Andreia Gentilini


A revolução silenciosa dos vinhos de inverno

Técnica da dupla poda transforma vitivinicultura nacional e leva rótulos brasileiros ao topo de concursos internacionais, valorizando terroirs inéditos

Andreia Gentilini visita vinhedos da Vinícola Maria Maria de Minas Gerais
Andreia Gentilini visita vinhedos da Vinícola Maria Maria de Minas Gerais Foto : Andreia Gentilini / Arquivo Pessoal / CP

Há pouco mais de duas décadas, imaginar grandes vinhos finos produzidos fora das tradicionais regiões do Sul do Brasil parecia improvável. Hoje, essa realidade não apenas existe como conquista o reconhecimento dos mais exigentes concursos internacionais.

O desempenho histórico do Brasil no Decanter World Wine Awards 2026 confirma essa transformação: entre os destaques da maior premiação já obtida pelo País, os vinhos de colheita de inverno assumiram definitivamente o protagonismo.

Mais do que medalhas, os resultados mostram que uma inovação genuinamente brasileira está redesenhando o mapa da vitivinicultura nacional e revelando novos terroirs capazes de produzir rótulos de padrão internacional.

Essa mudança tem nome e sobrenome. A técnica da dupla poda revolucionou o cultivo da videira ao inverter seu ciclo vegetativo, transferindo a maturação das uvas para o inverno, quando predominam dias secos, grande luminosidade e ampla amplitude térmica. As condições permitem uma maturação muito mais equilibrada, favorecendo concentração aromática, estrutura, acidez e longevidade dos vinhos.

O que nasceu como um projeto de pesquisa conduzida pelo pesquisador Murilo de Albuquerque Regina em Caldas, no Sul de Minas, tornou-se uma das maiores contribuições brasileiras à viticultura mundial e hoje é adotado em diferentes Estados do Sudeste e Centro-Oeste.

Os resultados aparecem na taça e também nas premiações. Entre as medalhas de Ouro conquistadas pelo Brasil no Decanter deste ano, destacaram-se os mineiros Casa Geraldo Colheita de Inverno Reserva Syrah 2024 e Casa Geraldo Cabernet Franc Signature 2023, consolidando a vinícola como uma das principais referências nacionais da técnica. Outro Ouro veio da Vinícola São Patrício, em Goiás, com um Cabernet Franc, demonstrando que a revolução dos vinhos de inverno já extrapola as fronteiras mineiras.

A Syrah permanece como a grande estrela dessa nova viticultura, mas variedades como Cabernet Franc, Sauvignon Blanc, Viognier e, mais recentemente, Marselan e Touriga Nacional, vêm revelando excelente adaptação às condições climáticas dessas regiões.

O impacto vai muito além das medalhas. Assim como aconteceu décadas atrás na Serra Gaúcha, o vinho tornou-se um importante motor de desenvolvimento regional. Vinhedos passaram a atrair visitantes, impulsionando hotéis, restaurantes, cafés e experiências gastronômicas que transformam o enoturismo em uma nova vocação econômica para o Sul de Minas.

Cidades como Andradas, Caldas, Três Corações e São Gonçalo do Sapucaí já integram os roteiros dos apaixonados por vinho que buscam conhecer de perto essa viticultura inovadora. O sucesso dos vinhos de inverno comprova que a ciência, quando aliada ao terroir e à visão de longo prazo dos produtores, é capaz de criar uma nova identidade para o vinho brasileiro — uma identidade que hoje desperta a atenção do mundo e coloca Minas Gerais entre as regiões mais promissoras da vitivinicultura nacional.

