Especial

Eldorado do Sul: dois anos após a enchente, moradores relatam viver em bairros fantasma

O esvaziamento da cidade é cada vez maior, e moradores remanescentes aguardam a entrega do dique, uma antiga promessa

No bairro Cidade Verde, casas ainda apresentam marcas da água
No bairro Cidade Verde, casas ainda apresentam marcas da água Foto : Alina Souza

Dois anos depois da tragédia climática que atingiu 90% de Eldorado do Sul, a cidade se transformou, e enfrenta um esvaziamento com a saída de muitas famílias em busca de um local seguro e com melhores condições. Com diversos comércios fechando as portas, quem permaneceu relata sensação de viver em bairros considerados fantasmas. Os imóveis vazios e sinais de abandono ditam o cenário de uma cidade que ainda luta para se reerguer.

Amanhã será um dia melhor

A casa de Raquel Dorneles, moradora do bairro Medianeira, não apresenta mais marcas da enchente que devastou a cidade naquele maio. Mas ela ainda lembra exatamente até onde a água e a lama chegaram. Ao apontar na parede, Raquel precisa esticar todo o braço e ficar na ponta do pé. É fresca também a memória de como passou aqueles dias que pareciam um pesadelo.

Diferentemente de outros bairros da cidade, ali a água nunca havia chegado. Mas no dia 2 de maio, rumores tomaram conta da vizinhança. A família de Raquel não se preparou para isso. "A gente nem imaginava que chegaria aqui". Ela até ergueu alguns móveis, mas só por cerca de 2 metros. Quando saiu de sua casa, a água já batia na cintura. Na corrida, só conseguiu pegar os seus documentos e os do seu filho pequeno, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). Inicialmente, iria permanecer na cidade, mas viu que não teria como, já que outros bairros também estavam alagando. "É uma cena que nunca vou esquecer na minha vida", afirmou. Ao sair na rua, as pessoas olhavam uma para as outras com o mesmo desespero, lembra.

Raquel Dorneles, moradora do bairro Medianeira, ainda lembra exatamente até onde a água e a lama chegaram. | Foto: Alina Souza

O que deixou Raquel em pé naquela época foi seu mantra de que, se hoje o dia está ruim, amanhã será melhor. Foi assim que conseguiu se reerguer. Ela ficou 22 dias fora de casa, morando em Canoas. Quando as águas baixaram, foram 40 dias para limpar tudo e repintar. "O cheiro era muito forte, de coisas podres. Dentro de casa, ficou um lodo", relata.

Mas e o medo? "Está todo mundo com medo, porque o El Niño voltou, e a gente não sabe o que que vai ser da gente". Com a reforma da sua casa, Raquel adaptou os cômodos para que não tenha mais prejuízos caso passe por uma nova cheia. O balcão do seu banheiro foi construído com pedras, de modo que não destrua caso fique muitos dias molhado. No balcão da cozinha, os armários foram parafuseados, de modo que seja possível retirá-los inteiramente em caso de cheia. "Eu ainda comprei uma barraca. Nem que eu fique lá no viaduto, onde não pegou água". Ela também tem tudo preparado para uma saída de emergência. "Já tenho coisas de emergência, como carregador via solar, que a gente comprou. A gente tem uma mochila de emergência, que é para medicamentos e curativos. Tu ficas apreensível, mas a gente tem que estar preparado".

A preparação é intensa porque Raquel não quer sair da casa onde mora há tantos anos. "Moro aqui desde que eu nasci. Eu tenho uma raiz. Eldorado é uma cidade acolhedora. Conheço todo mundo, saio na rua e conheço o vizinho da frente, conheço o vizinho da outra esquina. Todos me viram crescer, e eu vi eles envelhecerem. A gente tem um apego com o povo daqui. E eu não me vejo morando em outro lugar. Tenho medo? Tenho, mas vou ficar aqui".

Olhando ao redor, é possível visualizar muitas casas abandonadas, com bairros praticamente fantasmas. "Está assustador. Porque as pessoas ganharam moradias e foram embora, e essas casas ficaram, e eles estão demolindo. Está ficando tipo filme de terror mesmo, sabe? Tem uma casa aqui, outra lá e no meio destruído", lamenta Raquel. O esvaziamento também prejudica o comércio local, com falta de clientela.

Muitos comércios e outros estabelecimentos, principalmente os considerados não essenciais, fecharam as portas. "O que a gente tem de lazer aqui dentro de Eldorado? Nada. Muita coisa fechou com essa função das pessoas não terem renda. Porque a renda está exclusiva para reconstrução da casa, não tem rotatividade no no comércio. A pessoa precisa da medicação e vai comprar porque precisa, mas ninguém vai comprar uma roupa nova porque precisa, ninguém vai adquirir uma decoração de festa porque precisa. Isso são coisas fúteis. Aí as coisas vão fechando. E aí, vai empobrecendo mais a cidade", relata.

