Em Porto Alegre, são recolhidos diariamente das residências mais de 1,2 mil toneladas de resíduos, sendo apenas 40% do material tem potencial reciclável, de acordo com levantamento do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). O restante é composto por resíduos orgânicos e rejeito da coleta domiciliar. Do total, 69,44 toneladas são de recicláveis apanhados pela coleta seletiva.
Somam-se aos orgânicos e rejeito os resíduos públicos e as cargas recebidas na Estação de Transbordo, instalação intermediária onde os resíduos sólidos são depositados para seguirem em caminhões ao aterro sanitário, em que se chega a um total de 1,7 toneladas por dia de material enviado para o aterro sanitário. Dos resíduos domiciliares, 5,7% são da coleta seletiva.
Segundo o DMLU, são cerca de 467,27 toneladas de materiais, da coleta domiciliar de mistos, que poderiam ser reciclados e são descartados indevidamente por dia em Porto Alegre. Capital, que é pioneira na coleta seletiva, ainda passa por desafios para a destinação correta dos resíduos.
Descarte incorreto é principal desafio
Todo o material recolhido pelos caminhões da Coleta Seletiva é levado para as Unidades de Triagem (UTs) conveniadas com o DMLU, gerando emprego e renda para os recicladores. Antes de chegarem às UTs, os resíduos são coletados, em Porto Alegre, por equipes da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre (Cootravipa), que está no segundo contrato.
"É um percentual elevado que não é aproveitado, que vai para rejeito", reconhece Imanjara Marques de Paula, presidente da cooperativa. Na sua análise, entre os principais fatores para isso, estão os resíduos que não são descartados de forma adequada. "Temos a cultura da comunidade, que é não saber, não ter a conscientização ambiental, do que é reciclável ou não. Existe muita dúvida do quanto se recicla e o que que não se recicla. Não é só em Porto Alegre, mas em todos os centros urbanos", disse.
O mesmo reconhece Gerno Prado, diretor-presidente da UT Coopertinga, no bairro Rubem Berta. "Quando o lixo chega na unidade, ele está contaminado, já vem inutilizado porque está misturado. Aí acontece alta quantidade de descarte, infelizmente", diz.
A coleta seletiva chega na UT por meio dos caminhões da Cootravipa. Apenas na Coopertinga, são cerca de 40 pessoas envolvidas na separação. Diariamente, são recebidas cerca de 15 toneladas de resíduos. No processo de reciclagem, é retirado o rejeito, que não poderá ser comercializado, e o que é reaproveitado é separado para venda. Uma segunda triagem separa os materiais por tipo e cor de material, e depois são pesados. Entre os itens mais vendidos, estão garrafas PET e latinhas de bebidas.
"É muito resto de comida, que acaba contaminando tudo, e vai para o descarte. Porque a gente não tem como lavar, acaba ficando mais caro", relata Prado. Ele atribui a situação a uma falta de educação ambiental. "Ele é discutido muito superficialmente. Acho que tinha que ser mais abordado nas escolas, em outros lugares. O retorno seria muito melhor", complementa.
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Entre os itens que não são recicláveis descartados inadequamente, Imanjara destaca o isopor. "Todo mundo pega essa embalagem de isopor e põe no reciclado. Só que o isopor é algo que não é reciclado hoje pelos serviços que são disponibilizados às criadoras. Então o isopor acaba indo para o rejeito", disse. Gerno lembra que muitas pessoas misturam os materiais recicláveis aos restos de comida. Ele também alertou que não é necessário lavar os itens recicláveis, apenas tirar o resíduo com um guardanapo já faz diferença.
Questionado se o número de materiais aproveitados está aquém do esperado, o diretor do DMLU, Carlos Alberto Hundertmarker, salientou que há interesse do órgão que o dado aumente. "Nós saímos de um investimento de R$ 1,2 milhões para R$ 3,4 milhões para fazer ainda mais a triagem dos resíduos recicláveis da nossa cidade", afirmou.
Entre as ações, o diretor também destaca a coleta automatizada na cidade, com a inserção de contêineres em quatro áreas da Capital. Pontuou, ainda, que o órgão realiza ações de educação ambiental. "Dentro da Diretoria de Educação Ambiental, durante toda a semana e finais de semana tem eventos públicos de sensibilizações, com palestras principalmente as pessoas que vivem na cidade, sobre a importância que tem a separação do resíduo ou orgânico para o seletivo".
O diretor leva a responsabilidade também para a população. "Se nós não tivermos o apoio da população, se nós não desenvolvermos ainda mais essa consciência ambiental, esse jogo não será benéfico para a sociedade, para o mundo, para o planeta Terra. A gente sabe que a gente tá passando por vários desafios climáticos. Para nós limparmos toda nossa cidade das áreas alagadas e retirar os resíduos da nossa cidade, foram gastos 100 milhões de reais".
Ele acrescentou, também, a reformulação do Código Municipal de Limpeza Urbana, com a ampliação da fiscalização e de multas que chegam até R$ 8 mil.
A importância das ações de conscientização ambiental
A Cootravipa começou, em 2021, com o projeto Coleta TRI, desenvolvido em parceria com o Município, como resposta ao crescimento da coleta clandestina de resíduos durante a pandemia. A iniciativa utiliza QR Codes para monitorar, em tempo real, o volume de resíduos coletados de grandes geradores de lixo. O aplicativo também disponibiliza conteúdo informativo e educativo. Como resultado, houve um aumento de mais de 30% no volume de resíduos coletados, segundo a entidade.
A cooperativa também realiza ações em escolas municipais, em parceria com o DMLU. "Mas ainda temos muito a avançar, né? Não é à toa que a gente tem muito foco de lixo na cidade. Tem que se desenvolver muito essa conscientização da comunidade pra gente garantir que a gente consiga reciclar efetivamente, no mínimo, 15% 20% do que a gente gera de resíduo, está muito abaixo disso hoje", disse a presidente. Segundo Imanjara, se a população tivesse mais consciência na ação de separar corretamente, o índice de reaproveitamento dos rejeitos seria maior.
Orientações para reciclagem
Existem orientações determinadas para auxiliar na maneira correta da reciclagem. Entre elas, está, primeiramente, retirar os resíduos orgânicos das embalagens e acondicionar os materiais recicláveis em sacolas ou sacos de até 100 litros, dispondo na calçada junto ao alinhamento do imóvel. É importante ter atenção nos dias e nos turnos estabelecidos para a ocorrência da coleta seletiva no endereço. Os vidros devem ser embalados, para evitar que se quebrem ou que machuquem os coletores.
Há, também, opção para quem não quiser ou não puder esperar a Coleta Seletiva. Em Porto Alegre, é possível levar resíduos recicláveis até os Pontos de Entrega Voluntária de Recicláveis (PEVs), localizados em diferentes bairros da cidade. Mais informações estão disponíveis no site do DMLU.