Caderno de Sábado

A riqueza dos textos de Augusto Meyer

O CS recupera três textos de 1930, do jornalista e ensaísta gaúcho, morto em 24 de janeiro de 1970, sobre Erico Verissimo, Machado de Assis, Ronald de Carvalho e Mario de Andrade

Poeta, ensaísta e imortal da Academia Brasileira de Letras, Augusto Meyer, junto com os escritores Athos Damasceno Ferreira e Ernani Fornari
Poeta, ensaísta e imortal da Academia Brasileira de Letras, Augusto Meyer, junto com os escritores Athos Damasceno Ferreira e Ernani Fornari Foto : CP Memória

Erico Virissimo*

Num dia de chuva, enquanto a goteira compunha a monodia do pingo d’água, Erico Verissimo, lá no seu retiro provinciano, homem perdido na incerteza do mundo, resolveu se distrair compondo a força da criação. O tema escolhido cria a realidade do momento: Criaturas contra Criador.

De um lado o demiurgo com a mão no barro inerme, do outro o imprevisto das imagens plásticas. E a incerteza do ato criador, que é uma colaboração constante com o indefinido, porque o autor nunca pode saber o que vai sair das criaturas. A não ser que ele prefira a psicologia esquematizada de um Bourget nos seus romances-teses.

Erico Verissimo não é apenas “um rapaz que tem talento” como se diz. É um temperamento sério e concentrado de criador. A ficção pra ele é matéria viva e os seus símbolos o apaixonam. Digo isto porque o conheci quando ele estava trabalhando numa novela — “Jacarécanga” — e não imaginava mas vivia a obra com a ternura consciente e profunda do homem que nasceu escritor. Também no problema da forma se notava o mesmo carinho apaixonado: tive em mãos um monólogo muito bem desenvolvido à maneira de Joyce ou de Valéry Larbaur, do qual devia ser publicado num jornal daqui porém foi vetado como “futurismo”. Futurismo, no conceito fácil dos que só se interessam pela ruminação das coisas mastigadas e semi-digeridas, é tudo que exige um pouco de ginástica mental extra-programa. O monólogo mencionado mostrava em Erico Verissimo as virtudes literárias que se afirmaram depois com as três farsas interessantíssimas publicadas no róseo (apelido dado inicialmente ao Correio do Povo pela cor de suas páginas): “Criaturas contra Criador, Faustino e Quarteto sem Sol”.

Nelas aparece o drama da personalidade e da criação. O Autor, personagem como as suas personagens, reconhece afinal a sua impotência diante da obra. A obra viverá contra ele mesmo e apesar dele.

Assim como o poeta Faustino é forçado a confessar que, se a infância ressurgisse, ele não poderia mais reconhecer-se como criança, pois o mais importante pra ele era “recordar” e não “viver” a infância, vê-la com os olhos saudosos porém desiludidos do poeta que prefere o poema à realidade.

No “Quarteto sem Sol”, está o tema da personalidade múltipla: Shaw, Tagore e Beethoven arrancam a máscara habitual e trocam os papéis. A vida nos impõe um perfil determinado, mas nós poderíamos ser exatamente o contrário do que somos se não houvesse uma pedra no caminho, se não acontecesse esta ou aquela encrenca.

Pela amostra, o senhor Erico Verissimo não procura o sucesso, procura a verdade nos seus temas. Não tem medo de cavoucar, de voltar-se para si mesmo, descendo ao subterrâneo, lutando com os seus fantasmas, Há certa analogia entre os seus ensaios de ficção e os contos do senhor Liberato Soares Pinto ou do senhor Mario Quintana.

Seria admirável que no meio da nossa lenga-lenga regionalista essa trindade valorosa inaugurasse uma forma nova de ficção entre nós, o que eu desejo sinceramente e espero.

* Nos primeiros textos no Correio do Povo em 1930, o escritor de “O Tempo e o Vento” era assinado como Erico Virissimo e não Verissimo.

(Correio do Povo - 10/7/1930)

Imortalidade

Não se dava nada pelo velhote. Pequeno, sumido numa sobrecasaca poluída, cabeça inclinada sobre o ombro direito, olhar vago atrás dos óculos, a barba camuflando uma boca sensual.

