"Sou apaixonado pelo rio. Eu amo o rio. Acho que é uma fonte de riqueza. Mas tenho as lembranças que ficam. Não que a gente culpe. A gente culpa o ser humano. Tudo isso que aconteceu lá atrás poderia ter sido evitado", diz, com uma fala mansa, José Antônio Pereira da Silva, de 72 anos, de frente para o Guaíba, em frente à sua casa na Ilha Grande dos Marinheiros. Dois anos depois de ter passado pela maior cheia que atingiu o bairro Arquipélago, em Porto Alegre, ele ainda lembra daqueles dias com todos os detalhes. O que mais lhe marcou foi o período de reconstrução. "Nós moramos aqui há 30 anos. Minha esposa nasceu aqui. É uma experiência que eu não gostaria de passar nunca mais".
Era madrugada quando ele e sua esposa, Maria Alice Neves Ramos, acordaram no susto com os gritos do genro em frente à casa deles, alertando que a água já ocupava toda a rua e estava invadindo o pátio. Durante todos os anos em que moraram ali, ela chegava no máximo na calçada, mesmo com a residência sendo em frente ao Guaíba. O casal saiu de lá com a água nos joelhos, pegou um barco e se refugiou em um Catamarã, onde o genro trabalha. Ficaram ali por cerca de um mês. "Quando a gente olhava para o lado, puxa vida. Eram animais passando. Aquele desespero. E a gente ali sem ter o que fazer", lembra José, com a voz embargada e os olhos marejados.
Ao retornarem para casa após a água baixar, a lama chegava a centímetros de grossura. "A gente foi reconstruindo aos poucos. Tivemos coragem para que conseguíssemos nos reerguer. Porque o fato em si foi trágico. Mas a reconstrução é uma coisa forte demais. Tem anos e anos de vida", lembra. "O que mais choca é saber quantas vidas foram perdidas, de pessoas que até hoje não foram encontradas ainda", complementa. José precisou reconstruir tudo do zero, inclusive seus cultivos de frutas. Antes, havia em seu pátio árvores de laranja, bergamota e banana, entre outras. "Tinha maracujá de pegar de balde. Umas comprei e replantei de novo". Na parte dos fundos da sua casa, uma parede originalmente branca ainda tem a cor marrom carimbada até o teto. “Perdemos tudo, tudo. Nada ficou. E a gente foi reconstruindo, até chegar no ponto em que estamos hoje”.
Ainda que se dê bem com muitos vizinhos, José evita falar com eles sobre o que passou. "Não converso porque vou mexer em uma ferida que eles têm. A mesma ferida que eu tenho, eles têm. "Por que vou reviver isso? Deixa que eles, com a família deles, consigam assimilar isso com o tempo. Mas tem que ser muito forte". José percebe que muitas pessoas têm saído da região. Assim como outros moradores, ele quer permanecer na sua casa, ainda que saiba dos riscos de uma nova enchente. "Somente os corajosos ficaram. Mas é uma questão de paixão, de gostar e de se adaptar. Eu morei em várias casas. Mas aqui me sinto em um berço, abençoado".
José chegou a se inscrever no programa Compra Assistida, mas desistiu de seguir com o cadastro, porque, para o casal, não seria a mesma coisa. "Fomos olhar e não gostamos. Era uma coisa que não era para nós. Não poderíamos ter nossas plantas. Não poderíamos ajudar nossos netos. Desde que eles nasceram, estão com nós".
José também percebe mudanças na paisagem que tem o privilégio de ver diariamente. É possível ver a formação de pequenas ilhas de areia. A solução para que possa permanecer ali e se proteja de uma eventual cheia foi construir um anexo acima da sua casa, com 5,5 metros de altura, como uma palafita. Hoje, o espaço conta com um quarto, com cama de casal, um aparelho de televisão e roupeiros. Enquanto o espaço não precisa ser ocupado, seus netos passam a manhã ali assistindo desenho animado todos os dias. "Se uma eventualidade de água subir, a gente vem para cá". No dia a dia, apesar de sempre lembrar da tragédia, busca sua fortaleza na família e no que construiu no seu berço. “Vivo minha vida da maneira em que posso me habituar, respeitando a natureza”, conclui.
“Não sei como suportei tudo que passei”
A enchente foi difícil para todos que perderam familiares, casas, móveis e lembranças. Mas Dulce dos Santos, de 40 anos, moradora da Ilha das Flores, precisou carregar juntamente o luto de ter perdido, menos de três meses antes da catástrofe, sua filha de dois anos, Teodora, nome que carrega tatuado no seu braço direito.
Na época, ela trabalhava em um bar e lancheria, de onde tirava sustento para si e para seus outros dois filhos, de um e 12 anos. Ela escutou os alertas da Defesa Civil, mas não acreditava que a água iria subir. "A gente nunca imaginou que iria chegar naquele ponto", lembra. Em pouco tempo, a água já estava nos joelhos, mas o atendimento à clientela continuava, pois ainda havia luz. Quando percebeu a gravidade da situação, Dulce entregou seus filhos para sua amiga levar a Alvorada. Junto com seu namorado, foi em casa buscar roupas, mas a água já havia tomado conta de tudo.
Retornaram para o bar e dormiram em uma mesa de sinuca. Na manhã seguinte, acordaram com a água na beira dessa mesa. Os avisos eram de que a entrada e saída da ilha ficaria bloqueada. Às pressas, foram para Alvorada, onde estavam as crianças. Depois de uns dias, dirigiram-se para Viamão, na casa do irmão de Dulce. Puderam retornar à ilha apenas em junho, mas ainda havia água. Montaram uma barraca e, por alguns dias, ficaram na beira da estrada. Quando finalmente retornou à casa, soube que os móveis chegaram a atingir o teto, já que foi aberto um buraco com as batidas.
"Estava tudo virado dentro de casa, tudo quebrado. O ventilador, colchão, era tudo podre. A gente não tinha o que salvar dentro de casa", lembra. Quando as águas baixaram, a limpeza também foi desafiadora. "Não tinha água. Eu puxava água do banhado com balde, e o meu filho tentava escovar as paredes, tirar o barro, tirar tudo que tinha".
Dulce chegou a alugar um apartamento em Eldorado do Sul, mas retornou para a Ilha das Flores, para um imóvel emprestado por um amigo, próximo à casa atingida pela enchente. Sair da região, atualmente, não é uma opção viável. “Não teria ninguém próximo para ajudar com as crianças, porque minha neném tem 3 anos e o outro tem 12, não dá para deixar sozinhos”, justifica. “Aqui eu consigo trabalhar. A vida é um pouco melhor.” A antiga moradia ainda não foi demolida, mas está abandonada, com mato em volta. “Tiraram janela, porta, pia, tudo que deu para tirar”, observa.
“A enchente para mim só me trouxe coisa ruim. É um baque atrás do outro, não tem como. Não sei nem como, até hoje, suportei tudo que passei durante a enchente, entre um luto. Tive que pegar e guardar minha dor em um canto e lidar com aquele outro problema. A gente tinha que andar com ela para lá e para cá, dormindo dentro de um carro, em uma barraca, e ao mesmo tempo lembrando da minha filha.”
Com as previsões de novo El Niño neste ano, Dulce também pensa em estratégias para salvar o pouco que ainda tem. “Se a gente ficar por aqui, vamos ter que começar a pegar umas madeiras e montar algo alto, mais alto do que as casas, para pelo menos passar pela enchente, o que estão dizendo que vai vir”, planeja.
2 anos depois da enchente de maio de 2024, no bairro Arquipélago, em Porto Alegre
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