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RS entra no radar das terras raras, mas caminho até a extração ainda é longo, dizem especialistas

Estudo na Região Central do Estado identificou potencial para minerais estratégicos

O Brasil concentra a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China
O Brasil concentra a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China Foto : Laboratório de Pesquisas Químicas e Farmacêuticas /Divulgação/UFSM

O Rio Grande do Sul começa a aparecer no mapa brasileiro das terras raras, um grupo de 17 elementos químicos considerados essenciais para a transição energética, a indústria de alta tecnologia e a geopolítica global.

Pesquisas recentes em Caçapava do Sul, na Região Central, indicam potencial para esses minerais estratégicos e colocam o Estado no radar científico e econômico, embora especialistas ressaltem que o caminho entre a descoberta e uma eventual exploração mineral pode levar décadas.

O Brasil concentra a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China, ainda assim, o país não domina as etapas industriais de produção, refino e separação, o que limita sua inserção nas fases de maior valor da cadeia.

  • China: maior reserva mundial – Cerca de 49% do total global, com aproximadamente 44 milhões de toneladas
  • Brasil: segunda maior reserva mundial de terras raras – Cerca de 23% do total global, com aproximadamente 21 milhões de toneladas

O avanço das pesquisas ocorre em um cenário global de forte valorização das terras raras. Esses elementos estão no centro de tensões geopolíticas, com os Estados Unidos demonstrando interesse nos recursos da China e do Brasil, especialmente em meio a disputas comerciais e questões tarifárias.

Potencial do Brasil

Segundo Lucy Chemale, pesquisadora em geociências do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e coordenadora do projeto Avaliação do Potencial de Terras Raras, o interesse por essas pesquisas no país se intensificou especialmente a partir de 2023, após um novo embargo da China à exportação desses recursos.

Ela lembra que a China atua de forma dominante nesse mercado desde a década de 1930 e que um primeiro grande alerta ocorreu em 2010, quando um embargo chinês, após atrito diplomático com o Japão, afetou o abastecimento global.

Esse tipo de restrição funciona como um gatilho para que outros países acelerem a busca por fontes alternativas. No caso do Brasil, o efeito foi imediato. “Nós passamos de em torno de 500 empresas pesquisando, com cerca de 500 a 600 áreas requeridas, para mais de 2.500 áreas requeridas hoje, em 2025”, afirma.

No Brasil, as maiores reservas de terras raras estão em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Bahia, com o Rio Grande do Sul aparecendo recentemente entre as regiões de interesse.

Pesquisa em andamento no RS

No Rio Grande do Sul, o principal e mais recente destaque é a pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Universidade Federal do Pampa (Unipampa), que identificou rochas com altos teores de Elementos de Terras Raras (ETRs) em Caçapava do Sul, na Região Central.

O estudo indica que as maiores concentrações estão associadas aos carbonatitos — rochas ígneas raras, presentes em menos de 1% da superfície terrestre, tipicamente associadas a depósitos de elementos de terras raras, além de minerais como nióbio e tântalo. O estudo também inclui análises de solos, águas superficiais e da vegetação da região.

Segundo a equipe, as maiores concentrações foram registradas nas rochas carbonáticas, mas também há presença significativa nos solos.

“Os resultados mostram valores até nove vezes maiores do que em outras regiões do Brasil, 12 vezes superiores aos de solos de Cuba e seis vezes maiores do que os registrados na China”, afirma o pesquisador Lucas Mironuk Frescura, do Laboratório de Pesquisas Químicas e Farmacêuticas da UFSM.

O projeto, coordenado pelo professor Marcelo Barcellos da Rosa, segue até dezembro de 2026 e deve aprofundar a caracterização geológica e geoquímica da área. Até lá, a equipe pretende entregar um diagnóstico integrado que abrange as regiões de Caçapava do Sul, Lavras do Sul e Bagé.

Entre os principais resultados esperados está o mapeamento detalhado de pelo menos cinco áreas com potencial para recursos minerais associados aos elementos de terras raras.

