A semana ensolarada deste verão segue cinzenta no noticiário policial: mais duas tentativas de feminicídio na capital gaúcha. Duas mulheres atacadas de forma covarde pelos homens que um dia decidiram entregar todo o seu amor e confiança. Na zona sul, a vítima foi esfaqueada na frente do bebê. Graças a atenção de um vizinho, que ouviu os gritos desesperados de socorro, e à ágil resposta da Brigada Militar, ele foi preso e a mulher ainda está viva. Hospitalizada, ferida gravemente, no corpo e na alma, mas viva. O agressor foi preso pelos PMs e a Polícia Civil já pediu sua preventiva.
Na zona norte de Porto Alegre, outra rápida intervenção da Brigada evitou que uma mulher fosse esfaqueada pelo companheiro, que já estava com uma faca na mão pronto para matá-la. Foi salva. Patrulhas seguem na busca do feminicida.
Nas 24 horas da Operação Ano Novo, Vida Nova, deflagrada na última terça-feira, a Polícia Civil gaúcha prendeu 29 agressores de mulheres, cumpriu 41 mandados e apreendeu 04 armas de fogo na mão desses criminosos. Ainda apurou 102 denúncias de violência doméstica. Foram 363 policiais, entre agentes e delegados, e 109 viaturas sob coordenação da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (Dipam/DPGV), com o objetivo de coibir ciclos de violência doméstica e familiar contra a mulher no início do ano.
Além do cumprimento das ordens judiciais, houve fiscalização e averiguação de denúncias anônimas, monitoramento de tornozeleiras eletrônicas e distribuição de informativos com o tema "O ano mudou, sua vida também pode mudar”, pela conscientização quanto à rede rede de apoio.
É a polícia fazendo a sua parte. E olha que o estado ainda engatinha no sentido de deixar policiais suficientes, em todo o RS, cuidando exclusivamente deste tipo de crime. Verdade precisa ser dita: na esmagadora maioria dos municípios gaúchos, os policiais cuidam disto e de todo o resto. Não têm como se dedicar exclusivamente a estes casos. E, convenhamos, do jeito que a coisa está, sem uma dedicação exclusiva, as mulheres vítimas de violência precisam contar com a sorte. E a dedicação policial – que, como vimos, graças a Deus existe de sobra.
Mas vamos torcer para que os gestores de estado e da segurança enxerguem melhor a realidade do povo que servem e pensem que esses policiais também precisam condições de trabalho e dedicação. Pois a maioria está no limite.
E a justiça? E a rede de proteção?
Dos mais de 13 mil pedidos de proteção de mulheres vítimas de violência, só no nosso estado, apenas 803 homens estão com tornozeleira eletrônica. Não está na hora de agilizar isto? De acelerar estes processos? Mulheres estão morrendo! Agressores deste tipo não ficam aguardando despachos burocráticos para cometerem seus assassinatos. E quantas crianças estão tendo suas vidas destroçadas por conta destes homens livres para matar? Vamos torcer para que o sistema judicial seja tocado por essa sensibilidade e se una num mutirão de esforços para reduzir estas mortes.
As redes de proteção são igualmente falhas na maioria das cidades gaúchas. Ainda que haja algum esforço do estado em fortalecer as delegacias especializadas e as patrulhas Maria da Penha, se compararmos o efetivo da Brigada Militar, por exemplo, com o número elevado de demandas só neste tipo de violência a ser prevenida, não teremos nem de perto a sombra de um atendimento adequado. Nem o número de delegacias suficiente que estimule uma mulher a pedir proteção na maioria dos rincões. E se algum gestor dizer que não vale a pena tanto investimento, bom, aí temos o discurso comum do descaso, onde vidas não importam. Se importassem, não haveria esse cálculo do “deficitário” tão presente nas canetas decisoras.
E quantos gestores municipais cruzam os braços e dão de ombros ao problema? Quantas cidades não tem sua rede de proteção completa e pronta para acolher uma mulher vítima de violência? Quantos lugares não têm sequer um local para abrigar suas vítimas? Quantas redes de proteção estão absurdamente furadas?
Em 2026 completamos 20 anos da Lei Maria da Penha. Uma ótima lei. Para um país cujos gestores, em todos os níveis, de todas as correntes, parecem ter como cláusula moral pétrea o maus costume de não cumprir as leis, sempre sob desculpas esfarrapadas. Porque grana tem para investir. Pois sempre sobra para desviar.
