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O corpo perfeito e o mercado clandestino dos peptídeos

Influenciadores divulgam substâncias sem aprovação da Anvisa, prometem emagrecimento e ganho muscular acelerados e direcionam seguidores para esquemas ilegais de vendas

Foto : shutterstock / divulgação / cp

“Recuperação absurda”, “Ganhos secos”, “Queima gordura de verdade”, “Tecnologia de ponta para hipertrofia”. As promessas aparecem diariamente nas redes sociais, quase sempre acompanhadas de corpos musculosos, vídeos de treino e relatos de transformações físicas impressionantes. Em meio ao universo fitness digital, uma nova categoria de substâncias passou a ocupar, nos últimos meses, espaço crescente nas publicações de influenciadores: os peptídeos.

Vendidos como atalhos modernos para ganho de massa muscular, emagrecimento, recuperação física e rejuvenescimento, entre outros benefícios alegados, esses compostos se espalham pelo Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas por meio de uma engrenagem que combina marketing agressivo, aparente respaldo científico e um mercado clandestino internacional que opera à margem da lei, colocando à disposição dos consumidores uma infinidade de produtos sem eficácia comprovada e sem qualquer regulamentação.

A investigação do Correio do Povo encontrou influenciadores — alguns deles profissionais da área da saúde — divulgando compostos sem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), promovendo efeitos sem comprovação científica robusta e direcionando seguidores para esquemas ilegais de comercialização, inclusive com fornecedores sediados no Paraguai.

Na maioria dos casos, os produtos sequer possuem autorização para comercialização no Brasil. Alguns são classificados como experimentais. Outros, como o BPC-157, aparecem em alertas internacionais relacionados ao uso irregular e à ausência de estudos conclusivos sobre segurança em seres humanos. Mesmo assim, a divulgação dessas substâncias ocorre livremente nas redes sociais.

O QUE SÃO OS PEPTÍDEOS

Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, estruturas que funcionam como blocos formadores das proteínas. Alguns possuem aplicações médicas legítimas e são utilizados pela indústria farmacêutica em tratamentos específicos. O crescimento recente do interesse por essas moléculas tem relação direta com o sucesso de medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade, como a semaglutida e a tirzepatida, presentes nas famosas canetas emagrecedoras. Os resultados expressivos alcançados por esses fármacos acabaram criando a percepção equivocada de que todos os peptídeos seriam eficazes e seguros.

Especialistas alertam que essa associação é enganosa. Embora medicamentos como a insulina, o hormônio do crescimento e a semaglutida e a tirzepatida tenham sido submetidos a extensos estudos clínicos e rigorosos processos regulatórios, grande parte dos compostos atualmente promovidos no mercado fitness, inclusive emagrecedores, não possui evidências científicas sólidas em humanos.

O principal problema está na nova geração de substâncias que passou a circular nos segmentos da estética e da musculação sem a devida aprovação sanitária. Nomes como BPC-157, TB-500, Ipamorelin, CJC-1295, GHRP-6 e HGH Frag são frequentemente apresentados como soluções quase milagrosas para acelerar a recuperação muscular, estimular a produção hormonal, aumentar a massa magra, reduzir gordura corporal, melhorar o desempenho físico e retardar o envelhecimento.

Grande parte dessas alegações, porém, carece de comprovação científica consistente. Em muitos casos, os estudos disponíveis foram realizados apenas em animais ou em pesquisas preliminares, sem validação clínica robusta em seres humanos. Mesmo assim, nas redes sociais, os compostos são apresentados como protocolos modernos e revolucionários.

“Os peptídeos prometem efeitos anabólicos, emagrecimento e melhora da pele com supostamente menos efeitos colaterais. São divulgados como compostos inócuos, que não gerariam riscos à saúde, o que atrai esse público. Mas ainda não temos grandes estudos para avaliar efeitos e riscos na maioria dos casos”, observa a médica Sohaila Younes, que atua na área da medicina do esporte.

“O risco é alto. Se a pessoa utiliza algo sem diagnóstico que justifique o tratamento, já existe um perigo embutido. Algumas substâncias aumentam a frequência cardíaca, o que pode provocar complicações em quem possui problemas cardíacos ou desencadear alterações metabólicas. Além disso, muitas pessoas combinam diferentes compostos, o que potencializa riscos ainda desconhecidos.”

