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Solar Paraíso: conheça o casarão colonial que renasceu como espaço de arte em Porto Alegre

Erguido no século XIX, prédio é um dos últimos exemplares do estilo luso-brasileiro na Capital e hoje abriga projetos culturais

Solar Paraíso segue o modelo dos sobrados urbanos portugueses
Solar Paraíso segue o modelo dos sobrados urbanos portugueses Foto : Ricardo Giusti

Na Travessa Paraíso, no bairro Santa Tereza, um sobrado de telhas antigas e janelas em arco abatido resiste ao tempo. Erguido nos anos 1820, o Solar Paraíso é um dos últimos testemunhos da arquitetura luso-brasileira em Porto Alegre. Ao longo de mais de dois séculos, o casarão viveu períodos de prestígio, abandono e, mais recentemente, recuperação.

Hoje, o espaço abriga a sede da Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, transformando o antigo símbolo do poder colonial em um centro de criação e arte contemporânea.

Ícone do patrimônio da cidade

A arquitetura luso-brasileira, estilo surgido no Brasil colonial, combina a tradição portuguesa com as adaptações exigidas pelos materiais locais. Caracterizada por beirais salientes, janelas em arco abatido e cunhais destacados nas quinas, essa linguagem arquitetônica expressava o prestígio e a posição social de seus proprietários.

No caso do Solar Paraíso, o projeto segue o modelo dos sobrados urbanos portugueses, concebidos para abrigar famílias nobres e refletir sua importância na paisagem da cidade.

A arquiteta da Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural (Epahc) da Secretaria Municipal de Cultura, Juliana Wagner, destaca que o prédio é um dos exemplares mais raros do período colonial em Porto Alegre, por preservar as características do estilo português “puro”, anterior ao ecletismo, tendência que passou a misturar elementos de diferentes períodos a partir da segunda metade do século XIX.

“Esse prédio é uma joia da cidade. Não temos muitos remanescentes desse colonial português puro em Porto Alegre. Há o Museu Joaquim Felizardo, com um estilo semelhante, mas ainda posterior, a obra é de 1845, então é mais recente”, explica Juliana.

O historiador da equipe de patrimônio do município, João de Los Santos, que pesquisa a memória do local, reforça que, embora Porto Alegre tenha sido colonizada por portugueses, sua arquitetura revela outras influências.

“Se for avaliar, você vê que a arquitetura é germânica ou com influência francesa. Restou muito pouco da influência portuguesa, o que torna os poucos exemplares ainda mais raros”, afirma.

“A explicação é que tivemos muitos arquitetos alemães de renome em Porto Alegre no século XX. Então, acabou predominando essa assinatura. Essa parte da colonização portuguesa ficou um pouco esquecida”, complementa Juliana.

Solar é um dos exemplares mais raros do período colonial em Porto Alegre | Foto: Caroline Souza

De símbolo de poder econômico ao abandono e à restauração

O prédio foi erguido no início do século XIX, possivelmente para a família do militar Onofre Pires da Silveira Canto, um dos líderes da Revolução Farroupilha.

Décadas depois, em 1854, passou às mãos do médico português Dionísio de Oliveira Silveiro, cuja trajetória ficou marcada também pela doação dos terrenos onde foram construídos a Igreja da Conceição e o Hospital da Beneficência Portuguesa.

Escavações arqueológicas realizadas no local encontraram faianças finas (um tipo de cerâmica) e porcelanas importadas, objetos que indicam o luxo e a circulação de produtos estrangeiros após a abertura dos portos brasileiros no início do século XIX.

Durante o Império, o Solar simbolizava o poder econômico da elite portuguesa do Estado, ligada à expansão mercantil e à estrutura agrária. Com a chegada da República, no entanto, o cenário urbano e social se transformou.

O crescimento da cidade cercou o antigo Morro do Cristal, atual Morro Santa Tereza, e o que antes era uma chácara isolada passou a ser impactado pelo avanço dos bairros Menino Deus, Santa Tereza e Cristal. Em 1911, a propriedade foi vendida, marcando o início de um novo ciclo.

Na década de 1930, o Solar foi dividido e adaptado para abrigar várias famílias. As reformas abriram passagens internas e dividiram o terreno, alterando parte da estrutura original e refletindo as mudanças impostas pelo crescimento urbano.

Entre as décadas de 1970 e 1990, o casarão passou por um período de abandono, o pátio virou depósito de lixo, abrigo para pessoas em situação de rua e alvo de depredação.

A virada começou em 1994, quando a prefeitura tomou posse do imóvel e o reconheceu como sítio arqueológico e patrimônio cultural de Porto Alegre. Após um processo de restauração cuidadoso, o Solar foi reinaugurado em 2000 e passou a sediar a sede do Porto Alegre em Cena, o que transformou o espaço em um centro de criação e produção artística.

Parede de alvenaria mista, feita com barro, pedras e madeira, evidenciando técnicas construtivas artesanais do período | Foto: Caroline Souza

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Atividades culturais dão novo sentido ao Solar

Atualmente, o espaço oferece uma programação diversificada, com aulas destinadas aos alunos da Companhia de Dança, além de oficinas e eventos abertos ao público. Para a arquiteta da equipe de patrimônio do município, a presença do grupo ao longo do último ano devolveu vitalidade ao prédio histórico, ao dar um novo sentido ao imóvel e contribuir para sua preservação.

“É muito enriquecedor poder frequentar a casa, assistir a um espetáculo, ver as pessoas conhecendo o espaço. Isso é o que valida o patrimônio. Sabemos que dificilmente ele voltaria a ser uma residência, por isso o importante é que esse novo uso respeite e dê sentido ao lugar”, afirma Juliana.

Integrante da equipe do Centro Municipal de Dança e da direção da Companhia, Maria Lúcia Machado destaca que as características do imóvel, como o silêncio e os ambientes amplos, tornam o local ideal para as atividades artísticas.

“As pessoas que chegam aqui ficam encantadas com a conservação de um prédio tão antigo. Tem sido uma experiência muito positiva, e a gente procura cuidar ao máximo para preservar o espaço”, comenta.

Fachada do Solar Paraíso em registro de 2002, após processo de restauração | Foto: CP Memória

📍Solar Paraíso

  • Endereço: Travessa Paraíso, 71 – Bairro Santa Tereza, Porto Alegre
  • Data de construção: 1820
  • Estilo: arquitetura luso-brasileira, sobrado urbano português
  • Datas importantes: em 1994, foi reconhecido como sítio arqueológico pela Prefeitura; e nos anos 2000, foi reinaugurado após processo de restauração.