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Enquanto recomeçam: comerciantes dos bairros Floresta e São Geraldo lamentam furtos e perdas com enchente histórica

Patrulhamento na região está reforçado desde o início da cheia, garante Brigada Militar, e ganhará reforço; Sebrae lança programa de consultoria e auxílio financeiro para recuperação de empresas gaúchas

Comerciante teve restaurante destruído pela enchente
Comerciante teve restaurante destruído pela enchente Foto : Fabiano do Amaral / CP Memória

Os dias fora da rotina em Porto Alegre gerados pela enchente ganham contrastes ainda mais sombrios após o recuo das águas na região do Quarto Distrito. Ao passo que o terreno seca, além do lixo e da lama, surgem marcas de ações criminosas.

A região da Capital que tentava se reerguer economicamente, lamenta prejuízos de toda ordem. E com quarteirões inteiros vazios, apesar da presença das forças de segurança, não faltaram atos de vandalismo e arrombamentos.

Quando o empresário Albori Rodrigues da Silva deixou, no dia 3 de maio, a casa onde mora com esposa, Gelusane Lazari, no bairro São Geraldo, ele já esperava perdas sem precedentes no restaurante que mantém há 15 anos na avenida Presidente Franklin Roosevelt. Ele só não estava preparado para o baque que recebeu ao retornar, no começo desta semana, um mês depois da derradeira fúria das águas.

Insegurança no 4° Distrito | Foto: Fabiano do Amaral

“Quando eu saí, resgatado pela Defesa Civil, a água está quase no pescoço. Eu sabia que havia perdido o restaurante. Mas pensei que minha casa estaria segura”, revela.

Nino, como é chamado por clientes e amigos, passou pouco mais de 20 dias no litoral Norte gaúcho. Ao voltar à Capital, encontrou a casa, que fica em pavimento acima do estabelecimento comercial, arrombada e vandalizada.

“O que não furtaram, fizeram questão de estragar”, lamenta.

E não é força de expressão. Todos os cômodos foram revirados, portas de armários, roupeiros e até a do refrigerador foram arrancadas. Espelhos, boxes dos banheiros, taças e louças foram estraçalhadas; os televisores que não conseguiram levar pelo buraco aberto no telhado foram quebrados; fotografias, documentos e exames médicos foram atirados ao chão.

O que não foi levado acabou destruído por ladrões | Foto: Fabiano do Amaral

A casa vai ficar para depois. Nesta manhã, Nino e alguns funcionários do restaurante faziam a limpeza do estabelecimento, na tentativa de recomeçar. Mais de uma tonelada de carne, dezenas de outros produtos, além dos equipamentos estragados e de toneladas de lama. Nem as máscaras que cobriam bocas e nariz davam conta do cheiro impregnado no local. A ardência nos olhos também foi um desafio extra citado pelo comerciante durante o processo de limpeza.

“Do meu restaurante sobrou apenas as paredes. Em um ambiente de alimentação, não dá para aproveitar nenhum equipamento, mesmo os que não estragaram com a água, mas o que fizeram na minha casa foi o mais difícil de aceitar. Eu pergunto, um homem de 60 anos recomeça como? Tira força de onde? Sem ajuda do governo, não sei como”, desabafa, o empresário que tenta buscar um meio de manter o sustento da família e de salvar os seis empregos que seu estabelecimento gera.

Apoio para recomeçar

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no RS vai ajudar micro e pequenos empresas atingidas pelas enchentes com consultoria e auxílio na reposição de materiais e insumos. O anuncio, divulgado no último dia 29, é esperança para milhares de comerciantes afetados em Porto Alegre.

O trabalho auxiliará as empresas no mapeamento de suas necessidades para recuperação do espaço físico, de materiais e de insumos por meio da consultoria Sebraetec Supera. Os beneficiados receberão avaliação e consultoria do time do Sebrae RS e, após, reembolso de até R$ 15 mil sobre os custos com reparos, manutenção ou reposição de equipamentos e mobiliário afetados pelos alagamentos. Assim, o reembolso será por porte. Microempreendedor individual (MEI) poderá receber até R$ 3 mil, microempresa até R$ 10 mil e empresa de pequeno porte até R$ 15 mil.