‘BIOHACKING’ E MARKETING DA TRANSFORMAÇÃO

Os influenciadores raramente utilizam expressões como “substância experimental” ou “produto sem registro”. O discurso costuma ser embalado por termos como “alta performance”, “biohacking”, “otimização hormonal”, “longevidade” e “medicina regenerativa”. Em vídeos publicados diariamente, criadores de conteúdo exibem rotinas de treino, corpos definidos e supostos resultados atribuídos aos peptídeos. Muitos recorrem a linguagem técnica, consultórios e terminologia científica para transmitir credibilidade.

Há também profissionais da saúde que fazem menções positivas aos compostos, mesmo sem aprovação regulatória. Em alguns casos, os influenciadores publicam diretamente links de compra, cupons de desconto, contatos de WhatsApp e canais privados de venda que disponibilizam, além dos peptídeos, uma infinidade de outros produtos, como anabolizantes, metilfenidato e até tadalafila, todos comercializados sem controle ou exigência de receita médica.

Em um vídeo postado no YouTube, um influenciador com mais de 245 mil inscritos em seu canal divulga cinco tipos de peptídeos, nenhum aprovado pela Anvisa, que ele próprio utilizou em um intervalo de tempo de apenas alguns meses para emagrecer, ganhar massa muscular, ter fome e perder fome (sim, ambos) e evitar dores musculares. Na descrição do vídeo, o contato de um WhatsApp em que é possível comprar as substâncias. “Tudo que contar aqui é apenas o meu relato e nada além disso”, lembrou o influenciador.

Os conteúdos costumam apresentar substâncias injetáveis vendidas em frascos de pequena quantidade, mas associadas a promessas de efeitos rápidos e expressivos. O fato de serem injetáveis acrescenta outros fatores de risco, como os perigos da autoaplicação. Além disso, o conteúdo presente nos frascos pode não corresponder exatamente ao que é anunciado.

“Por serem injetáveis, essas substâncias possuem maior potencial de ação. Há risco de contaminação por endotoxinas e de concentrações diferentes das informadas. Temos observado uma invasão de produtos contrabandeados do Paraguai, vendidos por pessoas sem habilitação técnica, como instrutores de academia, o que nos preocupa muito”, afirma Sohaila.

A fiscalização enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade com que esse mercado se movimenta nas redes sociais | Foto: shutterstock

OS CASOS DO BPC-157 E DA RETATRUTIDA

Um dos compostos mais promovidos nesse mercado é o BPC-157, cuja comercialização no Brasil não é autorizada pela Anvisa, mas que pode ser encontrado com facilidade no mercado clandestino. A substância é apresentada como uma espécie de “molécula milagrosa”, capaz de acelerar a cicatrização de lesões, recuperar tendões, músculos e articulações e reduzir significativamente o tempo de recuperação física. Especialistas, porém, afirmam que as evidências disponíveis estão longe de sustentar as promessas. Não existem ensaios clínicos robustos em humanos capazes de comprovar, de forma conclusiva, os benefícios atribuídos ao produto.

Apesar de não possuir autorização para comercialização no Brasil, o Correio do Povo encontrou pelo menos sete versões de BPC-157 sendo oferecidas no mercado clandestino por meio de sites e vendedores que atuam via WhatsApp.

A retatrutida, que promete emagrecimento rápido, está em processo mais avançado, mas também está longe de ser aprovada para uso no Brasil. Apontada como uma das apostas mais promissoras da indústria farmacêutica para o tratamento da obesidade, a substância vem despertando expectativa na comunidade médica. Resultados de pesquisas publicados na revista científica Lancet indicam que a substância pode promover uma redução de peso comparável à obtida por meio da cirurgia bariátrica, abrindo uma nova perspectiva terapêutica para pacientes com excesso de peso.

A retatrutida pertence à mesma classe de medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”. Apesar dos resultados considerados animadores, o medicamento ainda não recebeu aprovação das autoridades regulatórias e depende da conclusão dos estudos clínicos e dos trâmites necessários para sua liberação comercial.

