Lula e Donald Trump chegam à abertura da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, nesta terça-feira, carregando pesos diferentes, mas ambos sob pressão. O brasileiro chega pressionado pela polarização política interna, pela proximidade das eleições e por uma relação com Washington que se deteriorou de maneira inédita. Trump, por sua vez, chega depois de transformar a política externa americana em instrumento de pressão permanente, enfrentando conflitos, aliados desconfiados e adversários que testam diariamente os limites do poder dos Estados Unidos. O encontro dos dois, portanto, ultrapassa a simples formalidade diplomática. Lula levará à tribuna a defesa do multilateralismo, da soberania e da negociação entre as nações. Trump deverá reafirmar uma visão em que o tamanho econômico, militar e político dos Estados Unidos dá a Washington o direito de exercer uma influência muito maior sobre as decisões do planeta. São duas visões de mundo que dificilmente poderiam estar mais distantes.
PRESSÕES
Lula chega à ONU sabendo que qualquer palavra sobre os Estados Unidos será imediatamente incorporada à disputa política brasileira. A crise diplomática com Washington deixou de ser apenas uma questão de política externa e passou a alimentar o debate interno. O presidente precisará, portanto, falar para o mundo sem deixar de falar para o Brasil. O risco é transformar uma tribuna internacional em extensão da batalha eleitoral doméstica. Trump enfrenta problema de natureza diferente. Sua aposta em sanções, tarifas, ameaças militares e pressão direta sobre outros países ampliou a influência americana em alguns tabuleiros, mas também aumentou resistências. A diplomacia do confronto pode produzir resultados rápidos, mas cobra um preço: quanto mais Washington tenta impor sua vontade, maior pode ser a disposição de outros países de procurar alternativas ao poder americano.
PROJETOS
Lula pretende apresentar o Brasil como voz de um mundo que considera excessivamente concentrado nas mãos das grandes potências.
A defesa do Conselho de Segurança ampliado, da negociação dos conflitos e do respeito à soberania está no centro dessa proposta. É também uma tentativa de recuperar para o Brasil o papel de interlocutor do chamado Sul Global.
Trump caminha na direção oposta. Sua concepção parte da premissa de que os Estados Unidos não precisam necessariamente convencer o mundo quando podem pressioná-lo.
Tarifas, sanções, poder militar e o peso do mercado americano tornam-se instrumentos de negociação. O multilateralismo, nessa lógica, deixa de ser prioridade quando limita a liberdade de ação de Washington. É a velha política de potência reapresentada com instrumentos do século 21.
CONTRASTE
É difícil imaginar cenário mais simbólico para o choque dessas duas concepções. A ONU foi criada justamente para substituir, pelo menos em parte, a lógica de que os mais fortes simplesmente impõem sua vontade. Trump parece disposto a lembrar que, no mundo real, poder continua sendo poder. Lula tentará responder que nenhuma potência, por maior que seja, consegue administrar sozinha um planeta marcado por guerras, mudanças climáticas, desigualdades, migrações e crises econômicas. O problema é que o discurso multilateralista de Lula também enfrenta seus limites. Defender diálogo e soberania é uma coisa; conseguir que as grandes potências aceitem repartir poder é outra. Da mesma forma, a estratégia de Trump pode produzir resultados concretos, mas corre o risco de transformar aliados em parceiros desconfiados e adversários em inimigos permanentes.
RELAÇÃO
É nesse terreno que estará a parte mais delicada da passagem dos dois pela ONU. O Brasil não pode prescindir dos Estados Unidos, assim como Washington não tem interesse em empurrar o Brasil para uma posição de confronto permanente. Comércio, investimentos, tecnologia, defesa e a própria estabilidade política do continente recomendam pragmatismo. Lula e Trump podem trocar discursos duros, mas seus países continuarão precisando conversar. A questão é saber se serão capazes de separar divergências políticas de interesses nacionais permanentes. O Brasil precisa defender sua soberania sem transformar autonomia em isolamento. Os Estados Unidos podem exercer seu poder sem transformar pressão em ruptura. A ONU será o palco para se tirar as conclusões.