A UFSM realiza a coleta e a análise de amostras de solo, vegetação nativa e águas superficiais | Foto: Laboratório de Pesquisas Químicas e Farmacêuticas /Divulgação/UFSM

Da descoberta científica à exploração mineral

Para Mironuk, os resultados representam avanços importantes no conhecimento científico sobre terras raras no Estado, mas o caminho até uma eventual exploração econômica ainda é longo. Embora a presença de carbonatitos com teores elevados de elementos seja confirmada, ainda faltam informações essenciais como o tamanho, a profundidade e o volume total dos depósitos.

“O que estamos fazendo agora é estabelecer as bases científicas iniciais”, explica. “A partir disso, inicia-se um caminho ainda mais longo, que envolve o interesse formal de empresas mineradoras, a realização de estudos de viabilidade técnica e econômica, campanhas de sondagem, avaliações detalhadas de impacto ambiental e, eventualmente, processos de licenciamento. No Brasil, todo esse percurso pode levar facilmente de 15 a 20 anos.”

Processo para extração esbarra na falta de tecnologia

Os gargalos para o avanço das terras raras no Brasil vão além da geologia. Embora esses elementos não sejam escassos, eles raramente aparecem em concentrações elevadas, o que dificulta a formação de depósitos economicamente viáveis

Por terem propriedades químicas semelhantes, tendem a se dispersar em diferentes minerais e a se concentrar apenas em ambientes geológicos menos comuns, como os carbonatitos. Isso torna a extração mais complexa e dependente de alta tecnologia.

Chemale destaca que o principal obstáculo no Brasil está no processamento e no refino, áreas em que o país ainda não domina plenamente a tecnologia.

“Diferente do minério de ferro, o refino de terras raras é extremamente complexo, lento e pode envolver centenas de etapas químicas”, afirma.

Segundo ela, os baixos teores dos elementos de interesse exigem uso intensivo de ácidos, o que eleva custos e amplia os desafios técnicos.

Outro ponto crítico é o impacto ambiental. A exploração gera grande volume de resíduos e, em muitos casos, os depósitos estão associados a elementos radioativos, como o tório, presente na monazita, o que exige cuidados adicionais no descarte e no manejo.

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Estratégia nacional busca estruturar a cadeia produtiva

Para ampliar o desenvolvimento tecnológico e manter o recurso no país, a pesquisadora defende a criação de políticas públicas específicas e o fortalecimento das instituições nacionais de pesquisa.

Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia (MME) iniciou a elaboração da Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR), com o objetivo de estruturar a cadeia produtiva desses minerais no Brasil. A iniciativa prevê diretrizes para sustentabilidade, governança e monitoramento, alinhando o setor às políticas industrial, de inovação e de transição energética.

Chemale também chama atenção para empresas que realizam a pesquisa mineral no país, mas instalam as plantas de processamento e refino no exterior. Para ela, é fundamental que o poder público atue para garantir que essas etapas sejam realizadas em solo brasileiro, assegurando a retenção do capital tecnológico e a agregação de valor à produção nacional.

Tradição mineral no RS e o desafio de conciliar desenvolvimento e sustentabilidade

A mineração ocupa papel central na história de desenvolvimento do Rio Grande do Sul desde o século XIX, impulsionando a economia e a formação de municípios. Os pilares históricos do setor incluem o carvão mineral, com 90% das reservas nacionais concentradas no Estado, principalmente na região da BR-290 e em Bagé e Candiota, o cobre, nas Minas do Camaquã, e o ouro, especialmente em Lavras do Sul, onde ainda há pesquisas em andamento.

Chemale lembra que, apesar desse legado, o Estado se tornou nos últimos anos um dos mais resistentes à mineração. Para ela, a atividade não deve ser vista como “maldição”, mas como parte da história econômica que precisa ser gerida com critérios técnicos, ambientais e sociais.

Ela defende integrar mineração, inovação e sustentabilidade, ressaltando o papel da fiscalização de órgãos ambientais, como a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

Dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec) mostram que, em 2024, a mineração gaúcha representou 2,4% do PIB brasileiro, com faturamento de R$ 270 bilhões e geração de 200 mil empregos diretos e 800 mil indiretos. Internamente, destacam-se calcário, areia, brita, argila e carvão; no mercado externo, rochas ornamentais e gemas, com exportações de R$ 93 bilhões, principalmente para Estados Unidos, Alemanha, Japão, Itália e Bélgica.