No Paraguai, uma empresa anunciou, em março deste ano, a produção de canetas contendo a substância durante um evento que contou com a participação de influenciadores brasileiros. O CP achou facilmente nas redes sociais formas de adquirir, ilegalmente, a retatrutida. Em um fornecedor, a substância, vendida em frascos de 10 miligramas, custa R$ 650, mais R$ 100 do frete. “A venda é liberada para o Brasil?”, perguntou o CP. “Venda liberada para pesquisa”, mentiu o vendedor.

Em seguida, a reportagem questionou se a compra poderia resultar em algum “problema legal”. “Nãooo. De forma alguma. Estamos enviando via transportadora também para que não haja apreensão ou algo do tipo”, respondeu. O pagamento deveria ser feito a vista, por pix ou em “dólar crypto”, um tipo de criptomoeda.

A ROTA CLANDESTINA

A investigação do Correio do Povo acessou links divulgados por influenciadores nas redes sociais. Os contatos levavam a números de WhatsApp do Paraguai ou de São Paulo. Em poucos minutos de conversa, vendedores passaram a oferecer uma ampla lista de substâncias para entrega em qualquer região do Brasil, mediante pagamento via Pix para contas pertencentes a empresas regularmente constituídas no país.

Simulando interesse na compra, a reportagem solicitou o BPC-157 a um vendedor que atendia em um número de WhatsApp divulgado por um influenciador no YouTube. “Opa, tenho sim”, respondeu o comerciante, referindo-se à substância cuja comercialização não é autorizada pela Anvisa no Brasil. O interlocutor informou o preço de R$ 750 pelo produto. Ao valor eram acrescentados R$ 150 de frete, R$ 30 por uma ampola de água para diluição e R$ 95 referentes a um seguro de transporte. Questionado sobre a necessidade desse seguro, o vendedor respondeu: “Em caso de roubo ou extravio da mercadoria, reenviamos por nossa parte sem custo”. Em seguida, acrescentou: “Todos os produtos são importados dos EUA. Temos logística para todo o Brasil”.

Além dos peptídeos, os catálogos enviados à reportagem por WhatsApp incluíam testosterona, trembolona, hormônio do crescimento, diversos esteroides anabolizantes, medicamentos sem registro sanitário e outros produtos de uso controlado, incluindo alguns tipos de psicoestimulantes do sistema nervoso central. Em nenhum momento foi solicitada receita médica.

Os vendedores prometiam envio “discreto”, rapidez na entrega e facilidade de pagamento. A comercialização ocorre de forma informal, sem controle sanitário, rastreabilidade ou garantias sobre a composição dos produtos. Especialistas alertam que esse tipo de mercado amplia significativamente os riscos de contaminação, dosagens incorretas, adulteração e falsificação.

Além dos contatos via WhatsApp, a reportagem encontrou anúncios de BPC-157 em sites de compras e também em um site específico sobre o assunto, que oferece centenas de tipos de peptídeos com entrega para todo o território nacional. No portal, os produtos são apresentados com promessas relacionadas ao desempenho físico, à regeneração tecidual e à estética corporal. A reportagem tentou contato com os responsáveis pela página, mas não obteve retorno.

Apesar de comercializar substâncias sem autorização sanitária e de procedência incerta, o site afirma que “nasceu do propósito de oferecer acesso a produtos de alta qualidade, informação clara e um atendimento sério, responsável e transparente”. Também declara que “respeita a legislação vigente e as boas práticas do setor”, embora anuncie produtos sem aprovação da Anvisa.

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OS RISCOS À SAÚDE

Endocrinologistas e médicos do esporte alertam que o uso indiscriminado dessas substâncias pode provocar consequências graves. Entre os possíveis efeitos adversos estão alterações hormonais, infertilidade, lesões hepáticas, problemas cardiovasculares, distúrbios metabólicos, crescimento celular descontrolado e transtornos psiquiátricos. As preocupações, no entanto, vão além desses efeitos já conhecidos.

No caso do BPC-157, uma das propriedades frequentemente destacadas por seus defensores é o estímulo à angiogênese — processo responsável pela formação de novos vasos sanguíneos. Embora esse mecanismo possa, em tese, favorecer a cicatrização, especialistas alertam que ele também pode estimular o crescimento de tumores já existentes, ampliando o fornecimento de sangue e nutrientes para células cancerígenas.

