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Morte em meia maratona de Porto Alegre reforça importância de exames e preparo antes de correr

Além da avaliação médica, especialista recomenda atenção ao corpo e cuidados com alimentação, descanso e sinais de alerta antes das provas

Minutos antes da largada da meia maratona de Porto Alegre, no sábado (7), milhares de corredores se preparavam para o desafio
Minutos antes da largada da meia maratona de Porto Alegre, no sábado (7), milhares de corredores se preparavam para o desafio Foto : Alex Rocha / PMPA / Divulgação / CP

O número de corridas de rua no Brasil aumentou 29% em 2024, segundo levantamento da Associação Brasileira dos Organizadores de Corrida de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo). Foram 2.827 provas oficiais realizadas em todo o país, um reflexo do crescimento do interesse pela prática esportiva e da consolidação das corridas como eventos populares e acessíveis.

Com o aumento das provas, cresce também a preocupação com a saúde dos participantes. A preparação física e os cuidados médicos prévios nem sempre acompanham a empolgação dos corredores, especialmente entre os iniciantes. O alerta ganhou força após a morte de um jovem de 20 anos durante a meia maratona de Porto Alegre, no sábado (7), reforçando a importância de protocolos mais rígidos de avaliação e suporte em eventos de longa distância.

O médico Irani Paulo Carlotto explica que, em casos como esse, a principal suspeita costuma recair sobre uma parada cardíaca súbita, geralmente associada a doenças cardíacas silenciosas. “Normalmente a gente vincula, mesmo como leigo, com algum problema cardíaco, como uma arritmia aguda que, em muitos casos, tem desfecho fatal”, afirma. Outras causas, no entanto, não podem ser descartadas, como acidente vascular cerebral (AVC), rompimento de aneurisma, embolia pulmonar ou ainda problemas respiratórios agravados pelo esforço.

Doenças pré-existentes e riscos silenciosos durante a corrida

Segundo o especialista, doenças pré-existentes — mesmo que controladas — podem ser desencadeadas durante provas como a meia maratona. Se o participante já tem algum problema respiratório ou cardíaco, o esforço intenso pode funcionar como gatilho para um evento agudo. Por isso, Carlotto recomenda que todos os atletas, especialmente os amadores, passem por avaliação médica antes de uma prova.

Essa avaliação deve ser orientada por um cardiologista, com exames que variam conforme o histórico de cada paciente. “Se a pessoa tiver alguma condição de base, como arritmias, asma ou outra doença crônica, é preciso investigar e direcionar os exames para essa condição”, diz o médico. Mesmo quem está em fase de treinamento deve manter as consultas em dia. Ele lembra que situações aparentemente estáveis podem se agravar diante de um esforço mais intenso, como o de uma prova de 21 ou 42 quilômetros.

A necessidade de preparo médico prévio é respaldada por estudos recentes. O “Marathon and Half-Marathon Cardiac Arrest Registry”, apresentado no congresso do American College of Cardiology de 2024, analisou 29,3 milhões de corredores entre 2010 e 2023 nos Estados Unidos. Foram identificados 176 casos de parada cardíaca em provas de longa distância, com 59 mortes. A taxa de mortalidade caiu de 48% para 25% no período analisado, e os autores apontam como principal fator de redução a presença de desfibriladores e equipes treinadas ao longo dos percursos.

Outro estudo, conduzido pelo Massachusetts General Hospital e publicado em 2023, chegou à mesma conclusão. Segundo os pesquisadores, a chance de sobrevivência em casos de parada cardíaca dobra quando o atendimento é iniciado em até três minutos. A pesquisa reforça a importância de suporte médico bem distribuído durante a realização das provas, principalmente em trechos mais afastados ou de difícil acesso.

No Brasil, ainda faltam dados consolidados sobre mortalidade em maratonas, o que dificulta o acompanhamento da evolução dos riscos. Segundo levantamento publicado pela revista Contra Relógio, com base em entrevistas com médicos do esporte, estima-se que o risco de morte súbita durante maratonas seja de aproximadamente 1 a cada 50 mil corredores. A maioria dos casos estaria relacionada a condições cardíacas não diagnosticadas, como arritmias ou miocardiopatias, somadas à ausência de exames preventivos e ao despreparo físico.

