A Ucrânia enfrenta um dos momentos mais delicados desde o início da invasão russa. Com a ajuda dos Estados Unidos praticamente perdida, especialmente no fornecimento de informações de inteligência e sistemas antimísseis, Kiev vê diminuir sua capacidade de conter os ataques de Moscou. Sem o apoio militar e tecnológico norte-americano, a resistência ucraniana fica mais vulnerável, enquanto a Rússia mantém a iniciativa no campo de batalha e amplia a pressão sobre as posições defensivas.
A situação se agravou nesta quinta-feira, quando o presidente Volodimyr Zelensky pediu aos moradores de Kramatorsk e Sloviansk que abandonassem suas casas. As forças russas estariam a apenas cinco a dez quilômetros dessas cidades estratégicas do Donbass. Ao mesmo tempo, Moscou continua avançando sobre territórios que pretende anexar, e as perspectivas de um acordo de paz parecem cada vez mais distantes. A diplomacia ensaia alternativas, mas os bombardeios demonstram que a guerra continua falando mais alto.
AVANÇO
A Rússia já ocupa 19,4% da região do Donbass que pretende anexar, consolidando uma posição que dificulta qualquer negociação favorável aos ucranianos. Kramatorsk e Sloviansk são importantes centros urbanos e logísticos, cuja eventual queda representaria mais um duro golpe para Kiev. A ordem de retirada de civis evidencia o risco crescente de que a população pague novamente o preço de uma guerra que não dá sinais concretos de terminar.
ABANDONO
A redução do apoio norte-americano agrava esse quadro. Além da falta de armamentos, a perda ou restrição do compartilhamento de informações de inteligência prejudica a identificação antecipada dos ataques russos. Os sistemas antimísseis são igualmente essenciais para proteger cidades e infraestrutura energética. Sem essas ferramentas, a Ucrânia fica mais exposta justamente quando Moscou intensifica a ofensiva.
A decisão de Washington de reabrir canais econômicos com o Kremlin, incluindo negociações sobre diesel russo, aumenta a sensação de abandono em Kiev.
NEGOCIAÇÃO
O enviado norte-americano Steve Witkoff tenta reativar as negociações, e Zelensky admitiu a possibilidade de congelar os combates nas posições atuais. A proposta, porém, esbarra na postura de Vladimir Putin, que continua bombardeando o território ucraniano. Um cessar-fogo baseado na linha de frente existente poderia interromper a matança, mas também consolidaria as conquistas territoriais russas. Sem garantias de segurança e mecanismos eficazes de fiscalização, o congelamento corre o risco de apenas oferecer a Moscou tempo para reorganizar suas forças e preparar novos ataques.
CONCESSÕES
Nesse cenário, a revista The Economist revelou os contornos de um plano de paz com quatro pilares: criação de uma zona desmilitarizada no Donbass, retomada das relações econômicas com a Rússia, suspensão de sanções e renúncia ucraniana à entrada na Otan, em troca de investimentos e da perspectiva de adesão à União Europeia. O pacote também prevê a possível retomada do fornecimento de gás russo à Europa pelo Nord Stream. Berlim, porém, rejeita essa reaproximação energética, que enfrenta obstáculos legais na União Europeia.
O problema é evidente: enquanto a Rússia receberia benefícios econômicos e alívio diplomático, a Ucrânia teria de aceitar restrições estratégicas e uma realidade territorial imposta pela guerra. A promessa de ingresso na União Europeia não equivale à proteção militar oferecida pela Otan.
GARANTIAS
O plano pode abrir uma porta para a paz, mas, nas condições atuais, ameaça transformar a agressão russa em vantagem política. Uma paz duradoura não pode depender apenas da disposição de Kiev em ceder. Exige que Putin interrompa os ataques e aceite garantias concretas de que a Ucrânia não voltará a ser invadida. Caso contrário, o congelamento da guerra será apenas uma pausa imposta ao país que resiste, enquanto o agressor preserva suas conquistas e aguarda a próxima oportunidade.