Também existem preocupações relacionadas a possíveis respostas imunológicas indesejadas e a alterações em mecanismos biológicos ainda pouco compreendidos pela ciência. Além disso, como muitos desses produtos ingressam clandestinamente no país, não há qualquer garantia sobre sua origem, armazenamento, pureza ou composição. Na prática, o consumidor muitas vezes não sabe exatamente o que está aplicando no próprio corpo.

A vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio Grande do Sul, Maria Rosário Bica, alerta para os riscos da compra de medicamentos pela internet. Segundo ela, o ambiente mais seguro para adquirir esses produtos continua sendo a farmácia, onde há a supervisão de um farmacêutico responsável.

“As pessoas estão comprando pela Internet sem saber interpretar os rótulos e sem conhecer a procedência ou o conteúdo dos frascos. A Internet acabou se tornando uma espécie de ‘terra de ninguém’ e a Anvisa, infelizmente, não tem condições de fiscalizar integralmente todo o mercado nacional. Vender produtos desse tipo, sem origem comprovada, é crime”, afirmou.

Maria Rosário também ressalta a importância de os consumidores verificarem se os produtos possuem registro na Anvisa e não se deixarem levar pela promessa de resultados rápidos. “As pessoas precisam conferir a regularidade desses produtos antes da compra. Ignorar os riscos é colocar em perigo o patrimônio mais valioso que temos: a própria vida”, destacou a dirigente do órgão de classe dos farmacêuticos do Estado.

O MITO DAS PATENTES

Um dos argumentos mais utilizados por vendedores e influenciadores é que determinados peptídeos não chegaram ao mercado farmacêutico porque seriam compostos “naturais” e, portanto, impossíveis de patentear. Especialistas classificam essa explicação como enganosa.

A indústria farmacêutica desenvolve regularmente medicamentos a partir de moléculas encontradas na natureza, modificando-as por meio de engenharia molecular para torná-las mais estáveis, eficazes e comercialmente viáveis.

O próprio sucesso dos medicamentos derivados do hormônio GLP-1, amplamente utilizados no tratamento da obesidade, demonstra essa realidade. O hormônio natural permanece ativo por poucos minutos no organismo, mas foi modificado para dar origem a medicamentos capazes de atuar por dias ou até semanas. O fato de compostos como o BPC-157 não terem avançado para aprovação regulatória pode indicar justamente a ausência de resultados suficientemente promissores para justificar os elevados investimentos exigidos no desenvolvimento farmacêutico.

O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO

A legislação sanitária brasileira estabelece regras rigorosas para a comercialização e a publicidade de medicamentos. Nenhum produto pode ser industrializado ou vendido sem registro prévio nos órgãos competentes. As normas também proíbem propaganda enganosa ou a atribuição de efeitos terapêuticos sem comprovação científica.

Médicos ouvidos pela reportagem afirmam que a divulgação indiscriminada de substâncias sem aprovação sanitária pode configurar infrações administrativas e, dependendo das circunstâncias, crimes contra a saúde pública. Também existe a possibilidade de enquadramento por publicidade enganosa, prevista no Código de Defesa do Consumidor.

Nos casos de importação irregular, a conduta pode ser caracterizada como contrabando. O Código Penal brasileiro prevê penas severas para falsificação, adulteração ou comercialização irregular de produtos terapêuticos e medicinais, com punições que podem chegar a 15 anos de prisão. A venda de produtos proibidos também pode ser caracterizada como tráfico de drogas.

O Correio do Povo entrou em contato com a Anvisa solicitando uma manifestação sobre o assunto. A assessoria de imprensa, em retorno, enviou uma nota: “Os produtos que se apresentam como ‘peptídeos’ denominados GHK-CU, BPC-157, TB500, CJC-1295 e ipamorelina, que prometem melhoras estéticas, não se encontram registrados perante a Anvisa. Da mesma forma, não foram localizados registros de medicamentos contendo estes princípios ativos. Portanto, não há informações sobre a segurança de uso desses supostos produtos”. Da mesma forma, a agência reforça que medicamentos são produtos que “necessitam passar por estudos detalhados, inclusive clínicos, que demonstrem sua segurança de uso e eficácia para ser aprovados”.

