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João Derly: 20 anos do primeiro brasileiro campeão mundial de judô

Em 2005, gaúcho derrotou o japonês Masato Uchishiba, então campeão olímpico, e entrou para a história da modalidade

Celebração após a vitória contra o atlata japones Masa Uchishiba no Caíro.
Celebração após a vitória contra o atlata japones Masa Uchishiba no Caíro. Foto : Pascal Pavani / AFP / CP Memória

42 segundos. Um intervalo curto de tempo para a maioria das pessoas. Uma eternidade em se tratando de esporte. Ou o tempo sob medida para que o sonho de um judoca gaúcho, cria da Zona Norte de Porto Alegre, se tornasse realidade. Em setembro de 2005, foi preciso um intervalo de 42 segundos para que João Derly derrubasse o japonês Masato Uchishiba, então campeão olímpico e considerado o melhor nos tatames à época, e se consagrasse como o primeiro brasileiro a conquistar o título do Campeonato Mundial de Judô.

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Esta foi a primeira grande conquista de Derly, que não satisfeito repetiu o feito dois anos depois ao conquistar o bicampeonato mundial, desta vez no Rio de Janeiro, junto com a classificação para os Jogos Olímpicos de Pequim-2008. Inclusive, as medalhas e troféus empilhados ao longo da carreira provam que não foi à toa que o gaúcho desbancou Uchishiba, assegurou a medalha de ouro e de quebra foi eleito melhor judoca do mundo ao fim do torneio em Cairo.

Mas tudo começou 17 anos antes. Em 1988, Derly iniciou no judô ainda na infância para melhorar os sintomas de asma que tinha na época. No mesmo ano, conheceu a Europa para disputar o primeiro campeonato e voltou de lá com uma medalha de ouro no peito. Doze anos depois, tornou-se campeão mundial júnior e logo em seguida teve sua primeira participação no Mundial Sênior garantindo o sétimo lugar - feito até então inédito para um gaúcho. Em 2003, foi cortado da equipe da seleção brasileira e obrigado a subir de categoria, ficando de fora dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004. A partir daí, focou totalmente na preparação para o Mundial de Cairo.

“Eu estava me sentindo muito bem, treinando pesado com meus colegas na Sogipa, inclusive com atletas bem mais pesados do que eu. Naquele ano, tive a oportunidade de ir para um estágio na França onde pude treinar com o campeão olímpico japonês da minha categoria (Uchishiba) e eu o derrubei várias vezes, o que é difícil no alto rendimento, e isso me deu muita confiança também”, relembra Derly.

Os treinamentos estrangeiros deram segurança suficiente para que o judoca gaúcho conseguisse aplicar um ippon justamente no atleta que era conhecido como ‘Mister Ippon’, por vencer todos seus adversários por imobilização nos Jogos Olímpicos um ano antes.

Obstinado desde os primeiros golpes

Mas foi nos tatames da Sogipa que Derly aprendeu a lidar com a dificuldade das competições, estabelecendo metas e estratégias mentais. “Eu lutava mentalmente com meus adversários todos os dias”, diz o bicampeão mundial.

Quem convivia com ele diariamente que o diga. Desde cedo o judoca se mostrou ser um atleta obstinado, principalmente por sempre projetar e acreditar no que queria para o futuro. E com o Campeonato Mundial em 2005 não foi diferente. Fabrício Falkowski, assessor de imprensa da Sogipa, lembra da rotina intensa de Derly e de como já era considerado um atleta fora da curva logo nos primeiros golpes nos tatames do clube. Além do talento, havia um controle emocional em qualquer situação de pressão.

“Lembro de uma vez que encontrei ele após um treino na pista de atletismo da Sogipa e perguntei qual era o objetivo dele no ano, aquela conversa fiada que de vez em quando a gente tem com os atletas. E ele me disse que ia ser campeão mundial naquele ano”, conta Fabrício. “Só que isso aconteceu ainda antes da seletiva brasileira para definir a seleção que iria ao Mundial. Ou seja, ele estava muito distante ainda, mas já estava dizendo que ia ser campeão mundial. Isso demonstra que ele era um obstinado mesmo, que confiava nisso, embora fosse uma coisa muito distante”, relembra.

Apesar da segurança e do bom momento do gaúcho, quase ninguém acreditava na possibilidade dele retornar de Cairo com a medalha de ouro no peito. Nem mesmo quem acompanhou de perto a evolução de João Derly nos tatames e a preparação intensa para a disputa naquele ano. Antônio Carlos Pereira, o Kiko, técnico de judô da Sogipa, também relembra a surpresa do título mundial e das dificuldades enfrentadas para chegar até a grande final do torneio.

“A expectativa era de um bom resultado, uma boa campanha. Eu acreditava que ele ia ter um bom desempenho, mas não acreditava que seria campeão. Foi uma surpresa para todo mundo, inclusive para mim. O Uchishiba já era uma grande estrela do judô, e geralmente essas grandes estrelas acreditam que são invencíveis. Felizmente não foi o que aconteceu”, afirma Kiko.

A invencibilidade de Uchishiba contada por Kiko parece não ter sido sentida por Derly na época. Enquanto os japoneses vibravam às escondidas com a vitória antes mesmo da luta final começar, a equipe do brasileiro já se conformava com o segundo lugar. Alheio à festa prematura dos rivais, o gaúcho levou o aquecimento da mesma maneira de sempre: calmo, concentrado em ser o melhor e com muita vontade de vencer.

“Senti uma paz enorme na hora e pensei: ‘Calma gente, fiquem tranquilos, quem tem que ficar nervoso é ele. Eu sou o João lá de Porto Alegre que ninguém sabe quem é, um guri asmático do Morro Santana que ninguém acredita. Já ele é o campeão olímpico, é do berço do judô, então quem tem que estar nervoso é ele por estar com a pressão, eu estou tranquilo’”, relembra Derly.