Se as paredes da Casa Rosada, no Centro Histórico de Porto Alegre, pudessem narrar o que testemunharam ao longo dos séculos, contariam a formação política do Rio Grande do Sul desde seus primeiros passos.
Vizinha do Palácio Piratini, a construção mais antiga da Capital, concluída em 1790, foi sede da Assembleia Legislativa e palco de decisões que marcaram a trajetória do Estado. Hoje, o casarão abriga o Memorial do Legislativo, onde o vasto acervo e a memória política do parlamento gaúcho são preservados e abertos à visitação pública.
O prédio, construído originalmente no estilo colonial com um único pavimento, passou por uma reforma mais ampla em 1860, quando recebeu um segundo pavimento e elementos do neoclássico. Nas paredes do térreo é possível observar as pedras originais da fundação, que sustentam a estrutura desde o século XVIII.
Tombado como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) desde 1981, o edifício conserva, segundo o órgão, parte dos alicerces como os únicos remanescentes conhecidos dessa época.
Inicialmente, o edifício abrigou a Provedoria da Real Fazenda, responsável pela arrecadação de impostos da capitania. Ao longo do tempo, também foi sede da Casa da Junta, da Cadeia e do Conselho-Geral da Província.
Em 1835, os parlamentares iniciaram a ocupação com a instalação da Assembleia Legislativa Provincial. Em 1935, após a promulgação da segunda Constituição, o local passou a ser a sede da Assembleia Legislativa do Estado, até a conclusão do novo espaço, o atual Palácio Farroupilha, em 1967.
Palco de disputas e personagens históricos
Neste endereço passaram nomes como Duque de Caxias, Bento Gonçalves, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, figuras que marcaram momentos decisivos da história gaúcha. Foi ali que, em 20 de abril de 1835, ocorreu a sessão de instalação da Assembleia, evento que antecedeu a Revolução Farroupilha e marcou o início da atividade parlamentar.
Nos anos seguintes, o Parlamento funcionou de modo intermitente em meio ao conflito, permaneceu fechado durante a Guerra do Paraguai (1865–1870) e voltou a ter suas atividades interrompidas no Estado Novo (1937–1947).
O prédio também recebeu a sessão permanente da Legalidade, em 1961, quando deputados mantiveram debates por 12 dias seguidos para assegurar a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. As atas desse período, hoje digitalizadas, fazem parte do acervo.
Um passeio pelo tempo
Entre 1980 e 2004, o Casarão da Duque foi sede de diferentes órgãos administrativos do Executivo estadual. Posteriormente, foi devolvido à Assembleia e passou por uma reforma, que incluiu a escavação do subsolo para salvaguardar o acervo. O Memorial foi inaugurado em 2010.
A exposição permanente “Tempo e Reflexão”, montada para marcar os 190 anos do Parlamento Gaúcho, é hoje o destaque do Memorial. Ela reúne documentos originais, vídeos, objetos históricos e uma linha do tempo interativa.
A coordenadora das visitas mediadas, Luciana Bonfim, conduz o público pela mostra e por outros espaços, com um roteiro que aborda a história, mas também estimula os visitantes a fazerem um paralelo com a realidade atual, sobre conquistas políticas e democracia.
“Tem objetos, vídeos, áudios, para trazer para os visitantes essa reflexão sobre a passagem do tempo, e integrando isso com participação popular, políticas públicas, o que mudou de lá para cá em relação a demandas”, explica.
Luciana também destaca a sensação de caminhar por um cenário que testemunhou o início da vida parlamentar: “A partir de 1835, quando passou a funcionar a Assembleia Provincial, os 28 primeiros deputados trabalharam aqui. É interessante imaginar Bento Gonçalves entrando aqui não como líder farroupilha, como normalmente ele é lembrado, mas também como um desses primeiros deputados”.
Entre os itens de destaque da exposição, está a carteira de filiação do ex-presidente da República Getúlio Vargas ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de 1945.
No segundo pavimento, o público pode ter a sensação de estar no antigo plenário da Assembleia Legislativa, onde ficavam os parlamentares, e nos mezaninos de onde se assistia aos debates.
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Memória viva e acesso ao público
A superintendente-geral da Assembleia Legislativa, Mari Perusso, destaca que abrir o prédio à visitação foi parte essencial do processo de revalorização do local nos últimos anos.
“Trabalhamos com a concepção de que é preciso que as pessoas tenham acesso ao espaço, que esses documentos tão raros e importantes não fiquem guardados. O que é histórico se preserva sendo mostrado”, afirma.
Neste ano, o espaço também promoveu uma Mostra Política de Cinema, exibida entre agosto e dezembro, com 14 filmes que ajudam a contar a história do Rio Grande do Sul, como “O Tempo e o Vento”, “Netto Perde Sua Alma” e “Legalidade”.
Segundo Mari, o espaço cumpre uma função educativa essencial para a comunidade. Em 2025, o Memorial já recebeu mais de 6 mil visitantes, a maioria crianças e jovens de escolas públicas e privadas.
“Só se constrói o futuro conhecendo a sua história. Se consegue trazer um pouco do que esses acontecimentos representaram. É um espaço de educação”.
Pesquisa, preservação e futuro
O Memorial trabalha para consolidar e ampliar o acesso ao seu acervo. O objetivo é catalogar todo o material, concluir o inventário e avançar na digitalização, para criar um museu online capaz de alcançar novos públicos e facilitar pesquisas.
Segundo a coordenação, o espaço recebe um número crescente de pesquisadores, que encontram ali um dos conjuntos documentais mais ricos sobre política e sociedade no Rio Grande do Sul.
O conjunto de materiais conta com arquivo fotográfico com mais de 5 mil imagens de personagens e fatos políticos históricos, bem como imagens das transformações do espaço urbano que compõe as imediações, como o Solar dos Câmara e o Palácio Farroupilha. Há ainda atas manuscritas de diferentes períodos políticos, constituições, jornais e outras publicações.
Há uma previsão de restauro do patrimônio nos próximos anos.
⏳Confira a linha do tempo da Casa Rosada
- 1772 – Fundação de Porto Alegre.
- 1790 – Conclusão do prédio.
- 1835 – Instalação da Assembleia Provincial, com 28 membros.
- 1835-1845 – Funcionamento intermitente durante a Revolução Farroupilha.
- 1860 – Construção do segundo pavimento e características neoclássicas.
- 1865-1870 – Fechado durante a Guerra do Paraguai.
- 1891 – Instalação da Constituinte e promulgação da 1ª Constituição do RS.
- 1935 – Promulgação da 2ª Constituição do RS. Passa a denominar-se Assembleia Legislativa do Estado do RS.
- 1937-1947 – Fechado durante o Estado Novo.
- 1947 – Instalação da 3° Assembleia Constituinte gaúcha.
- 1967 – Transferência da Assembleia para o Palácio Farroupilha.
- 1981 – Tombamento como patrimônio cultural pelo IPHAE.
- 2010 – Inauguração do Memorial do Legislativo.
- 2023 – Sessões do plenário realizadas temporariamente no casarão durante reforma do Plenário 20 de Setembro.