Os dados oficiais apontam que a Covid-19 já tirou a vida de cerca de sete milhões de pessoas ao redor do mundo. As estimativas são de que os números sejam muito mais altos, superando a casa dos 20 milhões, visto que muitos países não notificaram com precisão os óbitos. Veio a vacina e com ela uma curva decrescente e acentuada das mortes. Infelizmente, contudo, o período da pandemia deixou cicatrizes que até hoje se refletem nas mais variadas frentes. No que diz respeito aos casos de grupos de violência extrema no ambiente virtual, suas marcas ainda são sentidas.
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A tendência de um mundo cada vez mais dependente da internet já existia bem antes de Wuhan tornar-se conhecida em todo o planeta. No entanto, a adoção por um longo período do distanciamento social catalisou um processo que talvez demorasse mais tempo para se estabelecer. De uma hora para outra, todas as relações passaram a ser virtuais, das sociais às amorosas, das financeiras às escolares.
Foi nessa nova configuração, com poucas regras efetivas, que se multiplicaram os conteúdos de violência. Um grupo fundado por um adolescente nos Estados Unidos durante aqueles anos se tornou uma rede niilista radical que logo se capilarizou na web, chantageando jovens vulneráveis a cometer atos de automutilação, crueldade animal e até mesmo suicídio. Anos depois, em uma grande operação comandada por agências antiterrorismo, vários de seus líderes foram presos, o que não impede a rede de ainda atuar, com ramificações que chegam até o Brasil.
“O verdadeiro marco divisor e catalisador da radicalização em massa foi a pandemia de Covid. Durante o isolamento, as escolas migraram para o ambiente virtual e os pais, sem alternativas, deixaram seus filhos conectados às telas em tempo integral. Ainda não mensuramos os danos que esse confinamento severo causou na estrutura neurológica e emocional de uma geração inteira de adolescentes”, afirma Leonardo Rossi, titular da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital (Proeve).
Os relatos de quem trabalha diariamente com os jovens comprovam o apontamento do promotor. A permanência quase ininterrupta na virtualidade por quase dois anos expôs muitos adolescentes a uma série de conteúdos inadequados, entre os quais os de violência extrema. Some-se a isso um ambiente de pressão e incertezas, e não é difícil imaginar como ficou o aspecto mental dos jovens.
“Na questão da saúde mental pós-pandemia, vimos situações de autolesão. Orientamos os professores para que ficassem atentos a estudantes que usavam casacos mesmo no calor ou que cobriam o corpo com o cabelo para esconder as marcas. Conseguíamos conversar com eles com cuidado, pois há um sofrimento psíquico e um uso da autolesão para lidar com a angústia”, afirma Andrea Backes, orientadora educacional dos anos iniciais no Colégio Marista Rosário. Hoje, lembra a colega Sabrina Garbelotto, ciente de uma nova realidade, a escola passou a trabalhar em rede com profissionais da saúde, como médicos, psiquiatras, neurologistas e psicólogos, oferecendo apoio aos estudantes quando necessário.