Andreia Gentilini


Champagne: vinhos, terroir e grandes maisons

Andreia Gentilini percorre a região de Champagne, apresenta maisons e analisa vinhos espumantes icônicos como Dom Pérignon e Ruinart

Degustação de rótulos durante visita técnica à região de Champagne, na França
Degustação de rótulos durante visita técnica à região de Champagne, na França Foto : Arquivo Pessoal / CP

Percorrer a região de Champagne é muito mais do que uma rota de vinícolas — é uma verdadeira imersão na história, na geologia e na cultura do vinho. Na última semana, mergulhei no universo das grandes maisons, desde as mais emblemáticas e globais até a familiar e autêntica Champagne Gardet. Entre vinhedos classificados, quilômetros de caves subterrâneas e séculos de savoir-faire, ficou claro que Champagne não é apenas uma bebida, mas um patrimônio vivo.

Cada casa visitada revelou uma filosofia própria: algumas guiadas pela monumentalidade e pelo prestígio, outras pela precisão artesanal e pelo vínculo íntimo com o terroir. Essa diversidade de estilos foi o fio condutor da experiência, mostrando como um mesmo território pode gerar expressões tão distintas e fascinantes.

Entre os grandes nomes, a experiência na Ruinart foi um dos pontos altos da viagem técnica. Fundada em 1729, é a maison de Champagne mais antiga em atividade, e suas históricas crayères onde maturam os champagnes— hoje Patrimônio Mundial — impressionam tanto quanto seus vinhos. A casa, fortemente centrada no Chardonnay, apresenta uma elegância inconfundível, reforçada por suas icônicas garrafas transparentes.

No conjunto das degustações, o Ruinart Champagne 2016 destacou-se como o melhor custo-benefício da viagem: preciso, profundo e gastronômico, provando que grande Champagne não precisa ser inacessível. No extremo oposto do espectro de estilo, mas igualmente memorável, brilhou o Gardet Millésime 2008, um champagne de Premier Cru que combina complexidade, cremosidade e acidez vibrante — um vinho de contemplação e longevidade.

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A visita a Dom Pérignon, instalada junto às imponentes caves da Moët & Chandon, foi um capítulo à parte. Caminhar pelos 28 km de galerias subterrâneas — as maiores de toda Champagne — é entender a dimensão histórica e técnica desse universo. Criada em 1936 com a primeira safra de 1921, Dom Pérignon trabalha exclusivamente com vinhos vintage provenientes de cerca de 900 hectares de vinhedos Grand Cru, apenas com Pinot Noir e Chardonnay.

A degustação do P2 revelou a essência dessa filosofia: um Champagne de segunda plenitude, marcado por profundidade, tensão mineral e uma complexidade quase arquitetônica, fruto de um prolongado envelhecimento sobre as borras.

Também foram fundamentais para essa imersão casas como Taittinger e Gosset, cada uma com identidade muito própria. Taittinger, fundada em 1932, combina escala — cerca de 6 milhões de garrafas por ano — com controle qualitativo graças aos seus 288 hectares próprios, responsáveis por cerca de 40% de suas necessidades. Seus Champagnes mostram finesse, equilíbrio e longa capacidade de envelhecimento.

Já Gosset, a maison de vinhos mais antiga de Champagne (fundada em 1584 por Pierre Gosset em Aÿ), impressiona por seu estilo puro, de grande frescor e profundidade, em contraste com uma produção relativamente pequena de cerca de 1 milhão de garrafas anuais.

No outro polo, a familiar Gardet, em Chigny-les-Roses, revelou a força do Pinot Noir em Premier Cru, aliando precisão, textura cremosa e um uso inteligente de vinhos de reserva — cerca de 30% da produção anual — para garantir consistência e complexidade.

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Degustações em destaque: Provei & Amei

1️⃣Ruinart Blanc de Blancs: Ícone da maison e expressão máxima do Chardonnay em Champagne. No nariz, revela notas de cítricos confitados, flor branca e um delicado toque de amêndoas frescas. Em boca, impressiona pela textura sedosa e pela bolha extremamente fina, quase cremosa, equilibrada por uma acidez retilínea e vibrante. A mineralidade marcada remete às históricas crayères da casa, trazendo profundidade e tensão. É um Champagne de grande elegância, luminoso, preciso e altamente gastronômico — perfeito para frutos do mar, ostras e peixes delicados, mas também capaz de envelhecer com nobreza.

2️⃣Gosset Grande Réserve Brut: Um Champagne que traduz o estilo clássico e vertical de Gosset: frescor, profundidade e estrutura sem peso. No aroma, aparecem maçã verde, pera, notas de limão siciliano e um sutil toque de brioche. Em boca, tem excelente tensão, acidez viva e textura firme, com final longo e limpo. A ausência de fermentação malolática na casa reforça a pureza do fruto e a precisão do vinho. É um Brut com caráter, equilíbrio e versatilidade à mesa — acompanha desde aperitivos sofisticados até pratos de aves e peixes mais estruturados.

3️⃣Dom Pérignon 2016 Vintage: Um Champagne de arquitetura complexa e monumental. No nariz, camadas de frutas maduras, flor de laranjeira, pão tostado, mel e nuances minerais profundas se desdobram com o tempo no copo. Em boca, é intenso, amplo e perfeitamente integrado, com acidez viva que sustenta sua potência e um final extremamente longo e refinado. A combinação de Pinot Noir e Chardonnay de Grand Cru confere profundidade, estrutura e uma sensação quase tátil de mineralidade. Mais do que um vinho, é uma experiência — feito para ser degustado lentamente, refletido e apreciado em sua evolução.

4️⃣Gardet Brut Réserve Premier Cru: Um Champagne que entrega precisão e autenticidade de terroir. Mostra aromas de maçã verde, cítricos, flor branca e leve toque de amêndoas tostadas. Em boca, é tenso, bem delineado e equilibrado, com bolha fina e textura cremosa, fruto do uso criterioso de vinhos de reserva (cerca de 30% da base anual). A assinatura do Pinot Noir de Premier Cru aparece na estrutura e na persistência, sem perder frescor. É um Champagne extremamente versátil à mesa, excelente com peixes, risotos, queijos de massa mole e aves.

5️⃣Taittinger Brut Réserve: Elegância clássica e harmonia definem este Champagne. No nariz, notas de pêssego branco, flor de acácia, cítricos suaves e um delicado traço de brioche. Em boca, é equilibrado, suave e refinado, com acidez bem calibrada e textura polida. A predominância de Chardonnay na assemblage traz leveza e finesse, enquanto o envelhecimento mínimo de 3 anos adiciona profundidade e complexidade. Um Champagne versátil, sofisticado e confiável — ideal tanto para aperitivos quanto para refeições mais completas.