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Canoas ainda aprende a recomeçar dois anos após a enchente

Moradores que insistem em seguir na cidade que foi devastada pela cheia buscam reconstruir suas vidas

Casas marcadas pela enchente de maio de 2024 no bairro Mathias Velho, em Canoas
Casas marcadas pela enchente de maio de 2024 no bairro Mathias Velho, em Canoas Foto : Alina Souza

As cenas das águas cor de lama submergindo as casas, com apenas a ponta do telhado sobrando, foram assistidas por muitas pessoas pela televisão nos primeiros dias de maio de 2024, mas muitos outros assistiram pelas janelas de suas casas em Canoas, na região Metropolitana. Há dois anos, 60% da cidade foi atingida pela maior enchente que o município já vivenciou, e que resultou em 31 mortos. As cicatrizes deixadas no solo ainda são profundas e, hoje, os moradores que insistem em ficar na cidade ainda aprendem a recomeçar.

"Para mim o mais difícil ainda é morar aqui", diz Maria Edi Santos, de 64 anos, que vive no bairro Mathias Velho. No pátio de sua casa, tem uma máquina de lavar, uma geladeira, um vaso sanitário e um pedaço de um liquidificador. Todos os itens estragaram por conta da enchente que invadiu sua moradia naquele maio. Um gato que ela adotou recentemente se equilibra entre os objetos, utilizando-os como brinquedos. Para Maria, é mais uma das marcas dolorosas que permanecem da catástrofe dois anos depois.

24 meses da enchente de maio 2024, em Canoas. Dona Maria Edi fala sobre os estragos que teve com a enchente de maio de 2024, no bairro Mathias Velho. | Foto: Alina Souza

Maria evita falar do que passou. Quando lembra, os olhos começam a lacrimejar. Com a voz embargada, ela relata como sua casa ficou submersa pela cheia. "A gente achou que não ia ser muito. Eu estava trabalhando. Cheguei umas 16h30 e não tinha mais ninguém aqui na rua", conta. Naquele momento, já havia uma correnteza em frente. Ela conseguiu se refugiar em uma casa nas proximidades, mas a água subiu rápido demais. No sábado de madrugada, foi resgatada de barco. Ela só conseguiu retornar um mês depois. Hoje, sua casa tem apresentando rachaduras e estalos. Ela chegou a colocar massa corrida em uma das partes, mas preocupa-se com os riscos.

Maria Edi conseguiu recompor os móveis da sua casa a partir do dinheiro que conseguiu do Auxílio Reconstrução e de doações de vizinhos, além do que recolheu da rua. "Depois, quando eu parar de usar, se eu puder comprar outro, tenho que devolver. A gente socorre pessoas que precisam e necessitam". Ela não se inscreveu no Compra Assistida porque achou que era um processo complexo, e não teve ajuda para prosseguir. "Eu não manjo dessas coisas. Como é que eu vou te falar? Sou desentendida", disse. Nesse tempo, ela chegou a conseguir sua aposentadoria, mas, para custear os prejuízos, precisou retomar o trabalho de faxina. "Ia parar de trabalhar, mas agora não dá. Mesmo nessa situação, tenho que continuar".

Maria Edi aponta para áreas da sua casa que estão com rachaduras e estalos | Foto: Alina Souza

Memórias apagadas

Clarice Toledo de Melo Schneider, de 60 anos, também moradora do Mathias Velho, só conseguiu retornar para a sua casa 26 dias depois que começou a enchente. Na época, ela não queria sair, porque achou que a água não iria atingir um nível tão alto. Porém, seu filho insistiu. "Não levei roupa, não levei nada. Ficou tudo".

"Das minhas coisas de dentro de casa, só fiquei com o freezer, o fogão - que quebrou os pés e a gente fez uma base -, e a geladeira, mas a gente teve que mandar arrumar, porque estragou. No mais, não tinha nada. Estava tudo amontoado para lixo, porque não tinha como recuperar nada". Clarice lavou o que deu de roupa de cama, mas as roupas do corpo não conseguiu. Passados dois anos, o medo da chuva ainda a persegue. "Nos primeiros meses, eu não dormia. Chovia, ficava acordada. Agora eu já consigo dormir, mas eu ligo o ventilador".

Uma das principais tristezas dela é ver suas fotos que não resistiram à água, como memórias que foram apagadas. Um retrato da sua filha Eduarda, de quando ainda era pequena, está todo manchado de lama, e ela não teve coragem de colocar fora. Hoje, ainda se emociona quando vê. Em um quarto, guarda uma caixa com as fotografias antigas que conseguiu resgatar. Algumas delas, não é possível enxergar nada, tamanho o estrago.

Clarice Schneider mostra as fotos que perdeu com a enchente | Foto: Alina Souza

Um dos maiores desafios de sair do bairro onde Clarice mora é decidir o que fazer com a casa. "Para sair daqui, eu tenho que vender. Não tenho condições de sair sem vender aqui. E vender agora está muito desvalorizado, porque ninguém quer vir para cá", reconhece. Ela também não tentou se cadastrar no Compra Assistida. Conseguiu recomeçar do zero apenas com o Auxílio Reconstrução, de R$ 5,1 mil. "Eu moro aqui há 38 anos. Não queria sair". No entanto, olha ao redor e praticamente toda a sua vizinhança já abandonou a rua. "Aqui era uma cidade boa, uma cidade limpa, bonita. Agora está meio atirada. Tem casas fechadas que tu vês que não voltaram ainda. Está o mato na altura das paredes", detalha.

Clarice mora próximo ao dique de Canoas, um dos primeiros locais de onde saiu a água. Porém, acompanha a evolução das obras com preocupação, o que também compartilham outros moradores. "O que a gente escuta é que tem pouca evolução. O ano passado deu bastante chuva, esse ano promete e eles estão muito devagar", diz.

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Dos 60 anos de Clarice, 38 são no bairro Mathias Velho | Foto: Alina Souza

Recuperação do dique avança, mas conclusão total fica para 2027

Canoas tem 12 ações de proteção, e o município já foi contemplado com seis. O montante total de obras para proteção de cheias é de R$ 600 milhões. No final de abril, foi entregue o Muro da da Cassol, conhecido como primeiro trecho do dique Rio Branco, local onde começou a inundação no município em 2024. O terceiro trecho do dique Rio Branco deverá ser entregue em agosto. O segundo, com maior complexidade, ficará pronto apenas em 2027.

O dique da Mathias Velho, em um dos bairros mais atingidos pela cheia, e o trecho dois do dique Niterói deverão ser concluídos até setembro. Há, também, o dique Araçá, no bairro Mato Grande, que está sendo aportado por recursos do próprio município, de R$ 80 milhões, com conclusão prevista para junho de 2027. Por fim, o dique São Luis, com recursos do Firece, que ainda deverão ser feitos estudos que compõem os projetos para a bacia do Sinos.