Dois anos depois, o sentimento de Raquel ainda é de angústia. A gente fica apreensível, com medo. Um medo que é assustador, sabe? Medo de tu acordar e a água estar ali na tua casa". Quando retornou à sua moradia após a enchente, sempre tinha a sensação de que iria colocar o pé no chão e sentir a água ali. É medo da água, medo da chuva, medo do temporal. Antigamente, a gente tomava banho de chuva, hoje eu tenho medo da chuva. É complicado".

Cristiane Hunter de Oliveira guarda fotografias que conseguiu salvar da cheia | Foto: Alina Souza

Só restam as memórias

Na sala de estar da casa de Cristiane Hunter de Oliveira, de 52 anos, moradora do bairro Cidade Verde, quadros com fotos da sua família estão pendurados na parede que, dois anos atrás, estava inundada até o teto. Os registros foram um dos poucos que sobraram da enchente. Ela diz que, se pudesse recuperar qualquer coisa que perdeu naquela época, só teria isso: as fotos. Ela perdeu todas que tinha com seus avós. “Meus filhos estão vivos para tirar de novo, eles não”.

Cristiane já tinha saído de sua casa com a água batendo na altura do peito em 2023, e se viu novamente em maio de 2024 precisando retirar todas as suas coisas que tinha recém conquistado com doações, já que a água chegou, desta vez, até o teto. Ela sentiu que a coisa era séria quando ouviu o próprio governador, na televisão, alertando a população para evacuar as regiões de risco. Sem pestanejar, junto com o seu marido e filho, recolheu tudo que podia e levou de caminhão para a casa da sua sobrinha, perto dali. Só que precisou mudar sua rota de fuga, porque não adiantou: a água chegou até lá também. "A gente perdeu tudo", lembra. Sua opção foi ir até Nova Tramandaí, no Litoral, na casa de um tio, onde ficou por 15 dias.

Ao retornar à sua casa, paralisou. O lugar onde morava desde 2007 estava totalmente destruído. O pouco que tinha deixado foram seus materiais de trabalho, na venda de salgados. "Não consegui imaginar o que ia conseguir fazer. Eu não tinha o que fazer". Sem forças para reconstruir seu lar pela segunda vez, decidiu ir embora e morar em outra casa com aluguel, no mesmo município, por um ano e quatro meses. No entanto, foi difícil pagar aluguel mensalmente. Portanto, optou por retornar à sua casa em novembro do ano passado. O local estava sem móveis e portas, e com vidros quebrados. Ao todo, foram cerca de 40 dias para reorganizar tudo e acessar o imóvel novamente.

Cristiane Hunter de Oliveira mostra até onde a água chegou na sua casa | Foto: Alina Souza

Com o auxílio de R$ 5,1 mil que recebeu pelo Auxílio Reconstrução, do governo federal, conseguiu comprar o que foi possível de móveis e tintas para as paredes. O recomeço foi difícil. "Eu não tinha noção de como ia organizar minha vida de novo. Eu só sabia que eu tinha vida". Ela também custou a conseguir recuperar a rotina de trabalho. Ficou quase dois meses sem vendas.

Cristiane tem medo de que uma nova enchente atinja sua casa. "Eu sei que vai acontecer. A gente mora em uma área de risco, a gente sabe que vai acontecer. Eu espero que não com a proporção de 2024". Caso ocorra novamente, ela pretende se mudar definitivamente. "Não é o que eu quero, mas não quero mais passar por isso", diz.

Moradores aguardam avanço em projeto do Dique

Cristiane, assim como muitos outros moradores, aguardam o dia em que o município terá um dique de proteção. A estrutura é uma promessa antiga. Porém, com a cheia de 2024, o projeto precisou ser atualizado para comportar a altura em que as águas chegaram. A elaboração dos anteprojetos, de responsabilidade do governo do Estado, está em etapa de finalização, com entrega prevista para esse mês. Em seguida, será feito o encaminhamento do processo de contratação em regime integrado, elaboração do projeto executivo e execução da obra. “Nossa prefeita é muito empenhada, e vive cobrando. Mas isso não depende do município, depende do estado. Peço que olhem com carinho para nossa cidade. A gente precisa da cidade, e do jeito que está, se acontecer de novo, o pessoal vai embora. vão fazer o que com a nossa cidade?”, diz Cristiane.

As obras na estrutura, que deverá ter um traçado de 8,6 metros de altura, pode começar apenas em 2027. "A gente estima que, agora, passando essa fase do anteprojeto, vindo as novas fases, respeitando toda a questão de legislação para se cumprir, se tenha até o entre o início e o meio de 2027, as obras se iniciando com relação ao dique", diz Rocha. Da sua estrutura, algumas partes terão construção utilizando saibro, enquanto outras serão com base em concreto. Em locais mais altos, a estrutura poderá variar entre 5 e 7 metros de altura, diz o diretor da Defesa Civil do município, Mário Rocha.

Veja Também