Como é a rotina na Porto Alegre que não alagou

Como é a rotina na Porto Alegre que não alagou

População e comerciantes se adaptam para tocar vidas e negócios em tempo de alagamento

Cristiano Abreu

A Porto Alegre fora d'água: comerciantes enfrentam mudança de rotina também na parte que não está alagada

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A água também é problema para quem está fora das áreas alagadas de Porto Alegre. Seja pela falta de abastecimento, por forçar o desligamento da energia elétrica ou a interrupção de serviços, a porção seca da Capital também vai precisar de mais tempo para se adaptar aos dias em dificuldades que ainda virão até o Guaíba permitir a volta da rotina.

Nos bairros Menino Deus, Moinhos de Vento e Floresta, mesmo as ruas que não foram inundadas sofrem os impactos. São dezenas de vias com bloqueios total ou parcial, sem contar o trânsito sobrecarregado em avenidas como Cristóvão Colombo, 24 de Outubro e Benjamin Constant, que além de fluxo maior, servem como rotas prioritárias para equipes de segurança e de resgate que atuam na região. Apesar de congestionamentos, a circulação de veículos ocorre sem outros impedimentos.

Em corredores para ônibus da avenida Assis Brasil, as paradas permanecem cheias de passageiros à espera. No terminal Triângulo, por onde passam coletivos vindos da região metropolitana e zona Norte de Porto Alegre, apesar dos destinos alterados pela água.

“Normalmente eu desço na avenida Cairu, mas agora vou até o bairro São João e de lá pego carona pro trabalho, que é na Benjamin”, explica a diarista Ana Rosa Santos, 37 anos.

Contudo, a Porto Alegre seca e com passagem desobstruída ainda tenta encontrar caminho para água potável chegar à população. Pelo menos 21 bairros permaneciam, nesta quarta-feira, sem abastecimento de acordo com o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE). Para tentar normalizar a vida de aproximadamente 150 mil pessoas que residem nas regiões do Auxiliadora, Azenha, Bela Vista, Bom Fim, Centro Histórico, Cidade Baixa, Farroupilha, Floresta, Independência, Jardim Botânico, Menino Deus, Moinhos de Vento, Mont’Serrat, Partenon, Petrópolis, Praia de Belas, Rio Branco, Santa Cecília, Santana, São João e Três Figueiras, o DMAE religou a estação responsável por captar a água do Guaíba e bombear até a Estação de Tratamento de Água (ETA) Moinhos de Vento.

“Até que a situação seja resolvida, pedimos aos moradores que ficaram em seus apartamentos para que racionem a água, mas apenas os andares mais baixo ainda têm alguma pressão nas torneiras. Se não voltar, o que tem nas caixas acaba nesta quinta-feira”, conta Pedro Bueno, 62 anos, síndico de um condomínio residencial no bairro Santana.

A torneira vazia impede a lavanderia do Ricardo Gomes Sigredi, 45, de abrir a lavanderia que mantém há 3 anos no bairro Floresta. Sem faturar, ele prevê dificuldades financeiras e lamenta não poder sequer contribuir de forma voluntária com a limpeza de roupas de pessoas temporariamente acolhidas em abrigos públicos. “É irônico que tanta água cause tanto estrago, e que ao mesmo tempo não possamos dispor dela para colocar a cidade em ordem”, desabafa.

A Marlene está fechando mais cedo e sofre com a instabilidade da rede de internet e telefonia | Foto: Fabiano do Amaral

O comércio na Porto Alegre que não alagou também depende de logística, energia elétrica, internet e segurança para manter portas abertas. A Marlene Maria Trasel é proprietária de uma loja de artigos para telefone celular na avenida Cristóvão Colombo. Desde o início da crise, enfrenta dificuldade com atrasos ou cancelamentos de fornecedores, conexão de telefonia e passou a fechar mais cedo, temendo assaltos, apesar de o patrulhamento da Brigada Militar esteja reforçado na região.

“É um conjunto de coisas que você não consegue trabalhar direito. A maioria dos meus distribuidores ficam no Centro, a internet com problema, e quem está aberto aqui na quadra está fechando mais cedo, por isto estou encerrando às 16h todos os dias por precaução”, avalia.

Vizinha de Marlene, uma loja de artigos para animais atende só até 18h. Conforme o gerente do local, Alexsander da Sena, a questão não é a segurança, mas a falta da energia elétrica. “Estamos abrindo já tem 11 dias sem energia elétrica, então vamos até onde temos luz natural para atender. Perdemos uma hora e meia por dia de atendimento, e isso dará um impacto pesado lá na frente. Eu tô trabalhando na minha mente, porque a sensação que a gente tem é que todo dia é o mesmo dia”, revela.

A Porto Alegre escura: loja gerenciada por Sena permanece sem energia elétrica | Foto: Fabiano do Amaral

Saindo da região mais afetada, a enchente está presente de formas diferentes na rotina de quem vive a Capital. É o caso do Jéferson Damiani Rozo, dono de um supermercado na avenida Protásio Alves, no Morro Santana. Ele não enfrenta desabastecimento de serviços como luz e água, tampouco alterou horários de funcionamento. Por lá, os dias atuais são marcados por falta de algumas marcas comercializadas. “Recebia três entregas por semana, agora tem chegado uma ou duas, então leva um tempo para normalizar, mas não tem nada de prateleira vazia”, garante.

A Júlia de Oliveira Quadros trabalhava até o início do mês dirigindo veículos de entrega de mercadorias. Com a restrição de acessos, optou por fazer viagem por meio de aplicativo de transportes de passageiros. “As mercadorias não chegam no Rio Grande do Sul porque não tem aeroporto nem estrada. E sair de Porto Alegre agora só pela ERS 118 ou ERS 040, então nem compensa pelo tempo no trânsito”, entende a condutora, que mora na Vila Ipiranga. “Faço 12 horas por dia. O tempo de trabalho aumentou e o dinheiro diminuiu, o combustível tá mais caro. Por um tempo vai ser essa a realidade”, projeta.

A Porto Alegre tranquila: praças e parques permanecem movimentados | Foto: Fabiano do Amaral

Mesmo em shoppings ou parques distantes da área central de Porto Alegre, a tragédia que marca o Estado se faz presente. Enquanto esperava o filho de 11 anos treinar, a corretora de imóveis Fernanda Corrêa conversava com a mãe, Isabel Petri no Skate Plaza, no bairro IAPI, sobre a tarde fria e ensolarada desta quarta-feira e seus efeitos sobre o recuo da água do Guaíba. “A gente sempre revezava entre a orla e aqui, mas a orla vai levar um tempo pra gente voltar a habitar. Quem vê o IAPI e o Higienópolis assim, não diz o que está acontecendo no Centro”, comenta Fernanda.

“Eu acho que vai melhorar, aos pouquinhos, mas vai. A gente não pode perder esperança”, decreta Isabel.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895