Não há provas que nos autorizem dizer que é, de fato, culpado o coronel da Polícia Militar de São Paulo, acusado de matar a esposa (soldado da mesma corporação) e tentar forjar seu suicídio. Porém, a própria Corregedoria da PM paulista revelou ao mundo conversas extraídas do seu celular.
Muitas mulheres se reconheceram no lugar daquela jovem, alvo de tamanha violência verbal. Muitas mulheres reconheceram, ali, as palavras humilhantes e os argumentos estúpidos que povoam seu cotidiano. Reconheceram as regras ridículas, as restrições e ordens abusivas sobre roupas, gestos e falas. O controle. A ameaça. A diminuição. Reconheceram a pretensa virilidade débil de alguém com quem convivem. E que esconde uma insegurança crônica, um trauma não resolvido, uma limitação íntima grave ou até qualquer insanidade mental. Há muitos homens assim. Muito mais do que se admite. Muito mais do que se pensa.
O sujeito que se intitula “macho alfa” não passa de um demente qualquer, que precisa afirmar uma pretensa superioridade que ele teme, muito, ser desmentida – e sempre o é - pela realidade. No fundo, o tal alfa é um personagem frustrado, mal resolvido, cheio de frases prontas como o político que esqueceu o próprio discurso e improvisa gritando mais alto. Não lidera ninguém, impõe. Não inspira, constrange. E, ao contrário do que imagina, não causa respeito, apenas asco, pena e algum embaraço coletivo, como quem conta vantagem em voz alta onde todos já entenderam a piada, menos ele.
No alfa não há força, há caricatura. O discurso é de domínio absoluto, de posse sobre o outro, como se relações humanas fossem extensões de uma cadeia de comando. Confunde hierarquia, seja ela em ambiente civil ou militar, com licença para assediar, impor, humilhar. Disciplina com controle emocional alheio. Autoridade com direito de invadir, diminuir, violentar. É uma leitura torta do mundo. E perigosamente comum.
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Desculpas esfarrapadas
Há quem se julgue mais humano do que os outros, que trate o outro como menos. E, sob desculpas esfarrapadas como ciúme, honra e outras baboseiras, justifica seu comportamento violento e doentio. Esse tipo de masculinidade, já vencida no tempo em o espaço, não é forte, é frágil. Ainda que perigosa e violenta, muitas vezes assassina. Precisa reafirmar-se o tempo todo porque não se sustenta em silêncio. Vive de uma plateia submissa, se afirma na validação no medo alheio. Talvez por isso seja tão barulhenta; quanto mais oca, mais eco faz.
A ironia é que, ao tentar se impor como predador, revela-se refém de uma ideia ultrapassada de poder, que não resiste ao menor contato com valores como respeito, empatia e igualdade. Então pira. E agride.
O “alfa” moderno é, na verdade, um sujeito atrasado, tentando sobreviver num mundo que já não tem mais paciência para seus rugidos patéticos. Sobra a constatação de que não há nada mais distante da grandeza do que a necessidade de se declarar grande. Homens verdadeiramente seguros não precisam de rótulos zoológicos para se afirmar, nem de discursos narcisistas para mulheres que, um dia, ludibriaram. É só um personagem que ainda acredita ser protagonista, sem se dar conta, por sua reduzida capacidade de reflexão e compreensão, de que o mundo já mudou de cena.
Às mulheres, fica o alerta: rótulos promissores podem carregar os piores e mais perigosos conteúdos. Apeguem-se aos seus valores humanos. E não os troquem, jamais, nem por promessas, muito menos pela vaidade de um monstro qualquer e seus pretensos status e poderes. É tudo um monte de nada. Que pode matar.
