A menos de dez dias do prazo final para desocupação da Vila Brasília, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, moradores vivem a incerteza sobre o futuro. A remoção das 57 famílias que vivem na área é necessária para a continuidade das obras de reforço no dique do Sarandi, que teve parte elevada após as enchentes de 2024. No entanto, relatos de dificuldades financeiras e falta de garantias no reassentamento geram preocupação entre os afetados.
Mesmo sem ser diretamente afetado neste primeiro momento, o autônomo Claudir Pedro Brito Pole, 42 anos, acompanha a situação dos vizinhos e, por morar, literalmente, dentro do dique, sabe que também precisará sair na sequência. Ele afirma que a remoção ainda é um “imbróglio” e diz que não sairá do local enquanto não receber uma casa. “Não vamos aceitar que nos obriguem a achar uma casa do jeito que querem. Tenho meus animais e não posso simplesmente sair sem ter um lugar adequado para levá-los”, ressalta.
A preocupação se estende também a moradores que têm negócios na comunidade. Fátima Velasquez, 58 anos, e Nilton Adair Siqueira, 54, administram um bar na rua Aderbal Rocha de Fraga há quatro anos e não sabem como recomeçar em outro lugar. “Queremos sair, mas queremos garantia. O aluguel solidário de R$ 1 mil não cobre o custo das casas que encontramos, e ainda teríamos que arcar com caução e mudança”, explica Siqueira. “Ele juntou o fundo de 25 anos de carteira assinada em uma empresa para investir neste bar. Não é fácil abandonar tudo assim, sem ter um lugar certo para ir”, acrescenta Fátima.
A Prefeitura de Porto Alegre divulgou que, 45 das 57 famílias já tiveram seus cadastros aprovados pela Caixa Econômica Federal para o programa Compra Assistida, que auxilia na aquisição de moradias definitivas. Para os demais, a opção temporária é a Estadia Solidária, que prevê o pagamento de R$ 1 mil mensais por até 12 meses.
Mesmo assim, há relatos de famílias que não conseguem encontrar moradias dentro desse valor. A cuidadora Carmem Silvia de Góes, 39 anos, e sua filha, a estudante Rayana Brenda de Góes Trindade, 24 anos, dizem que os aluguéis mais baratos custam R$ 1.400 e exigem caução. “Nos disseram que podemos ficar na casa de parentes, mas casa de parente é para visitar, não para morar um ano”, desabafa Carmem.
A Secretaria Municipal de Habitação afirma que os servidores do Demhab realizaram uma nova visita técnica à área na quinta-feira (20) para esclarecer dúvidas dos moradores. Segundo o diretor-geral da pasta, André Machado, o município segue trabalhando individualmente com as 12 famílias cujos cadastros ainda não foram aprovados.
As obras no dique do Sarandi começaram em janeiro e já elevaram a estrutura a 5,8 metros. A continuidade dos trabalhos depende da remoção completa das famílias da rua Aderbal Rocha de Fraga. Paralelamente, o Dmae segue com estudos para elevar a cota da estrutura a sete metros, ampliando a segurança contra cheias.
O Correio do Povo procurou a Prefeitura para esclarecer as dúvidas levantadas pelos moradores, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.