Não faltam exemplos dos mais diversos prejuízos causados pela cheia do Guaíba ao Centro Histórico de Porto Alegre. Rua a rua, quadra a quadra pipocam recortes dos tempos difíceis, retratos do que ainda está por vir.
O pós-água revelou uma região fragilizada. Foi a primeira a ser evacuada, a ficar no escuro, e provavelmente será a última a assumir ares ditos normais, dentro do que se espera do coração de uma cidade.
Uma caminhada entre a Casa de Cultura Mario Quintana, Praça da Alfândega, e Voluntários da Pátria dá a dimensão da gravidade do momento. A lama exala um cheiro que, figuradamente, fica gravado na memória. As quadras estão tomadas de lixo, de tudo que já saiu de dentro dos comércios. Não é possível ver nos cafés e praças a vida habitual. Nada de reunião de amigos, nenhum artista de rua. Cortinas de ferro e vitrines embarradas predominam.
A impressão é que só caminha pela parte baixa do Centro aqueles que realmente precisam. De dentro dos prédios saem mangueiras bombeando água que teimou em ficar. Rodos, baldes, vassouras e alvejante são companhias necessárias, assim como lanternas e geradores.
A Ângela Silveira Rodrigues, 47 anos travou uma briga com o barro. Levou dois dias para lavar a loja de roupas que tem na rua dos Andradas. Ela perdeu todo o estoque. Os móveis agora são lixo, todos colocados na calçada. “Sobrou apenas o que consegui carregar para casa antes de fechar”, conta.
As poucas portas reabertas não encontram clientes. Dono de uma lancheria na Praça da Alfândega, o Eduardo Cardoso Filho conta nos dedos os visitantes. “Foram três o dia inteiro”, lamenta.
Nestes dias difíceis, a Voluntários da Pátria, guarda semelhança com um depósito de entulhos. São muitas as pilhas de descartes assim como a quantidade de gente revirando o lixo. Com sacos nas mãos, tênis, cintos, artigos domésticos, tecidos, estoques rejeitados pelos lojistas são esperança para quem se arrisca e não se importa com o odor.
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Na Praça Quinze de Novembro, o olhar estagnado de uma mulher na direção do chão se destacava. Era a Sabrina Bumbel, dona de uma banca de revistas que fica perto do Chalé. Em novembro do ano passado, ela assumiu o espaço, que é da família há mais de 40 anos. Faz três meses que investiu aproximadamente R$ 30 mil em uma reforma.
“Não sobrou nada. É incalculável o que aconteceu… não sei se vou ter como recomeçar… só por Deus”, desabafou entre frases incompletas e lágrimas.
Na avenida Otávio Rocha havia uma banca de flores aberta. Um colorido, ainda que tímido, em meio ao barro. Adiante, na esquina com a Vigário José Inácio, uma loja de artigos esportivos usava uma bomba para drenar o interior. Quem trabalha no local até tentou preparar o comércio para o que viria, vedando com espuma expansiva as frestas das portas. Foi em vão, uma vez que a água, impiedosa, não respeitou limites por onde passou.
Desta mesma loja vem uma mensagem que pode ser interpretada como fiel reporte destes dias que se desenrolam sem convicções. À coletividade, alguém escreveu com tinta spray nas cortinas de aço da fachada a frase: “Cada um se cura como pode”. Ao seu modo, ao seu tempo, do jeito que der, é o que todos desejam para Porto Alegre.