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Vila Nova: região de imigrantes foi além do pêssego e se tornou um dos bairros mais populosos de Porto Alegre

Bairro originalmente nomeado como colônia Vila Nova d’Itália mantém tradição de produção agrícola até hoje

Região é classificada como uma “cidade rural-urbana”, reconhecendo a coexistência da produção rural, uso residencial e patrimônio natural relevante
Região é classificada como uma “cidade rural-urbana”, reconhecendo a coexistência da produção rural, uso residencial e patrimônio natural relevante Foto : CP Memória

A Vila Nova ainda é lembrada por muitos porto-alegrenses pela Festa do Pêssego, pelos morros verdes e pelo contraste entre a cidade e o campo. A história do bairro vai muito além dessas referências e cresceu nas últimas décadas em um comunidade diversificada e certamente mais urbana.

Formada a partir da chegada de imigrantes italianos no final do século 19, a região é marcada pelo trabalho rural e pela organização comunitária. Localizado no centro-sul da capital gaúcha, o bairro hoje concentra cerca de 32.217 habitantes, figurando entre os dez mais populosos de Porto Alegre, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Terra onde cresceu o astro do futebol Ronaldinho Gaúcho, a Vila Nova carrega uma história de colonização e tradição agrícola registrada desde 1894, quando foi batizada como Colônia Vila Nova d'Itália por seus primeiros residentes.

Essa identidade rural, no entanto, sempre esteve em diálogo com o avanço urbano da cidade. Segundo a arquiteta e urbanista Virginia Müzell, que integrou a equipe de elaboração do Plano Diretor de Porto Alegre em 1999, a Vila Nova se localiza em uma área de transição, no limite entre a zona definitivamente rural do município e regiões que, à época, tinham sua ocupação pensada mais sob a lógica da preservação ambiental do que do adensamento populacional.

De acordo com o Atlas Ambiental de Porto Alegre, a região é classificada como uma “cidade rural-urbana”, conceito que reconhece territórios onde coexistem produção rural, uso residencial e patrimônio natural relevante, reforçando a ideia de um espaço híbrido.

Até a entrada em vigência do Plano Diretor, as áreas classificadas como zona rural representavam cerca de 30% do território de Porto Alegre, o que evidencia o peso histórico da ruralidade. Após a revisão de 1999, parte significativa dessas áreas foi incorporada ao perímetro urbano. Hoje, segundo dados da prefeitura, apenas 8,28% do território municipal permanece oficialmente destinado a atividades como agricultura, pecuária e turismo rural, concentradas principalmente na região Sul.

Müzell também aponta que a Vila Nova pode ser compreendida dentro da lógica de “cidade jardim”, conceito que engloba áreas com grande predominância de casas térreas, jardins e baixa verticalização. Essa característica ajuda a explicar o perfil que a região assumiu ao longo do tempo, hoje marcada pela presença de grandes condomínios residenciais, inseridos em meio a áreas verdes.

Para além dessa leitura urbanística, a Vila Nova também pode ser entendida pelo caminho histórico. Ao retomar à Colônia Vila Nova d’Itália, é possível enxergar como a ocupação por famílias imigrantes ajudou a desenhar o território antes da expansão residencial.

Agricultor na região da Vila Nova, em 1987 | Foto: CP Memória

Os nomes que moldaram a Vila Nova d’Itália

Entre os primeiros moradores da região, a família Vicente Monteggia ocupa lugar de destaque nos registros históricos e na memória do bairro. Estabelecido na Vila Nova ainda na década de 1890, Monteggia é frequentemente citado como um dos principais articuladores do desenvolvimento inicial da colônia.

Além de sua expressiva produção agrícola, foi responsável pela construção de um moinho para a produção de farinha de milho, em 1898, equipamento fundamental para atender às demandas da comunidade nascente.

Foi também ele quem construiu o casarão que daria origem ao que, atualmente, é conhecido como Rancho Tabacaray, espaço que, ao longo do tempo, acumulou múltiplas funções: moinho, escola rural, igreja e residência. O local se tornou um ponto de referência para os moradores e, hoje preservado, segue como espaço de eventos, mantendo vivas as marcas da ocupação italiana na região.

Em descrições históricas, o entorno da colônia aparece como um lugar que “conferia aspecto agradabilíssimo”, tornando-se destino de passeios campestres para moradores de Porto Alegre.

Casa de Vicente Monteggia, em 1972 | Foto: CP Memória

Além dos Monteggia, outras famílias italianas tiveram papel essencial na consolidação da vila, como os Salomoni, Fogazzi, Moresco, Bertoni, Verdana e Bertaco. As terras adquiridas pelos imigrantes foram transformadas em chácaras produtivas, com o cultivo de videiras, pessegueiros, pereiras, ameixeiras e hortaliças. Os parreirais eram utilizados tanto para o consumo local quanto para a produção de vinho destinado ao mercado gaúcho e a centros maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Mesmo diante das dificuldades ocasionadas pela mata virgem, a comunidade se organizou e deu início à formação de uma infraestrutura básica que permitiu a fixação dos moradores.