Carregava o guarda-chuva como quem não acredita nas trovoadas. De vez em quando um frêmito leve crispava o canto do lábio, mal adivinhado sob os fios grisalhos, depois fechava a sete chaves a expressão.

Afinal, cruzou as mãos sobre o cabo do guarda-chuva e sentou-se na cadeira mais próxima.

Resolvi franzir o sobrolho e engrossei a voz:

— Com quem tenho a honra?

Ficou me olhando com duas pupilas que sorriam

— Com quem tenho...

— Não será propriamente o termo a empregar — porque eu sou defunto, e os defuntos são camaradas...

— ?

— Permita que me apresente: Machado de Assis, falecido imortal.

— !

— Ah! menino, quando você chegar à outra imortalidade, não a das palmas acadêmicas, porém do papel impresso, compreenderá o que pode haver no destino buracoso de um homem. Imagine que eu estou condenado a ser sempre Machado de Assis, letras de ouro na lombada e delírio de Brás Cubas.

— Capitu, olhos de ressaca...

— E Ayres, flor na lapela...

— E os críticos...

— E os leitores…

— E a glória!

Levantou-se, brandindo o ofensivo guarda-chuva.

— Não tenho talento pra isso, me larguem senão eu...

— Não faça isso. Olhe esta ironia, mestre, então deixou em casa o famoso humor...

— Humor? Humor — mau humor!

— Hum...

— Peço demissão. Me deixem mudar de estilo, me larguem que já me não me aguento mais!

E saiu dançando o charlestone em sinal de protesto.

(CP – 19 de julho de 1930).

Macunaíma

O senhor Ronald de Carvalho foi o inventor do “claro riso dos modernos”, do Brasil moço e satisfeito mostrando os dentes magníficos, como acontece nas estampas me que recomendam Odol ou Kolinos. Esse Brasil tão macanudo e alinhado matou o Terror, espécie de curupira inventado pelo mestre Graça Aranha pra assustar os seus leitores. De um lado, portanto estão os que não mataram o Terror.

Do outro ficam os rapazes inteligentes e cultos que leem Bertrand Russel, mostram todos os dentes numa risada saudável e cultivam o “dinamismo construtor” com a consciência rósea de um americano que acha o seu país o padrão ideal do progresso.

Foi o “claro riso dos modernos” o inspirador de “Toda a America” (1926), livro notável pela absoluta falta de inquietação brasileira, de amargura brasileira, de compenetração dos nossos problemas dolorosos.

Adotando o tom largo de um profeta sem barbas nem arreganhos místicos, Ronald de Carvalho acha tudo admirável no Continente, trepa nas cordilheiras ou nos arranha-céus, toma fôlego e lança aos ventos a mensagem otimista, higiênica, de professor de entusiasmo abstrato. Tudo no canto americano de Ronald é pirilampada no vazio discurso à América cenográfica das suas teorias.

Só conseguem valor mais humano algumas paisagens do poema, onde estão à vontade as virtudes do poeta e não cabe o seu programa.

Ao “claro riso dos modernos” preferimos, hoje, como imagem representativa o “herói sem caráter”, “Macunaíma” (obra de Mario de Andrade de 1928). A preguiça de Macunaíma, as indefinições e safadezas de Macunaíma estão mais perto da nossa realidade do que todos os poemas berrantes e coruscantes em que se canta um Brasil vencedor, adolescente morenão e risonho parecido com Ramon Novarro no “Pagão”. Macunaíma ao menos sabe que não tem caráter, que deixou a consciência na ilha de Marapatá, que tem preguiça pra levantar o dedo minguinho, que só acorda pra caçar mulher boa e ferrar no sono em seguida. Macunaíma também faz discurso — mas não acredita no que o discurso está dizendo. Sabe que as suas revoltas não passam do “me agarra senão eu mato!”. Macunaíma é tão Brasil.

Não pode haver “claro riso dos modernos” enquanto Macunaíma continuar sendo o que é.

(CP - 19 de junho de 1930)