Carlotto observa que será sempre difícil encontrar estatísticas precisas sobre mal súbito durante corridas, justamente porque esse tipo de ocorrência pode estar ligado a uma série de condições, nem sempre cardíacas. “Pode ser uma doença neurológica, respiratória ou outra crônica que o atleta já tenha, e que se manifesta com o esforço físico”, afirma. Ele cita como referência um dado da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ainda de 2020, segundo o qual cerca de 215 mil pessoas morreram naquele ano por morte súbita associada a problemas cardíacos. “Não sei se foi uma estimativa ou se foram dados de serviços de saúde, mas é a única informação mais próxima que temos”, diz.

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Sinais de alerta e fatores que aumentam o risco durante a prova

O médico reforça que, além da avaliação clínica prévia, os atletas devem estar atentos ao próprio corpo nas horas que antecedem a corrida. Situações como dor no peito, tontura, dor de cabeça, sensação de fraqueza ou desmaio iminente não devem ser ignoradas. “Às vezes o atleta está tão envolvido no desafio que não percebe que está indo além do limite. Mas esses sinais podem ser indicativos de algo grave e precisam de avaliação imediata, antes, durante ou até mesmo depois da prova.”

Além da avaliação clínica, Carlotto destaca que os cuidados nas 24 horas que antecedem a corrida são igualmente importantes. Ele orienta que os corredores evitem treinos intensos no dia anterior, priorizem uma boa noite de sono, mantenham uma alimentação leve e reforcem a hidratação com moderação. “É um período de preparação silenciosa do corpo. Pequenos descuidos, como falta de descanso ou alimentação inadequada, podem interferir negativamente no desempenho e aumentar o risco de eventos agudos durante a corrida”, afirma.

✅ Cuidados essenciais antes de correr uma maratona ou meia maratona

Realize uma avaliação médica completa

Antes de se inscrever na prova, agende uma consulta com seu médico — preferencialmente um cardiologista. Pessoas com doenças crônicas, como asma ou arritmias, devem fazer uma investigação direcionada.

Solicite exames específicos, se indicado

Dependendo do histórico clínico, o médico pode solicitar exames como eletrocardiograma (ECG), ecocardiograma, teste ergométrico ou outros mais específicos para garantir segurança na prática da atividade.

Informe-se sobre seu histórico de saúde

Muitos casos de mal súbito estão ligados a doenças cardíacas silenciosas ou condições neurológicas e respiratórias não diagnosticadas. Ter consciência do seu quadro de saúde pode prevenir complicações.

Mantenha os exames em dia durante o ciclo de treinos

Mesmo quem já está treinando para a prova precisa manter o acompanhamento médico regular. A preparação física não elimina o risco se houver uma condição de base não tratada.

Respeite sinais do corpo antes e durante a prova

Sintomas como dor no peito, tontura, sensação de desmaio, dor de cabeça intensa ou fraqueza anormal são sinais de alerta. Se sentir qualquer um deles, pare e procure ajuda.

Evite treinos intensos nas 24 horas anteriores

No dia anterior à corrida, descanse. Não force o corpo com treinos de última hora. Uma boa recuperação física é parte fundamental do desempenho e da segurança.

Durma bem na véspera

Uma noite mal dormida pode afetar a frequência cardíaca, a atenção e o rendimento físico. O ideal é dormir pelo menos 7 a 8 horas antes da prova.

Cuide da alimentação no dia anterior

Prefira refeições leves, com boa digestibilidade e equilibradas em carboidratos e proteínas. Evite comidas pesadas, bebidas alcoólicas e excesso de cafeína.

Hidrate-se de forma gradual

Comece a hidratação ao longo do dia anterior à prova, sem exagerar. Ingerir líquidos em excesso de uma só vez pode causar hiponatremia, condição perigosa de baixa de sódio no sangue.

Atenção ao clima e ao estresse emocional

Calor excessivo, frio intenso e fatores emocionais — como ansiedade ou pressão por desempenho — interferem diretamente no corpo. Adapte sua estratégia e esteja preparado para rever seus limites.

Conheça a estrutura da prova

Verifique onde estarão os postos médicos e de hidratação ao longo do percurso. Saber onde buscar ajuda pode salvar vidas em casos de emergência.

Se estiver com sintomas gripais ou indisposição, reconsidere correr

Mesmo uma condição leve pode ser suficiente para comprometer a segurança. O esforço físico agrava quadros inflamatórios e aumenta o risco de eventos cardíacos.