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Charqueada histórica de Pelotas: conheça o local que preserva a memória e já foi cenário de filmes

Espaço aberto à visitação já recebeu gravações de “O Tempo e o Vento” e “A Casa das Sete Mulheres”

Casarão foi construído entre 1807 e 1810 e hoje funciona como museu
Casarão foi construído entre 1807 e 1810 e hoje funciona como museu Foto : Caroline Souza / Especial / CP

Às margens do Arroio Pelotas, um dos cursos d’água decisivos para o desenvolvimento econômico do sul do Estado, a Charqueada São João permanece como testemunho do período que transformou o Rio Grande do Sul em um dos principais fornecedores de alimento do Brasil.

Construído entre 1807 e 1810, o casarão da antiga propriedade rural hoje funciona como museu aberto à visitação e preserva arquitetura, acervo histórico e marcas de um passado que ajudou a moldar a formação econômica, social e cultural da região.

A Charqueada São João encerrou suas atividades como indústria em 1937 e, desde 2000, está aberta ao público como atração turística. Além de preservar a memória do Ciclo do Charque, o espaço ganhou projeção nacional ao servir de cenário para produções audiovisuais como “A Casa das Sete Mulheres” e “O Tempo e o Vento.

O charque e a escravidão

Reconhecida como Patrimônio Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a São João é uma das poucas charqueadas que mantêm suas características originais do período.

A casa foi residência do charqueador Antônio José Gonçalves Chaves, figura de destaque na economia do início do século XIX, e teve sua localização escolhida de forma estratégica para facilitar o escoamento da produção de carne salgada.

Durante mais de um século, as charqueadas desempenharam papel central na economia do Rio Grande do Sul. A produção abasteceu outras regiões do país, impulsionou a pecuária e gerou riqueza, especialmente em Pelotas, influenciando a organização social do Estado em um contexto produtivo que utilizava mão de obra escravizada.

Conforme a historiadora e monitora da Charqueada São João, Luise de Oliveira Rodrigues, o papel do local vai além da preservação arquitetônica.

“A Charqueada tem uma importância muito grande para o turismo histórico porque ajuda a contar como funcionava todo o período das charqueadas. Não é possível separar essa história da escravidão, que foi extremamente triste.”, explica.

A produção de charque no RS foi baseada na mão de obra escrava | Foto: Caroline Souza / Especial / CP

Essa dimensão está presente ao longo da visita guiada. O percurso inclui a fachada e a porta original da senzala, além da casa do feitor, responsável por supervisionar a movimentação dos trabalhadores escravizados e pela aplicação dos castigos previstos à época, com o uso do tronco ou do pau de açoite.

As visitas monitoradas permitem conhecer diferentes ambientes do casarão, como a sala de descanso dos tropeiros, a área de refeições dos trabalhadores, a sala de jantar do proprietário, os quartos de hóspedes e os dormitórios das meninas da família, planejados de forma isolada do pátio da fazenda.

Atualmente, a Charqueada São João é administrada pela família Mazza, proprietária do espaço desde 1949. O atual responsável, Marcelo Mazza Terra, herdou a área — com cerca de seis hectares — por meio de sua avó, Noris Mazza. Antes disso, a propriedade pertenceu a outras quatro famílias, começando pelo fundador Antônio José Gonçalves Chaves.

Fachada da senzala é mantida na propriedade e pode ser vista durante visitação | Foto: Caroline Souza / Especial / CP

Gravação de filme e minissérie

Além do valor histórico, o local também se destaca por sua ligação com o audiovisual. A Charqueada foi utilizada como cenário na minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, exibida em 2003, e no filme “O Tempo e o Vento”, lançado em 2012, baseado na obra de Érico Verissimo.

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Outro destaque da visita é uma figueira centenária presente no pátio da propriedade. Com cerca de 500 anos, segundo estudos realizados por pesquisadores estrangeiros, a árvore se tornou um símbolo afetivo do espaço e costuma atrair visitantes que fazem pedidos sob sua copa.

A casa é uma das únicas que ainda mantém as características arquitetônicas originais e o seu próprio acervo da época | Foto: Caroline Souza / Especial / CP

Hoje, a Charqueada São João funciona diariamente e oferece visitas guiadas, almoço, passeio de barco pelo arroio e a possibilidade de realização de eventos sociais. A abertura ao turismo ocorreu de forma gradual, impulsionada pelo interesse do público e pelo reconhecimento do valor histórico do local.

O Correio do Povo visitou a Charqueada São João durante uma viagem realizada por meio da plataforma Viva o RS, iniciativa do Governo do Estado em parceria com o Sebrae RS e a Wine Locals. O projeto atua como um guia digital de turismo, conectando visitantes a experiências de natureza, cultura e história, com foco na valorização do desenvolvimento regional.