Em caso de não haver possibilidade de reparo, os itens adquiridos deverão ser iguais ou similares àqueles substituídos. Não são elegíveis para reembolso itens cobertos por seguros ou obtidos por doação. O prazo médio para o reembolso é de 45 dias. De acordo com o presidente do Conselho Deliberativo Estadual do Sebrae RS, Luiz Carlos Bohn, a iniciativa integra uma ampla gama de medidas adotadas, para dar suporte aos pequenos negócios gaúchos e conta com empresas parceiras.

“Tem um grupo de empresários que não sabe os prejuízos e sequer conseguiu voltar para a empresa. Há também aqueles que já possuem uma avaliação prévia. E tem ainda um terceiro grupo que está completamente desmotivado e não sabe ao certo o que pode acontecer. Para ajudar esses empreendedores de forma mais direta, estamos redirecionando esforços em razão da calamidade, e essa consultoria que vamos oferecer é mais uma medida para dar suporte nesse momento. Assim, o Sebrae RS vai ajudar o empresário a identificar exatamente o que ele precisa para retomar a saúde do negócio o mais breve possível”, explica Bohn.

O contato inicial pode ser feito pelo site da entidade.

Assessoria de Negócios

Outra iniciativa de apoio que o Sebrae RS está promovendo é a Assessoria de Negócios, um produto baseado na metodologia dos Small Business Development Centers (SBDC), programa da Small Business Administration (SBA), dos Estados Unidos. Esse programa estrutura centros de desenvolvimento de pequenas empresas por todo o país, oferecendo treinamento, assessoria individual e soluções para o desenvolvimento sustentável e de longo prazo dos negócios. De forma semelhante ao Sebrae, esses centros utilizam métricas econômicas estratégicas para orientar suas ações.

Com apoio do Sebrae, o principal objetivo da Assessoria de Negócios é garantir que as pequenas empresas afetadas pelas enchentes possam se reconstruir e sobreviver, mantendo sua operação, preservando empregos e aumentando o faturamento. Cada analista de relacionamento com clientes do Sebrae RS será responsável por um grupo de clientes, com uma carteira de no mínimo 50 empresas. As empresas atendidas serão organizadas conforme a região e a situação atual (sobrevivência, reconstrução ou emergência). O atendimento, desse modo, precisará elaborar um plano de ação individual para cada empresa com o objetivo de garantir a operacionalidade e a sobrevivência do negócio. Os produtos e serviços serão adaptados para alcançar os objetivos esperados.

Patrulha ostensiva

No comando do 9° BPM da Brigada Militar, o tenente-coronel Fábio da Silva Schmitt afirma que desde o início da enchente, os bairros Floresta e São Geraldo, policiados pelo Batalhão, receberam reforço no patrulhamento.

“Temos a Força Nacional, homens da Polícia Militar e da Patrulha ambiental de São Paulo reforçando a segurança destes bairros, além do Centro. Trouxemos PMs que executavam serviço administrativo para a rua, além de soldados que estão em fase final de formação”, enumera o tenente-coronel, que destaca ainda que a região foi patrulhada também com auxílio de embarcações.

Para ampliar a presença da segurança publica nos bairros São Geraldo e Floresta, a partir desta quinta-feira, o patrulhamento será acrescido por homens e viaturas do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), da PM de São Paulo.

“Casos isolados aconteceram, mas asseguro à população que estamos presentes dia e noite, com efetivo reforçado por forças de dentro e de fora do Estado, garantindo a ordem e a segurança”, garante Fábio Schmitt.

Conforme dados do 9º BPM, foram registradas 20 ocorrências de furto e arrombamento nos bairros São Geraldo, Floresta e Centro Histórico.

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