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Cinco dicas de vinhos: provei e amei

  1. Casa Geraldo Colheita de Inverno Reserva Syrah 2024 – Casa Geraldo (Andradas, MG): Um dos grandes protagonistas do Decanter World Wine Awards 2026, este Syrah conquistou medalha de Ouro e reafirmou o potencial dos vinhos de inverno brasileiros. Elaborado a partir da técnica da dupla poda, o vinho amadurece em barricas de carvalho, revelando grande profundidade aromática. Destacam-se notas de ameixa madura, frutas negras, pimenta-preta, chocolate amargo e um elegante toque defumado. Em boca é intenso, estruturado, com taninos maduros, acidez equilibrada e longa persistência. Um Syrah de padrão internacional que expressa com precisão o terroir do Sul de Minas e a evolução da vitivinicultura brasileira.
  2. Signature Cabernet Franc 2023 – Casa Geraldo (Andradas, MG): Também premiado com medalha de Ouro em Londres, este Cabernet Franc representa a linha de maior expressão da Casa Geraldo. As uvas são colhidas durante o inverno, alcançando maturação lenta e perfeita, e o vinho passa por estágio em barricas de carvalho francês, preservando a elegância característica da variedade. O perfil aromático reúne cassis, cereja madura, ervas frescas, grafite, tabaco e delicadas especiarias. Em boca apresenta textura refinada, taninos sedosos, excelente acidez e um final longo e complexo, demonstrando o enorme potencial da Cabernet Franc nos terroirs mineiros.
  3. Udu de Coroa Azul Grande Reserva Cabernet Franc 2023 – Vinícola São Patrício (Goiás): Primeiro vinho do Cerrado brasileiro a conquistar medalha de Ouro no Decanter World Wine Awards, este Cabernet Franc simboliza a expansão da vitivinicultura de inverno para além de Minas Gerais. Produzido com rigorosa seleção de uvas e amadurecimento em barricas de carvalho, combina potência e elegância em um conjunto muito equilibrado. Os aromas remetem a frutas negras, cerejas maduras, violetas, ervas secas, especiarias doces e um delicado toque mineral. Em boca mostra taninos finos, ótima estrutura, frescor e grande persistência, comprovando que a técnica da dupla poda também encontrou excelente expressão nos vinhedos do Cerrado.
  4. Amana Una Syrah 2023 – Vinícola Amana (Três Corações, MG): Produzido na Serra da Mantiqueira a partir da técnica da dupla poda, o Amana Una Syrah 2023 traduz a elegância que a variedade alcançou nos vinhedos de inverno mineiros. As uvas são colhidas em plena estação seca, favorecendo uma maturação lenta e completa, seguida de cuidadosa vinificação e estágio em barricas de carvalho para preservar a expressão do terroir. O vinho apresenta aromas de ameixas e amoras maduras, violeta, pimenta-preta, alcaçuz e delicadas notas de chocolate e café. Em boca revela excelente concentração, taninos maduros e polidos, acidez equilibrada e um final longo e refinado. Um rótulo que demonstra a rápida evolução qualitativa da Vinícola Amana e o enorme potencial da Syrah produzida no Sul de Minas.
  5. Eliodora Léger Au Fût Syrah 2024 – Vinícola Bárbara Eliodora (São Gonçalo do Sapucaí, MG): Inspirado na poetisa mineira Bárbara Eliodora, este Syrah de colheita de inverno representa uma interpretação elegante e contemporânea da variedade na Serra da Mantiqueira. O nome Léger Au Fût faz referência ao delicado estágio em barricas de carvalho, utilizado para ampliar a complexidade do vinho sem sobrepor a pureza da fruta. Elaborado exclusivamente com uvas colhidas durante o inverno, revela aromas de frutas negras maduras, ameixa, violeta, pimenta-preta, especiarias e sutis notas tostadas. Em boca apresenta excelente frescor, taninos finos e bem integrados, ótima estrutura e longa persistência, refletindo o equilíbrio proporcionado pela maturação das uvas em clima seco. Um rótulo que confirma o dinamismo da nova geração de vinhos de inverno de Minas Gerais e a crescente qualidade da vitivinicultura da Serra da Mantiqueira.