Iniciadas em junho de 2022 e inicialmente previstas para serem concluídas no último mês de maio, as obras do Quadrilátero Central devem ser entregues somente em fevereiro de 2025. Apesar de estar com 95% da obra bruta pronta, conforme informado pela Prefeitura, diversos pontos são alvos de questionamentos e reclamações da população, no conjunto de revitalização e urbanização de nove ruas do Centro Histórico.
No primeiro semestre deste ano, quando as obras já estavam em meio aos acabamentos finais, ocorreu a maior enchente da história de Porto Alegre e, como resultado, piorou tudo aquilo que já era considerado ruim mesmo antes das enchentes.
Há pouco mais de um ano, em novembro de 2023, o Correio do Povo percorreu as ruas do Quadrilátero com o conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (Caurs), José Daniel Craidy Simões, e ouviu dele impressões negativas a respeito do estado de conclusão da obra até então.
Meses antes, a Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), cuja sede está localizada em um edifício bem em frente a uma das ruas contempladas nas obras, também já havia questionado a falta de acessibilidade, afirmando que não havia sido ouvida para dar sugestões sobre o tema. A falta de diálogo foi negada pelo secretário Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), André Flores.
Ao circular por alguns dos pontos nesta semana, a situação ainda é alvo de diversas reclamações. Um dos principais problemas está localizado na rua Dr. Flores, entre a rua General Vitorino e a rua dos Andradas. No local, uma parte do calçamento precisou ser retirada para reparos na rede pluvial, fazendo com que pedras e areia estivessem espalhadas pelas ruas, causando transtornos aos pedestres e motoristas, assim como aos comerciantes e moradores.
Conforme a gerente de uma empresa ligada à área da saúde e instalada na rua, Marizete da Rosa, a poeira causada pelas obras torna quase inviável a atividade. “A loja está imunda por fora, assim como os produtos no interior. Isso é inadmissível para uma empresa da área da saúde. O que está sendo feito é terrível”, lamenta. Segundo ela, a situação também causa prejuízos financeiros para o estabelecimento. “Perdemos cerca de 30% desde que começaram as obras. Muitos dos nossos clientes são idosos, que praticamente não conseguem chegar até aqui”, acrescenta.
A jovem Renata Reis, que trabalha com panfletagem na esquina entre as ruas Dr. Flores e General Vitorino, também revela reclamações constantes que ouve dos pedestres. Ela também já presenciou diversos incidentes. “Muitas pessoas escorregam na areia até chegam a cair. Esses dias um idoso com dificuldades de locomoção quase foi atingido por uma pedra no momento da passagem de um caminhão. Passo o dia inteiro ouvindo reclamações e vendo estas situações”, conta.
São justamente os idosos os maiores prejudicados pelos transtornos causados pela obra. A aposentada Elizabete Paim relatou a dificuldade por ter de desviar dos calçamentos soltos e amontoados na caçada, empilhados à espera das obras pluviais para serem recolocados. “Tenho problema no joelho e vim, justamente, para fazer exames. Eu e meu companheiro, para andar neste Centro, é um desespero”, afirma.
Em outros trechos do Quadrilátero, a situação é semelhante. Entre a rua dos Andradas e a Borges de Medeiros, uma equipe trabalhava na tarde de quarta-feira (4). Ao mesmo tempo, pedestres precisavam desviar, tanto dos trabalhadores, quanto dos materiais deixados no chão. Em certo ponto, uma mangueira brotava da calçada e ameaçava a circulação daqueles menos atentos aos obstáculos no chão.
Por circular todos os dias pela região central, o aposentado Luiz Felipe Ribeiro já está acostumado com as obras e seus transtornos. Ainda assim, em duas oportunidades, foi traído pelos obstáculos. “Há poucos dias, caí um tombo. Muitos trechos têm afundamentos no piso e, muitas vezes, não possuem nem aviso. Na semana passada também vi uma idosa cair na minha frente”, relata.
O que diz a Prefeitura
Questionada sobre o andamento, a Secretaria de Obras e Infraestrutura (Smoi) informou que 95% da obra bruta está concluída e que, a conclusão esteja prevista apenas para fevereiro, alguns trechos poderão ser entregues antes.
Em relação aos problemas, especialmente nos locais em que os trabalhos já haviam sido praticamente finalizados, a pasta diz que “o que foi danificado será trocado”. Além disso, diz que “a equipe de fiscalização da Smoi anda diariamente no trecho e está ciente de todas as questões”.
Um cronograma com a programação de atividades que serão realizadas até a sexta-feira (6) também foi divulgado:
Avenida Borges de Medeiros - Trecho entre a rua dos Andradas e a rua José Montaury:
- Aplicação de terra vegetal e plantio de grama no canteiro central;
- Conclusão da pavimentação lado par;
- Início da limpeza geral do trecho.
Rua dos Andradas - Trecho entre a avenida Borges de Medeiros e a rua Marechal F. Peixoto:
- Remoção do piso granito junto a esquina com a rua Marechal F. Peixoto;
- Regularização de base e assentamento do piso de concreto pré-fabricado próximo à esquina com a rua Marechal F. Peixoto;
- Avanço na substituição das placas de concreto danificadas;
- Início da limpeza geral do trecho.
Rua Doutor Flores - Trecho entre a rua dos Andradas e a rua Gen. Vitorino:
- Avanço na repavimentação;
- Instalação das placas de sinalização.
OBRAS INACABADAS DO QUADRILÁTERO CENTRAL