Passada a adrenalina da conquista em Cairo, o mais novo brasileiro campeão mundial ainda não imaginava como sua vida viraria de cabeça para baixo assim que colocasse os pés no Brasil. Isso porque, a façanha do judoca em 2005 não abriu portas somente para sua trajetória como atleta, mas também mudou totalmente o curso do judô gaúcho, principalmente na Sogipa, clube que o criou como atleta e onde Derly passou boa parte da vida.
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Apesar dos treinamentos e de toda a preparação para o Mundial terem sido intensos, o judô gaúcho ainda era muito amador na época. A estrutura era muito diferente da de hoje e não contava com uma equipe multidisciplinar, por exemplo.
Kiko, inclusive, atuava em diferentes áreas além dos treinamentos nos tatames, justamente para tentar suprir as necessidades dos atletas. “Eu era preparador físico, nutricionista, psicólogo, fazia todas as mãos dessas variáveis que o esporte tem. Isso, obviamente, era uma dificuldade na época. Até mesmo a vitória do João foi uma grande superação dele, uma grande superação da Sogipa, que não tinha patrocínio e não tinha tudo que tem hoje”, afirma o treinador.
O aporte financeiro foi o primeiro grande passo para uma transformação de peso dentro da Sogipa. E foi justamente essa a surpresa que João Derly recebeu quando desembarcou no Rio de Janeiro com o título de campeão mundial, em meio à chuva de entrevistas e a grande repercussão que a conquista inédita havia tido no país.
“Quando desembarquei, o Flávio Canto, judoca e um grande amigo meu, me ligou falando que a gente precisava se encontrar porque alguém queria me patrocinar, e como eu já tinha ouvido isso milhares de vezes não dei muita atenção. Mas ele disse que era o mesmo patrocinador dele, que tinha feito judô na Sogipa também, então eu falei para o Kiko que ficou enlouquecido e tivemos a oportunidade de conversar com a empresa”, relembra Derly.
O ex-judoca patrocinador em questão era Alberto Blanco, diretor de marketing da Oi e primeiro empresário a fechar um contrato de peso com João e a Sogipa. Depois desse vieram muitos outros, também essenciais para o desenvolvimento da modalidade no clube. A proximidade de Blanco com a Sogipa começou também nos tatames, com uma carreira que foi interrompida por uma lesão grave quando ele ainda tinha 18 anos. No entanto, apesar da saída, nunca deixou de acompanhar o esporte, e não foi diferente com o título de João Derly em 2005.
“Dentro da minha estratégia de comunicação, existia o patrocínio de atletas olímpicos, porque sempre acreditei muito no esporte olímpico. Então quando vi ele na televisão, sendo campeão mundial, pensei ‘nossa, eu patrocino um monte de gente aqui no Rio, preciso ajudar de alguma forma já que eu tinha condições’. Eu queria poder contribuir um pouco com o esporte e com o clube que eu tinha uma história”, conta Alberto Blanco.
Desenvolvimento e profissionalização da modalidade
Assim, foi possível fazer uma melhora considerável na estrutura do clube, além de começar a profissionalização da modalidade, com uma remuneração para os atletas. O patrocínio iniciou uma transformação geral em termos de salário, de equipe multidisciplinar, intercâmbios e viagens, que passaram a ser atrativos para que judocas de outro Estado quisessem integrar a equipe sogipana. Para Fabrício Falkowski, isso só foi possível graças à repercussão do título de Derly
“Ele foi meio que uma semente, porque até o título dele, o esporte no Rio Grande do Sul inteiro era amador, os atletas não tinham salário, alguns até tinham uma ajuda de custo do clube mais para pagar alimentação e transporte, mas sem salário. E depois do título mundial dele, essa conquista deu muita visibilidade para o clube, para as modalidades olímpicas. A partir daí, o clube passou a encarar o esporte de uma forma bem mais profissional e como ele começou a dar retorno, as empresas se interessavam, a mídia divulgava e a roda girava”, explica o assessor.
Como era de se esperar, a repercussão da conquista de Derly fez com que ele passasse a receber diversos convites de outros clubes do país, com mais estrutura e tradição nos esportes olímpicos. E com isso, veio também o receio da equipe da Sogipa do judoca deixar Porto Alegre em busca de novos desafios e, consequentemente, o patrocínio se perder. Mas João ficou e junto dele a evolução constante do clube no judô e em outras modalidades olímpicas.
“Antes do título, eu já havia sido convidado por grandes clubes do país, mas não saí. Depois de me tornar campeão mundial, treinando aqui, comendo nossa comida e fazendo nosso treino, pensei ‘não vai ser isso que vai me mudar’. Isso nos levou ao segundo título mundial e à primeira medalha olímpica por meio do Tiago Camilo. Esse patrocínio dura até hoje e eu sempre defendi apenas a Sogipa em toda a minha vida”, diz Derly.
Depois disso, o clube passou a crescer a cada ano na modalidade e se estruturou como um dos principais formadores de novos judocas no país. A alta qualidade aliado aos bons resultados que começaram a aparecer possibilitaram a Sogipa a escolher os judocas para integrarem sua equipe de judô. Daniel Pires, judoca e atualmente técnico da Sogipa, conta que com o aporte financeiro foi possível profissionalizar os atletas cada vez mais cedo, algo inédito até então.
“Os outros clubes do Brasil também começaram a investir em atletas que ainda estavam no sub-18, já remunerando mesmo eles estando em idade escolar ainda, porque eles têm uma carga de treino muito próxima a um atleta adulto. Isso tudo começou com a Sogipa, ela foi pioneira nesse trabalho de trazer os atletas e remunerar com um projeto olímpico específico para esse fim”, conta Daniel.
Assim, passaram a surgir nomes como Mayra Aguiar, Felipe Kitadai, Ketleyn Quadros, Francisco Camilo e Daniel Cargnin, que tornaram o judô gaúcho conhecido em nível nacional e internacional. Por isso, Alberto Blanco se orgulha de ter dado o pontapé inicial no investimento financeiro do clube e ter impulsionado o crescimento dos atletas.
“A partir dali eu acho que essa chave mudou. Então hoje você tem vários atletas podendo se dedicar àquilo ali, que é como acontece em qualquer lugar do mundo. Um atleta olímpico tem que ganhar muito dinheiro, a recompensa financeira tem que ser grande porque o sacrifício dele é muito grande, tem que ter muita dedicação. E foi ele que abriu esse caminho. Quando a gente entra lá no dojô da Sogipa o João sempre vai ser o primeiro brasileiro a ser campeão mundial e até hoje nenhum outro foi”, destaca Blanco.