Jurandir Soares

Negócios nebulosos de Trump

A guerra da Ucrânia parece ter se transformado, para Donald Trump, em mais uma oportunidade de fazer negócios. Enquanto cobra de Kiev concessões territoriais e pressiona Volodymyr Zelensky a aceitar as condições de Moscou, o presidente americano, por intermédio de seus enviados especiais Jared Kushner, seu genro, e Steve Witkoff, trabalha em propostas para devolver o gás russo ao mercado europeu. O plano prevê a participação de empresas estadunidenses na comercialização do combustível, criando uma intermediação que permitiria contornar as sanções impostas à Rússia.

A iniciativa, revelada pelo The Wall Street Journal, levantou questionamentos sobre os verdadeiros interesses por trás das negociações. Afinal, além de oferecer uma saída econômica a Vladimir Putin, o projeto abriria uma oportunidade de lucros para investidores dos Estados Unidos. Não seria a primeira vez que Trump coloca interesses comerciais no centro de sua política em relação ao Kremlin.

INTERMEDIAÇÃO

Uma das propostas apresentadas por Kushner e Witkoff prevê a retomada das exportações de gás russo para a Europa, utilizando tanto a rede de gasodutos que atravessa a Ucrânia quanto a possibilidade de reativação do Nord Stream II. É importante distinguir os projetos: o Nord Stream II liga diretamente a Rússia à Alemanha pelo Mar Báltico, enquanto a rota ucraniana permitiria a Kiev receber tarifas pelo transporte do combustível pelo seu território.

O aspecto mais controverso é a ideia de utilizar empresas dos EUA como intermediárias na venda do gás, criando uma camada comercial capaz de contornar as restrições europeias. Os negociadores também sugeriram que os recursos russos fossem depositados em contas especiais, em países terceiros, para impedir seu uso imediato no financiamento da guerra.

INTERESSES

A suspeita de que Washington esteja construindo um grande negócio energético com Moscou não é gratuita. A participação de investidores norte-americanos poderia transformar empresas estadunidenses em beneficiárias da retomada das exportações russas. A Gazprom, controlada pelo Estado russo, seria uma das protagonistas naturais desse mercado.

A proposta, entretanto, enfrenta forte resistência do Velho Continente. A União Europeia trabalha para eliminar completamente as importações de gás russo até o final de 2027. Depois de anos tentando reduzir sua dependência energética de Moscou, voltar a comprar combustível russo seria uma contradição política e estratégica.

DIESEL

O episódio lembra outro acordo já anunciado por Trump com Putin, envolvendo a compra de mais de dois milhões de barris de diesel russo para abastecer os mercados norte-americano e internacional. A iniciativa representou um alívio para Moscou, justamente quando as sanções ocidentais procuravam limitar suas receitas energéticas. Zelensky classificou a decisão americana como um presente a Putin.

Agora, a retomada do gás acrescentaria outra oportunidade de negócios à aproximação entre os dois governos, sem que a Rússia tenha demonstrado disposição equivalente para fazer concessões na guerra.

PRESSÃO

Há ainda uma exigência particularmente constrangedora para Kiev: Trump queria que a Ucrânia suspendesse os ataques às refinarias e instalações energéticas russas, alegando que essas operações pressionavam os preços internacionais dos combustíveis. Witkoff e Kushner levaram essa cobrança aos representantes ucranianos, enquanto Moscou continuava atacando a infraestrutura energética da Ucrânia.

O resultado é uma diplomacia cada vez mais difícil de se distinguir de uma negociação comercial. Trump oferece a Putin perspectivas de lucros, alívio econômico e acesso ao mercado europeu, enquanto pressiona o país agredido a limitar sua capacidade de resposta. Em nome de uma paz ainda distante, o presidente estadunidense parece disposto a transformar a reconstrução das relações com Moscou em um empreendimento altamente lucrativo. Resta saber quem ganhará com esse negócio e quem pagará a conta.

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