. Se for rejeitado, acabou. Nada mais lógico na lógica da interdependência das casas.

O Senado faz o seu julgamento ou julgamento propriamente dito.

É a hora de fazer a prova definitiva da prova ou de responder à pergunta de Agripa:

O que prova que a sua prova é uma boa prova?

Não deixa, porém, de ser um julgamento político escorado em aparências jurídicas.

Quanto menos jurídico, mais golpista.

O impedimento só acontece se Câmara dos Deputados e o Senado aceitarem a denúncia/pedido, examinarem os fatos e argumentos e votarem uma sentença final. Cada um no seu tempo.

É preciso que as duas casas tomem a mesma decisão para o impeachment ocorrer.

O STF nada mais fez do que confirmar essa duplicidade.

Sou original. Sempre vejo as coisas pelo meu ângulo.

Quase sempre ele coincide com o da maioria do STF.

STF que se saiu muito bem: os ditos ministros petistas, Fachin e Toffoli, votaram, junto com o dito tucano Gilmar Mendes, contra os interesses do governo. A vitória veio dos outros.

Nem combinado, em nome da isenção e da legitimidade, sairia tão perfeito.

Será que o encantamento com o STF vai diminuir depois disso?