A transferência forçada de famílias da região central de Porto Alegre para uma área distante e sem infraestrutura, nos anos 1960, deu origem ao povoamento do que, décadas depois, se tornaria a Restinga, atualmente o bairro mais populoso da Capital e do Rio Grande do Sul.
Distante cerca de 20 km do Centro, o bairro da região Sul tem 62.448 habitantes, segundo o Censo de 2022, e é frequentemente descrito como “quase uma cidade”, graças à ampla oferta de serviços e à forte mobilização social e cultural.
A estrutura atual contrasta com a forma como tudo começou. A comunidade surgiu quando moradores da antiga Ilhota, território símbolo da cultura negra, situado entre a Azenha e a Cidade Baixa, foram removidos pelo recém-criado Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) como parte de um amplo projeto de reordenamento urbano.
As famílias foram despejadas, com seus pertences carregados em caminhões e barracos desmontados para dar lugar a obras de aterro e à ampliação do sistema viário da região. Documentos da época, citados pelo Correio do Povo, mostram que a região era tratada como um espaço “artificialmente sem ocupação à espera da valorização imobiliária”.
Os moradores, a maioria campesinos que haviam chegado à capital décadas antes em busca de emprego e melhores condições de vida, foram encaminhados para uma área de perfil essencialmente rural, marcada por estradas de chão, áreas alagadiças, vegetação arbustiva e o Arroio do Salso cruzando a paisagem. Foi nesse ambiente que nasceu o nome “Restinga”, associado a pequenos arroios com margens cobertas de mato e sangas.
Sem água canalizada, energia elétrica, calçamento ou oferta de trabalho, a remoção para a nova área impôs grandes desafios e deixou marcas profundas na formação da comunidade que ali se estabelecia. A população atravessou dificuldades, se organizou e cresceu rapidamente.
Da remoção forçada ao símbolo de resistência
A primeira área de fixação das famílias passou a ser conhecida como Restinga Velha, localizada no lado direito da Avenida João Antônio Silveira. No lado esquerdo da via formou-se a Restinga Nova. A divisão segue preservada pelos moradores.
O bairro foi oficialmente reconhecido em 1990, e em 2016 teve seus limites redefinidos, com parte de seu território desmembrada para a criação do bairro Pitinga.
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Ao longo do tempo, a expansão urbana, marcada pelo surgimento de ocupações populares e loteamentos erguidos pelo poder público, transformou o território, tornando-o uma referência de luta e resistência comunitária.
Hoje, a Restinga concentra um comércio diversificado, escolas, unidades de saúde e equipamentos públicos essenciais, como o Hospital da Restinga e Extremo-Sul (inaugurado em 2014), o Fórum Regional e um camelódromo.
O bairro também abriga um parque industrial e mantém forte presença cultural, destacada pela Escola de Samba Estado Maior da Restinga, fundada em 1977 e já consolidada no Carnaval de Porto Alegre. Mesmo assim, persistem desafios, especialmente em mobilidade urbana, saneamento e habitação.
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