Viver em uma era na qual performance é o centro de tudo é, no mínimo, angustiante. Não à toa, segundo o Instituto de Pesquisas Datafolha, em 2025, 61 milhões de brasileiros sentiram cansaço ou esgotamento mental de forma constante. As mulheres são a maioria (60%) entre pessoas com 16 anos ou mais. Ou seja, vivemos em um século em que, cada vez mais, entregar perfeccionismo em pouco tempo é sinônimo de fadiga. Então, atire a primeira pedra quem, nesse contexto, nunca se frustrou com alguma atividade nova porque não teve feitos imediatos.
Um dos convidados a testar a pista do Skatepark da Orla do Guaíba, o esteiense Bruno Miranda, se arrisca em cima dos shapes há 15 anos. Nas ruas do bairro Santo Inácio, o que era uma diversão se tornou, sem querer, uma prática que lhe ensinou a como desacelerar e coexistir com a frustração.
Aos 25 anos e com menos tempo livre para competir, andar de skate agora é uma válvula de escape. Assim, ele mantém a sensação de liberdade viva sempre que pode sair para sentir o vento no rosto. Para o jovem, as manobras que ele já tentou até aqui refletem a vida: tentar, errar e persistir até dar certo. Para Bruno, o aprendizado de uma manobra difícil leva, em média, uma semana de tentativas incessantes. Para poder girar o skate no ar pela primeira vez, o número de tentativas passou de 100.
"O flip foi bem difícil de aprender. Eu lembro que eu andava com os guris na rua ainda, bem novo. Eu tentava um dia inteiro e não saía, tentava muito no pátio de casa também e ficava enchendo saco, fazendo barulho. Até que eu acertei ele em casa, na persistência. O skate me ensinou que nem sempre o nosso melhor vai ser naquele dia. Apesar da frustração e do 'fracasso', a gente sempre tem uma nova oportunidade. O jeito é trabalhar isso para a próxima vez fazer acontecer".
Antes mesmo da palavra "resiliência” virar figurinha carimbada, ela já existia para o grupo de amigos de Bruno. As tardes na pista da praça do Coração de Maria eram curtas para testar tantas novas manobras. Ali, todos saíam de casa para tentar, justo em um esporte em que cair ou falhar é inevitável. Ainda era preciso ter criatividade de sobra para transformar objetos caseiros em um quarter-pipe, um manual pad ou um pole jam e dar vida às ruas lisas e sem graça.
Desafiando a lógica: quando errar não significa fracassar
Para as gurias do skate, o caminho é o mesmo, mas os obstáculos são diferentes. A atual campeã brasileira Maria Lúcia, do bairro Mato Grande, em Canoas, tenta driblar o estilo de vida frenético dos dias de hoje indo na contramão desse ritmo. Ao herdar a carreira do pai, Nilson Jesus, skatista de 37 anos, a jovem reflete que o esporte a ensina a lidar com a sensação de perder e, ao mesmo tempo, a de valorizar o esforço individual, acima de qualquer pódio.
No universo da lixa e das rodinhas, aprender uma manobra nova exige mais do que técnica: demanda um estado mental de foco absoluto e paciência para lidar com a frustração.
"Quando se está aprendendo a andar de skate, qualquer manobra é difícil, porque exige muito do teu equilíbrio, do teu esforço, do quanto você quer. Porque às vezes, você está tentando, você vê as pessoas mandando bem, mas você não consegue fazer igual. Se você não foca na manobra, se você não vai com a dedicação de acertar a manobra, você pode cair, se machucar, porque é equilíbrio. O skate é contra as leis da física", afirma.
Embora tenha participado de seu primeiro campeonato com apenas sete anos, no Parque Eduardo Gomes, em sua cidade natal, desde lá, Maria encara de frente sua timidez. Com os Jogos Olímpicos de Tóquio (2020-2021) bem na estreia da modalidade, a gaúcha superou o medo e confirmou a certeza de que queria seguir carreira no skateboarding. Desde então, seu pai assumiu o papel de treinador, guiando sua evolução técnica e física.
Apesar do crescimento da modalidade feminina, a jovem reconhece que ainda existem barreiras a serem superadas pelas mulheres dentro da cena. "A gente tem vários desafios, porque o nosso corpo é completamente diferente do homem. A gente tem certas períodos que estamos mal, outros que estamos bem. Têm horas que a gente quer, outras que a gente não quer. Então isso é meio complicado", desabafa.
Mesmo diante dos percalços, há um ano, Maria Lúcia conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos Júnior e garantiu vaga para os a edição de 2027, que vai ocorrer no Peru. Cursando o segundo ano do ensino médio, o foco agora se divide entre terminar os estudos e conquistar a vaga nos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 2028, se mantendo distante da ideia de chegar rápido, mas assim como Bruno, sempre disposta a tentar, errar e persistir até dar certo.
Aqueles que quiserem sentir a emoção de ver as manobras de skate, neste sábado, a partir das 10h, o Museu da Cultura Hip Hop RS, localizado na R. Pq. dos Nativos, 545, na Vila Ipiranga, em Porto Alegre, coloca em cena skatistas das categorias feminina e masculina. Com entrada gratuita, além das eliminatórias e da grande final do campeonato em equipes, o evento inclui também pocket shows, apresentações de breaking e graffiti ao vivo.
Lições do skate
*Com supervisão de Carlos Corrêa