A nota também informa que, para ser manipulada, qualquer substância precisa ter passado por análise de eficácia e segurança. Além disso, a manipulação só pode ocorrer “de forma individualizada, mediante receita médica, por farmácias de manipulação que estejam devidamente regularizadas na vigilância sanitária local”.

A Anvisa destaca também que produtos que se apresentam como manipulados, mas não passaram por análise de segurança e eficácia pela autoridade sanitária ou estejam sendo vendidos em larga escala, “são irregulares, podendo ser originários de produção clandestina”. A agência lembra ainda que a comercialização de produtos terapêuticos sem regularização na Anvisa é considerada crime pelo Código Penal.

Muitos vendedores comercializam esses produtos chamando-os de suplementos alimentares. No entanto, a Anvisa explica que suplementos alimentares são “produtos para consumo via oral (em formas como comprimido, cápsula, pastilha, pó, barra), destinados a suplementar a alimentação de pessoas saudáveis com nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos. Eles também podem conter aditivos e ingredientes de uso tradicional em alimentos, adicionados ao produto para dar sabor, cor ou aroma, entre outras funções”. Já medicamentos são produtos farmacêuticos, tecnicamente obtidos ou elaborados, “com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico”.

INFLUÊNCIA SEM FISCALIZAÇÃO

Embora a legislação exista, a fiscalização enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade com que esse mercado se movimenta nas redes sociais. Perfis são criados e apagados rapidamente. As negociações migram para grupos privados, WhatsApp e Telegram.

Muitos influenciadores evitam mencionar diretamente termos como “venda” ou “compra”, recorrendo a códigos, links indiretos e linguagem ambígua. Também é comum o uso de expressões como “produto para pesquisa”, “uso experimental” ou research chemical, em uma tentativa de conferir aparência de legalidade a substâncias comercializadas de forma informal.

Enquanto isso, o mercado continua crescendo, impulsionado pela busca por resultados rápidos. O Correio do Povo analisou dezenas de publicações no Instagram, YouTube e TikTok. Em alguns casos, além de promoverem os supostos benefícios dos compostos, os conteúdos ensinam como realizar aplicações na região abdominal ou nos glúteos utilizando agulhas e seringas. As publicações também exibem imagens de “antes e depois”, associando as transformações físicas ao uso das substâncias. Em perfis administrados por profissionais da saúde, os resultados são frequentemente atribuídos a pacientes ou clientes.

“É preciso ter cuidado com as promessas falsas. Muitos influenciadores não dizem toda a verdade sobre o que utilizam para manter aqueles corpos que aparecem na tela do celular. O tratamento deve ser individualizado: o que funciona para uma pessoa não serve para outra. Substâncias que mexem com o metabolismo devem ser prescritas apenas por médicos, que estão aptos a lidar com possíveis efeitos colaterais”, afirma a médica Sohaila Younes.

A ESTÉTICA ACIMA DA SEGURANÇA

A explosão dos peptídeos revela uma transformação profunda no mercado fitness digital. O antigo discurso centrado em treino, alimentação e disciplina passou a incorporar substâncias cada vez mais sofisticadas — e potencialmente mais perigosas. Nas redes sociais, esses compostos são apresentados como ferramentas modernas de otimização corporal, supostamente respaldadas pela ciência de ponta.

Especialistas, porém, afirmam que a realidade é muito diferente. Sem estudos clínicos robustos, sem aprovação regulatória e adquiridos em mercados paralelos — frequentemente abastecidos por contrabando —, muitos desses produtos transformam consumidores em participantes involuntários de um experimento sem garantias sobre eficácia ou consequências futuras.

Enquanto influenciadores acumulam seguidores e receitas exibindo resultados impressionantes, cresce uma cadeia de ilegalidades que atravessa fronteiras, dribla a fiscalização e expõe milhares de pessoas a riscos pouco conhecidos. A promessa do corpo perfeito pode custar mais do que o valor desembolsado pelo produto. Em alguns casos, o preço pode ser a própria saúde.