Ainda no final do século 19, surgiram iniciativas fundamentais para o desenvolvimento local, como a criação de uma escola em 1897, que mais tarde se tornaria a Escola Estadual Alberto Torres, e a construção, em 1906, da capela que daria origem à Paróquia São José da Vila Nova. Em 1911, a fundação de uma cooperativa agrícola e de uma caixa de crédito rural ampliou a produção e fortaleceu os pequenos agricultores da região.

Paróquia São José, no bairro Vila Nova, nos anos 1980 | Foto: CP Memória

No início da ocupação, os principais momentos de lazer estavam ligados às reuniões familiares e às celebrações religiosas promovidas pela Igreja. Com o crescimento da produção agrícola, surgiram eventos voltados à exposição e comercialização dos produtos.

A primeira Festa da Uva ocorreu em 1913, em Teresópolis, reunindo agricultores das duas regiões. Já em 1918, a segunda edição foi realizada em formato de exposição agrícola, atraindo não apenas a população local, mas também autoridades, incluindo o embaixador real da Itália. A partir de então, a Vila Nova passou a realizar a festa anualmente, durante o período de colheita, na Praça Dr. João Becker.

Segundo o livro Vila Nova, de Ana Maria Monteggia Mallmann, da coleção Memória dos Bairros, a partir da década de 1950 o crescimento populacional de Porto Alegre e o loteamento progressivo das chácaras alteraram o perfil da região. Oficialmente transformada em bairro residencial pela Lei nº 2.022, de 7 de dezembro de 1959, a Vila Nova perdeu gradualmente suas características coloniais.

Com a redução das áreas plantadas, a produção agrícola diminuiu e, aos poucos, a Festa da Uva deu lugar à Festa do Pêssego, que por décadas permaneceu como uma das principais referências culturais do bairro, mas já não integra a agenda cultural da cidade.

Depois da pandemia, em 2023, houve interesse em retomar a realização da tradicional festa, em articulação com o secretário municipal de Governança Local e Coordenação Política, Cássio Trogildo. No entanto, como explica Giordana Piber, produtora rural e integrante da diretoria do Sindicato Rural de Porto Alegre, a retomada deixou de ser viável e também “interessante”, principalmente porque o número de produtores já não sustentava o porte do evento.

“Se cogitou refazê-la em 2023 e retomar essa tradição, só que hoje são poucos produtores, em torno de cinco”, explica.

Como já publicado pelo Correio do Povo, Giordana afirma que a produção de pêssegos na capital, que ela lembra já ter sido reconhecida como “capital dos pêssegos”, encolheu com o tempo. Segundo ela, fatores climáticos desfavoráveis contribuíram para a mudança no perfil das lavouras, levando parte dos produtores a optar pela bergamota.

Giordana Piber, Primeira-Secretária do Sindicato Rural de Porto Alegre, no espaço da Feira do Produtor Rural, no Largo Glênio Peres | Foto: Marília Jung / SMGOV / PMPA / CP

Nos últimos anos, a tradição deu lugar à Feira do Pêssego ou Feira do Produtor Rural, que se estabelece no Largo Glênio Peres, junto ao Mercado Público, oferecendo o melhor da colheita das frutas produzidas na cidade. O evento é promovido pelo Sindicato Rural e pela prefeitura municipal e acontece de novembro até o final de fevereiro, com bancas de pêssego, ameixas e flores.

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Giordana explica que, diante do número reduzido de agricultores, o grupo se fortalece no coletivo, comercializando também produções de vizinhos e colegas. Mesmo com a perda de força produtiva e a concorrência das produções da Serra Gaúcha, algumas famílias mantêm vínculos com a agricultura na região sul, como os Bertaco, cuja presença histórica também se reflete na nomenclatura urbana. Catarina Bertaco, imigrante que teve papel ativo na formação da comunidade, dá nome a uma rua da região desde 2023, em reconhecimento à sua atuação na construção da Igreja São José, do cemitério do bairro e na doação de terras onde hoje está localizado o Hospital Vila Nova.

Julieta B. Bertaco, moradora do bairro em 1976 | Foto: CP Memória

Fundado em 1965, o Hospital Vila Nova — atualmente denominado Associação Hospitalar Vila Nova — integra a rede pública de saúde e realiza atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A instituição representa um marco importante no reconhecimento da relevância do bairro para a região sul da cidade.

Ainda que tenha tido seu auge com a produção agrícola, a Vila Nova hoje abriga grandes condomínios residenciais que convivem com a natureza preservada. Esse perfil híbrido se evidencia especialmente nos morros da região, abertos ao público e que revelam as riquezas naturais do bairro de forma privilegiada.

O Parque Gabriel Knijnik é parada essencial para quem deseja conhecer esse patrimônio ambiental. Com mais de 11 hectares, o complexo foi doado ao município em 1997 pelo engenheiro que lhe dá nome, com a condição expressa em testamento de que fosse transformado em parque público.

Localizado no topo do Morro da Vila Nova, o espaço abriga rica diversidade de fauna e flora, com pomar de árvores frutíferas e extensa área de preservação. Lá do local, é possível observar o Lago Guaíba, além dos morros do Osso e Teresópolis, evidenciando o encontro entre o rural e o urbano.

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